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Bolsonaro martela tese de fraude nas urnas, mesmo sem provas

Enquanto isso, Haddad se reúne com ex-ministro do Supremo Joaquim Barbosa em Brasília em busca de apoio

 Joaquim Barbosa ao chegar à sede do PSB no dia 19 de abril.
Joaquim Barbosa ao chegar à sede do PSB no dia 19 de abril. EFE

Jair Bolsonaro dá sinais de que pretende administrar sem muitos riscos sua ampla vantagem na corrida eleitoral rumo ao Planalto. Nesta quinta-feira, ele admitiu que, por "estratégia", pode não ir a nenhum debate contra o petista Fernando Haddad, a quem chamou de "pau mandado" do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Sem entrar em detalhes, disse que poderia ir num embate que houvesse perguntas diretas entre eles e "sem interferência de terceiros."

O anúncio, feito em entrevista à radio CBN, não causa surpresa. Com uma vantagem de 16 pontos nos votos válidos, Bolsonaro tem mantido a campanha em sua zona de conforto: falando pelas redes sociais ou concedendo entrevistas curtas. Nesta quinta-feira, abriu duas exceções: aceitou perguntas de jornalistas em um evento de seu partido, o PSL, no Rio, o primeiro ato público desde que sofreu o atentado a faca em 6 de setembro, e respondeu aos profissionais da CBN.

No Rio, uma jornalista da Folha chegou a ser vaiada pelos partidários do candidato –a hostilidade foi contida pelo apelo do presidente do PSL– ao perguntar a Bolsonaro sobre os ataques de quem se apresenta como seu eleitor a oponentes. Ele voltou a lamentar os episódios, mas repetiu que não pode controlar milhões de apoiadores. Especialistas e ONGs pressionam para que o candidato seja mais contundente contra a violência, argumentando que seus seguidores mais radicais podem se sentir autorizados por seu histórico de declarações agressivas contra minorias.

Já na CBN, Bolsonaro voltou a dizer que desconfia das urnas eletrônicas, mesmo sem apresentar provas. Questionado se as falhas não teriam afetado suas sucessivas eleições para deputado, ele disse: "Nós desconfiamos para presidente". O candidato citou um número sem origem factual: disse que 90% das pessoas não confiam no sistema. "Vocês estão afastados do povo", arrematou, numa cartilha já usada por Donald Trump que também martelou a tese da desconfiança do sistema americano.

Haddad busca Joaquim Barbosa

Enquanto isso, segue a corrida contra o tempo do candidato do PT à Presidência da República, Fernando Haddad. Ele esteve na noite de ontem, em Brasília, com o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa. Trata-se do gesto mais explícito feito por Haddad até o momento na sua tentativa de construir um arco de alianças para além dos aliados históricos do PT: Barbosa foi relator do Mensalão no Supremo, processo que condenou as principais lideranças da legenda, como o ex-ministro José Dirceu. Em razão disso, o magistrado é considerado um verdadeiro algoz dentro do PT.

Haddad voou a Brasília no final da tarde desta quarta-feira. Antes, havia se comunicado com o presidente do PSB, Carlos Siqueira, e solicitado que ele intermediasse um encontro com Barbosa. O ex-presidente do STF é filiado ao PSB e foi cotado com um possível candidato a presidente pelo partido. Ele chegou a figurar com índices expressivos de intenção de voto, mas alegou razões pessoais e acabou desistindo. Nem Haddad nem Barbosa se manifestaram até o momento sobre se o ex-presidente da Suprema Corte aceitou ou não se aliar ao petista.

No comitê da campanha de Haddad, a criação de uma frente que extrapole as fileiras do PT é considerada fundamental para tentar tirar a vantagem que, segundo as pesquisas de opinião, Bolsonaro mantém sobre o petista. Haddad tenta construir uma candidatura que se assemelhe a uma coalizão de forças contra o perfil autoritário de Bolsonaro. Não é uma tarefa fácil e os primeiros obstáculos já surgiram ontem, quando Ciro Gomes, terceiro colocado na disputa presidencial, declarou apenas um "apoio crítico" ao ex-prefeito de São Paulo. Gomes não se empenhará na campanha de Haddad e viajou para a Europa para descansar com seus familiares.

Nesta manhã, nova investida de Haddad por mais apoios. Ele se reuniu em Brasília com o secretário-executivo da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Leonardo Steiner. Na saída, disse que muitos dos princípios defendidos pela cúpula da Igreja Católica no Brasil estavam contemplados em seu plano de governo. Haddad citou os temas do aumento da violência, o fortalecimento da democracia e das instituições que permitem o combate à corrupção; a preservação do meio ambiente e do "direito à vida". Ele usou apenas a expressão genérica, mas trata-se de uma sinalização contra projetos que ampliem as hipóteses em que hoje se permite abortar no Brasil.

Um melhor desempenho entre os católicos e, principalmente, entre os eleitores evangélicos é vital para que o presidenciável do PT mantenha alguma chance de virar o jogo. Nos dois eleitorados, ele perde para o capitão reformado do Exército, segundo o último Datafolha.

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