EUA, México e Canadá selam um novo acordo comercial após mais de um ano de tensas negociações

Ottawa adere no último minuto ao acordo comercial definido há um mês por seus dois sócios regionais

Os negociadores-chefes dos três países, Chrystia Freeland (Canadá), Robert Lighthizer (EUA) e Ildefonso Guajardo (México), em março passado.
Os negociadores-chefes dos três países, Chrystia Freeland (Canadá), Robert Lighthizer (EUA) e Ildefonso Guajardo (México), em março passado.E. Garrido (REUTERS)

Após meses de tensão e dúvidas no horizonte comercial norte-americano, os Estados Unidos selaram neste domingo, quase no final do prazo, um acordo com o Canadá para incorporar seu vizinho do norte ao pacto selado há um mês com o México, podendo assim reeditar o tratado que regulamenta desde 1994 os intercâmbios entre os três países. A fumaça branca surgiu depois de um fim de semana frenético, em que ambas as partes se empenharam até o último minuto do prazo fixado por Washington para evitar um fracasso que teria abalado os estreitos vínculos entre três das economias mais interconectadas do planeta.

“Hoje, Canadá e EUA alcançaram um acordo, junto ao México, sobre um novo e modernizado tratado comercial para o século XXI”, anunciaram em um breve comunicado conjunto o representante norte-americano de Comércio Exterior, Robert Lighthizer, e a ministra canadense de Relações Exteriores, Chrystia Freeland. Eles acrescentaram que o novo regime comercial se chamará USMCA, as iniciais dos três países participantes, em lugar de NAFTA (Tratado de Livre Comércio da América do Norte, na sigla em inglês). A mudança de nome era uma condição imposta pelo Governo Trump. Os principais responsáveis políticos pela negociação disseram que o texto criará um mercado livre, um comércio justo e fortalecerá o crescimento econômico na região. “Esperamos poder aprofundar ainda mais nossos estreitos laços econômicos quando entrar em vigor”, concluíram, agradecendo também a colaboração mexicana.

"É um bom dia para o Canadá", limitou-se a dizer o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, ao final de uma reunião rápida com seu Gabinete, já perto da meia-noite pelo horário de Ottawa. Salva-se, assim, um texto que permite o comércio anual sem barreiras de bens e serviços avaliados em 1,2 trilhão de dólares, e que quadruplicou o comércio entre seus membros desde que entrou em vigor, um quarto de século atrás. O acordo fica agora pendente do aval dos Parlamentos dos três países signatários. O peso mexicano e, sobretudo, o dólar canadense reagiram com alta à notícia do pacto entre os Executivos.

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O Nafta, que passou meses pendurado por um fio que Trump ameaçou cortar em repetidas ocasiões, será mantido com outro nome, mas com seus três sócios a bordo e mudanças que não devem ser muito impactantes. O acordo permite, além disso, que Donald Trump apresente um primeiro pacto internacional relevante, a pouco mais de um mês das cruciais eleições legislativas, e consolide a relação com dois de seus aliados tradicionais, em plena guerra comercial com a China. Aberta – pela vontade do próprio presidente – a caixa de Pandora com duas rodadas de tarifas contra o gigante asiático, a maior potência mundial precisa de aliados em sua disputa com Pequim.

Trump e o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, pactuaram há um mês um texto com a ideia de incluir o Canadá – como afinal aconteceu –, a fim de atualizar o acordo assinado em 1994. O país latino-americano então respirou aliviado: 80% de suas exportações teriam proteção jurídica nos próximos anos. Mas faltava algo que era desejável ao sul do rio Grande e necessário aos olhos dos congressistas em Washington, que renegam qualquer acordo que não inclua o vizinho do norte: que o Canadá aceitasse o texto e aderisse ao pacto. Hoje, quem respira aliviado é o Canadá. Para seu primeiro-ministro, apesar dos frequentes encontrões com Trump e os seus, era importante encerrar essa questão o quanto antes, por uma razão de dependência comercial – 76% das exportações canadenses vão para os EUA, além de 1,5% para o México, seu quinto maior sócio comercial. O risco era, porém, muito maior no caso mexicano, que contava com menores alternativas em relação aos EUA.

O caminho não teve nada de simples. Havia dois grandes entraves nesta reta final da negociação entre os EUA e Canadá, que intercalou jornadas exaustivas de conversações construtivas e ataques de Trump a Trudeau. O primeiro tinha a ver com o comércio de laticínios, uma questão politicamente muito sensível em ambos os lados da fronteira. O segundo, com a tentativa de Washington de eliminar o mecanismo de disputas que permite às empresas desafiar as restrições aplicadas ao comércio na região. Ambos os assuntos foram finalmente resolvidos neste domingo. Os produtores norte-americanos conseguem um maior acesso ao mercado canadense de laticínios, e o Capítulo 19 do tratado foi mantido intacto.

O acordo-marco, por enquanto, não evitará que os EUA continuem aplicando as tarifas de 25% e 10% respectivamente, que entraram em vigor há cerca de três meses contra as importações de aço e alumínio. O Canadá espera que as conversações continuem, para que essas alíquotas sejam suspensas quando o novo tratado trilateral for firmado, dentro de dois meses. Ottawa, por outro lado, já recebeu a garantia de que Washington não imporá tarifas às importações de veículos e autopeças, como ameaçou Trump.

Washington havia imposto o 1º. de outubro como prazo para resolver as diferenças e evitar a via bilateral. Refletindo essa tensão, no sábado a ministra canadense deixou Nova York, onde deveria falar ao plenário da Assembleia Geral da ONU, para se dedicar integralmente a fechar os últimos buracos. O embaixador David MacNaughton também foi convocado a Ottawa. Freeland buscou mostrar que estava no controle do relógio, dizendo que negociariam o tempo que fosse necessário. Essa posição de força levou o presidente dos EUA a expressar na quinta-feira sua frustração com a negociadora canadense, a quem chamou de intransigente. Apesar das enormes diferenças, deram-se 48 horas de prazo adicional antes de publicar o esboço do pacto com o México.

A pressa de selar o acordo ainda em setembro tinha um motivo: era a única forma de que o texto fosse sancionado pelo presidente Enrique Peña Nieto (PRI), cujo mandato termina em 30 de novembro. Apesar de o presidente eleito, o esquerdista Andrés Manuel López Obrador, ter participado de todo o processo negociador através de seu braço-direito para assuntos comerciais, Jesús Seade, existia uma espécie de acordo tácito entre os dois políticos para que o pacto final fosse concluído ainda no mandato de Peña Nieto.

As ameaças de Trump de recorrer à via bilateral esbarraram na oposição frontal de grupos empresariais, sindicatos e legisladores democratas e republicanos. Eles pressionaram até o último momento para que o tratado sobrevivesse como um instrumento trilateral. Além disso, existiam sérias dúvidas sobre a validade do acordo com o México caso o Canadá ficasse de fora, porque o mandato de negociação era tripartite. O acordo, em todo caso, precisará ser ratificado pelo Congresso dos EUA para que entre em vigor. Uma guinada à esquerda nas eleições legislativas de novembro poderia representar algum obstáculo para Trump.

A negociação, que se prolongou por pouco mais de um ano, caracterizou-se pela confusão e pelos contínuos ataques de Trump aos seus sócios norte-americanos, a quem acusou de deslealdade e de minar os empregos no setor industrial norte-americano, uma de suas principais bandeiras na campanha eleitoral que o levou à Casa Branca. Naquele 8 de novembro de 2016, quando Trump foi eleito, México e Canadá começaram a tremer. Pouco menos de dois anos depois, o horizonte comercial parece muito mais claro.