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O ‘Bolsonaro’ chileno que louva Pinochet e quer ser presidente

José Antonio Kast, contrário ao aborto e favorável ao indulto para repressores da ditadura, representa a direita mais conservadora nas eleições do domingo que vem

Chile
O candidato presidencial chileno José Antonio Kast. EFE

Quando os chilenos forem às urnas no domingo que vem para escolher seu próximo presidente, o advogado José Antonio Kast (Santiago, 1966) pretende reunir a parcela do eleitorado que se identifica com as posições mais duras e conservadoras da direita. Se o professor Eduardo Artes, defensor da luta armada, se encontra no extremo esquerdo entre os oito postulantes ao palácio de La Moneda, Kast se localiza nos antípodas, com suas polêmicas frases de louvor ao ditador Augusto Pinochet. “Se estivesse vivo votaria em mim”, declarou há alguns dias. “Deixando de lado toda a questão dos direitos humanos, o Governo de Pinochet foi melhor que o de Sebastián Piñera [2010-2014] para o desenvolvimento do país.”

Ex-militante da União Democrata Independente (UDI), um dos principais partidos da oposição conservadora, recusou-se a enfrentar outros aspirantes direitistas em eleições primárias e insistiu na sua candidatura para o primeiro turno de 19 de novembro. O atual deputado disputa o eleitorado conservador com Sebastián Piñera, que, segundo a última pesquisa do Centro de Estudos Públicos (CEP), é o favorito para ocupar a presidência no mandato de 2018-22, com 44% das intenções de voto, seguido pelo candidato governista, o senador Alejandro Guillier, com 19,7%. Beatriz Sánchez, aspirante representante de uma nova coalizão de esquerda chamada Frente Ampla, é a terceira colocada, com 8,5%. Atrás dela aparecem vários candidatos nanicos, inclusive Kast, em sexto lugar, com 2,7% das intenções de voto.

Diferentemente do ex-presidente Piñera, que durante a campanha apelou inclusive para personalidades de centro-esquerda, como Patrício Aylwin, um dos líderes da transição para a democracia, Kast espera mobilizar eleitores que não tiveram um candidato nítido a presidente nestes 27 anos de democracia.

Kast admite que, entre os oito aspirantes, é o que “mais reconhece e menos complexos tem hoje com o Governo de Pinochet”. Aclamado por um grande número de militares reformados, afirmou defender “com orgulho” a obra da ditadura. Sobre os casos de violações de direitos humanos, comprometeu-se a indultar “todos aqueles que estejam presos injusta ou desumanamente”.

Casado e pai de nove filhos, o candidato independente é frontalmente contrário ao aborto, em todas as suas formas. Em agosto, aliás, envolveu-se num processo do Tribunal Constitucional que revisava a despenalização das interrupções da gestação em três circunstâncias aprovadas pelo Congresso. Kast promete que, se for eleito presidente, revogará a norma que autoriza o aborto no Chile em caso de estupro, risco à vida da mãe e má formação fetal. Em plena campanha, uma fotografia o mostrava junto a uma ativista norte-americana que segurava um cartaz que dizia: “Concebida num estupro. Amo minha vida”.

Em um recente debate televisivo, defendeu o método natural de anti concepção: “É grátis”. Embora o Estado chileno seja laico desde 1925, o aspirante à presidência propôs em seu programa de Governo que todas as escolas públicas tenham um professor de religião. Ao defender a iniciativa, escreveu no Twitter: “Os chilenos precisam de Deus, e o Estado deve promover a religião nas escolas”.

Tanto a criminalidade como os imigrantes estiveram em sua agenda de campanha. Como forma de combater os roubos, Kast se mostrou a favor de que os civis tenham armas em casa para se defender. “Os bandidos que não se metam comigo nem com minha família. Se entrarem em minha casa, atiro”, declarou o deputado. Como o Chile é o país latino-americano onde houve maior crescimento da imigração, de acordo com um relatório da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) relativo ao período 2010- 2015, Kast declarou que é preciso “recusar sem reservas a imigração ilegal” e que a prioridade são os chilenos.

A cruzada de Kast chegou a atravessar as fronteiras. Propôs o fechamento da fronteira com a Bolívia para controlar o narcotráfico. O ministro do Governo boliviano Carlos Romero respondeu pedindo que Kast fizesse um exame de uso de drogas. O chileno não se calou: “Já fiz meu exame e estou esperando o dele e o de seu presidente”, disse em referência ao mandatário Evo Morales.

Discurso radicalizado

As posições de Kast obrigaram Piñera a fazer um discurso mais à direita e, dessa forma, evitar a fuga de eleitores. Embora não seja impossível o ex-presidente vencer no primeiro turno no próximo domingo se a abstenção disparar, tudo indica que haverá um segundo turno em 17 de dezembro. Um dos elementos que o impediriam de obter 50% dos votos mais um – condição para vencer no primeiro turno – , é precisamente a candidatura de Kast que tira dele alguns pontos à direita.

O deputado não é um candidato politicamente correto, tem boa presença de palco e seu discurso parece coerente. O que ele pretende nestas eleições é colocar-se como presidenciável de olho no Governo de 2022.

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