Eleições 2018

Sônia Guajajara: “Me preparei para o pior, para a discriminação. Mas a campanha foi bonita”

Foi a primeira vez na história do país que uma indígena disputou a vice-presidência da República

Sônia Guajajara em evento do EL PAÍS.
Sônia Guajajara em evento do EL PAÍS.Isadora Brant

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Mas ela se esforçou mais porque não foi uma candidata a mais. Já existem pesquisadores preparando estudos sobre sua campanha, encerrada neste domingo. Os historiadores e grupos de pressão também não perdem um detalhe. Porque Sônia é indígena, da etnia de onde vem seu sobrenome, das matas da região Norte-Nordeste. Ou seja, um dos coletivos mais esquecidos do Brasil. E aqui está. A primeira candidata a vice-presidente de sua raça na história do país. A indígena que mais longe chegou na estrutura política brasileira desde que os portugueses desembarcaram aqui em 1500 (outros, como o deputado Juruna, obtiveram uma notoriedade incontestável, mas em cargos menores). Junto com Guilherme Boulous, a chapa do PSOL teve mais de 600.000 votos.

“Eu havia me preparado para o pior, na verdade. Com mais fake news, mais discriminação. Mas a campanha foi bonita”, afirma. Não é a primeira vez que a vida a surpreende. Quando era menina, em Araboira (Maranhão), uma reserva indígena, era somente mais uma entre 12.000 indígenas em 170 aldeias. Eram cercados somente por árvores e bebiam água diretamente do rio. Nada indicava que ela chegaria especialmente longe; também não havia planejado. “Existiam muitas mulheres fortes, guerreiras, que ensinavam a trabalhar em equipe, e essas eram nossas referências pessoais; não conhecíamos ninguém fora da aldeia”, lembra.

Mas então foi escolhida. Com 15 anos, a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) a enviou, por sua inteligência, para estudar em uma escola rural, ela e um garoto. Foram para Minas Gerais; e ela passou a enfileirar trabalhos: professora, enfermeira... “Mas percebi que nunca perdia os laços com minha terra”, lembra. E isso quer dizer perceber até que ponto continua vivo o problema mais velho do Brasil: como os indígenas são assassinados e perdem suas terras, às vezes as duas coisas ao mesmo tempo. “E as pessoas não sabem. Os indígenas não são estudados nas escolas”, protesta. “Ninguém sabe quantas etnias indígenas restam [305, um total de 900.000 habitantes] nem quantos idiomas falamos [274, contra 140 na Europa]. Em pouco tempo, Sônia estava lutando pelos seus em diferentes organizações. Cada vez a partir de cargos mais altos.

Os governos se sucederam. Primeiro a bonança de Lula, que atendeu aos anseios dos indígenas, mas ficou devendo. “Essas terras estão ocupadas por latifundiários, pela especulação imobiliária e pela indústria agropecuária. E Lula precisou se aliar aos partidos de direita que os protegem”. E esses foram os tempos gentis. Depois veio Dilma Rousseff e as coisas se complicaram mais, depois veio Michel Temer e começou a retirar proteção aos indígenas.

De modo que Sônia decidiu pensar de outra forma. “Você é ameaçado e resiste, o que fazemos há séculos, mas se você vê que isso não funciona, é preciso mudar de estratégia. Entrar no processo, lutar de igual para igual”. Seu plano para isso: fazer com que Alicia Keys a colocasse no palco durante seu show, lotado, no Rock in Rio em novembro. No dia seguinte estava em toda a imprensa e logo recebeu uma oferta: vice-presidência no Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).