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ANÁLISE i

A lição de Bolsonaro

Polarização, guerra cultural e autoritarismo ‘anti-establishment’ impulsionaram o candidato ultradireitista

Bolsonaro no último dia 7 de outubro.
Bolsonaro no último dia 7 de outubro. AFP

Há apenas um ano, Jair Bolsonaro era tratado como uma espécie de piada. Uma brincadeira que só dava medo quando alguém se deixava levar muito pelo jogo do “e se”. E se começarem a dar trela para ele? E se ele começar a subir nas pesquisas? E se ganhar?

No domingo, a brincadeira terminou. Os risos entre seus críticos, também. Superou até as pesquisas mais otimistas, que em todo caso já vinham detectando seu crescimento. Ao mesmo tempo, a esperança florescia entre os ideólogos reacionários e autoritários de toda a América Latina. Porque a história de Bolsonaro é a de um empreendedor político. Alguém que soube ler melhor do que ninguém o contexto em que se encontrava, e aproveitá-lo para consolidar uma demanda graças a três fatores cruciais: polarização, guerra cultural e erosão institucional. Fatores que vêm determinando não só a política brasileira, mas também a do conjunto da região. Assim, é natural que os outros bolsonaros em potencial sonhem agora em repetir a façanha nos seus respectivos países.

A onda rosa de Governos esquerdistas que dominou a América Latina na década passada se saldou com efeitos desiguais. No Brasil, o Partido dos Trabalhadores, de Lula e Dilma Rousseff, gozou de simpatia quase hegemônica enquanto durou o viés de alta do ciclo econômico. Os benefícios do crescimento foram distribuídos de maneira mais equitativa do que nunca, com o que uma maioria de brasileiros identificou seu bem-estar com o PT. Mas, ao chegar a inevitável ladeira abaixo, as culpas foram tão bem distribuídas quanto antes foram as benesses. Abriu-se, então, o primeiro espaço para a divisão do eleitorado em duas metades: não por acaso, Bolsonaro sempre se apresentou como o candidato anti-PT. Esse mesmo mecanismo pode funcionar inclusive em países com indicadores de fragmentação ideológica e social relativamente baixos para a região, onde o ciclo tem efeitos mais suaves. O Chile, por exemplo. Lá, parte da direita comemorou a vitória de Bolsonaro. Foi o caso de José Antonio Kast, líder de corte nacionalista e reacionário, que leu o resultado como “um sinal categórico de rejeição à esquerda fracassada da América Latina”.

Ultimamente, as questões materiais dominam a batalha ideológica no continente. Mas as divisões de ordem cultural, jamais desaparecidas, estão ganhando protagonismo na América como no resto do mundo. Os novos reacionários se veem e se apresentam como salvadores da moral nacional contra a suposta degradação das tradições, dos costumes e do tecido social. Não é por acaso que Jair Bolsonaro ganhou fama, há sete anos, fazendo campanha contra “a propaganda homossexualizante”. Em 2011, o então ministro da Educação, Fernando Haddad (hoje, aliás, candidato presidencial do PT que o enfrentará no segundo turno), era o alvo preferido do radical. Culpava-o pela distribuição do que apelidou de “kit gay” nas escolas: eram, simplesmente, materiais para a prevenção da homofobia. Bolsonaro os disfarçou como a prova definitiva da tentativa de lavagem cerebral das crianças brasileiras contra as famílias heterossexuais. Qualquer colombiano recordará, ao ler isto, que uma polêmica semelhanteaconteceu em 2016, quando a direita uribista se aproveitou da mesma forma dos projetos pela igualdade promovidos pelo Ministério da Educação local. Os debates sobre o aborto, a violência de gênero e a presença da religião na vida pública, que vem se intensificando de norte a sul, são variações disso também. Em todos eles, um espectro progressista enfrenta as reticências dos conservadores tradicionais e da esquerda nacionalista tradicional, ou uma tentativa de regressão como o que Bolsonaro propõe.

Teoricamente, o argumento de uma suposta necessidade imperativa de deter o progressismo custe o que custar deveria servir tanto à centro-direita moderada quanto ao autoritarismo radical. Mas este se encontra em melhor posição de aproveitá-lo. Não só porque pode se apresentar como uma alternativa mais decidida no plano cultural, mas também porque tem a possibilidade de se vestir com o traje de anti-establishment. O uso das instituições como arma partidária foi paradigmático no Brasil dos últimos anos: por parte do PT, primeiro, e de seus adversários tradicionais, depois, no ciclo que vai do impeachment de Rousseff à prisão de Lula. A corrupção, longe de ser resolvida nas instâncias judiciais e de controle, passou a fazer parte da luta ideológica. Com isso, os partidos estabelecidos arrastaram as instituições para dentro do seu poço de desconfiança e impopularidade, limpando o cenário para alguém com receitas simplistas, baseadas no “sentido comum” e no "pulso firme”. Como Bolsonaro. Não é muito difícil imaginar discursos similares em países cujo ambiente institucional foi erodido pela luta partidária: Equador, El Salvador e Paraguai são alguns exemplos que vêm à mente.

A tripla alavanca composta por polarização, guerra cultural e autoritarismo anti-establishment deixaram Bolsonaro com 46% graças a um padrão de voto bem definido: homens brancos, de meia-idade, com formação universitária e filiação ao cristianismo evangélico.

Mas nenhum desses grupos estava necessariamente no extremismo nem no autoritarismo no começo de 2018. Os dados do Ibope indicam que o crescimento de Bolsonaro definiu cada vez mais seu perfil de eleitor. Simplesmente, agiu como faria qualquer político com visão estratégica: observando uma janela de oportunidade e penetrando por ela. Com isso, deu uma lição não só aos seus rivais, mas também aos seus potenciais emuladores na região. A conclusão da aula é simples: em política, nada é impossível, muito menos definitivo. Não cabe dúvida de que muitos já estão tomando nota.

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