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Sônia Guajajara: “Me preparei para o pior, para a discriminação. Mas a campanha foi bonita”

Foi a primeira vez na história do país que uma indígena disputou a vice-presidência da República

Sônia Guajajara em evento do EL PAÍS.
Sônia Guajajara em evento do EL PAÍS.

A mulher de 44 anos, um metro e cinquenta e enormes brincos adornados com longas plumas de cores vivas senta-se cansada em uma lanchonete no centro de São Paulo. Por um segundo, crava o olhar na mesa metálica; o rosto, marcado por tatuagens étnicas nas duas bochechas e entre as sobrancelhas, parece se derreter em um gesto de esgotamento. E então surge um dos quatro assessores que estão com ela: lhe diz onde é aguardada em pouco tempo e lhe pergunta qual suco quer. Sônia Guajajara se recompõe. É um dos 13 candidatos à vice-presidência do Brasil nas eleições de domingo e esses são os últimos dias de campanha. “É normal que seja tudo tão intenso”, sorri, revelando um leve diastema. “Hoje aqui, amanhã lá, trabalhar de dia, viajar de noite”.

Mas ela se esforçou mais porque não foi uma candidata a mais. Já existem pesquisadores preparando estudos sobre sua campanha, encerrada neste domingo. Os historiadores e grupos de pressão também não perdem um detalhe. Porque Sônia é indígena, da etnia de onde vem seu sobrenome, das matas da região Norte-Nordeste. Ou seja, um dos coletivos mais esquecidos do Brasil. E aqui está. A primeira candidata a vice-presidente de sua raça na história do país. A indígena que mais longe chegou na estrutura política brasileira desde que os portugueses desembarcaram aqui em 1500 (outros, como o deputado Juruna, obtiveram uma notoriedade incontestável, mas em cargos menores). Junto com Guilherme Boulous, a chapa do PSOL teve mais de 600.000 votos.

“Eu havia me preparado para o pior, na verdade. Com mais fake news, mais discriminação. Mas a campanha foi bonita”, afirma. Não é a primeira vez que a vida a surpreende. Quando era menina, em Araboira (Maranhão), uma reserva indígena, era somente mais uma entre 12.000 indígenas em 170 aldeias. Eram cercados somente por árvores e bebiam água diretamente do rio. Nada indicava que ela chegaria especialmente longe; também não havia planejado. “Existiam muitas mulheres fortes, guerreiras, que ensinavam a trabalhar em equipe, e essas eram nossas referências pessoais; não conhecíamos ninguém fora da aldeia”, lembra.

Mas então foi escolhida. Com 15 anos, a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) a enviou, por sua inteligência, para estudar em uma escola rural, ela e um garoto. Foram para Minas Gerais; e ela passou a enfileirar trabalhos: professora, enfermeira... “Mas percebi que nunca perdia os laços com minha terra”, lembra. E isso quer dizer perceber até que ponto continua vivo o problema mais velho do Brasil: como os indígenas são assassinados e perdem suas terras, às vezes as duas coisas ao mesmo tempo. “E as pessoas não sabem. Os indígenas não são estudados nas escolas”, protesta. “Ninguém sabe quantas etnias indígenas restam [305, um total de 900.000 habitantes] nem quantos idiomas falamos [274, contra 140 na Europa]. Em pouco tempo, Sônia estava lutando pelos seus em diferentes organizações. Cada vez a partir de cargos mais altos.

Os governos se sucederam. Primeiro a bonança de Lula, que atendeu aos anseios dos indígenas, mas ficou devendo. “Essas terras estão ocupadas por latifundiários, pela especulação imobiliária e pela indústria agropecuária. E Lula precisou se aliar aos partidos de direita que os protegem”. E esses foram os tempos gentis. Depois veio Dilma Rousseff e as coisas se complicaram mais, depois veio Michel Temer e começou a retirar proteção aos indígenas.

De modo que Sônia decidiu pensar de outra forma. “Você é ameaçado e resiste, o que fazemos há séculos, mas se você vê que isso não funciona, é preciso mudar de estratégia. Entrar no processo, lutar de igual para igual”. Seu plano para isso: fazer com que Alicia Keys a colocasse no palco durante seu show, lotado, no Rock in Rio em novembro. No dia seguinte estava em toda a imprensa e logo recebeu uma oferta: vice-presidência no Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

Errata

Inicialmente o texto desta matéria citou erroneamente a frase “Muitos acreditam que Lula fez algo pelos indígenas, mas a verdade é que não fez”, atribuída a Sonia Guajajara.

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