Eleições 2018

PT se aproxima de ‘dia D’ dividido sobre viabilidade de Haddad para conseguir votos

Diante de prazo dado pelo TSE, parte de dirigentes do partido avalia que hora da troca de candidato já chegou, mas enfrenta o dilema de não poder sinalizar que "abandonou" Lula

O candidato a vice-presidente pelo PT, Fernando Haddad, em frente à Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, onde Lula está preso.
O candidato a vice-presidente pelo PT, Fernando Haddad, em frente à Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, onde Lula está preso.Hedeson Alves (EFE)

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Tudo indica que Haddad, ministro da Educação por seis anos e meio nos governos Lula e Dilma Rousseff e prefeito de São Paulo entre 2013 e 2016, será finalmente ungido candidato do PT à Presidência da República na próxima semana. Na terça-feira (11 de setembro), vence o prazo que a Justiça Eleitoral estabeleceu para que o partido indique o substituto do ex-presidente na disputa pelo Palácio do Planalto.

O PT apresentou recursos ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Comitê de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) pleiteando que a candidatura de Lula —condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, preso em Curitiba e considerado inelegível com base na Lei da Ficha Limpa— seja autorizada. Ainda que tenham poucas possibilidades de resultados práticos, os recursos são considerados importantes para reforçar o discurso de que Lula seria um injustiçado que está disposto a ir às últimas consequências para garantir seu direito de concorrer às eleições. "Não podemos passar em nenhum momento para o eleitor a imagem de que nós jogamos a toalha em relação ao Lula", afirma um dirigente petista. Mas existe entre as lideranças partidárias a avaliação de que o tensionamento com a Justiça já chegou ao limite. Insistir numa briga judicial para além do dia 11 de setembro, dizem, abriria a brecha para que toda a chapa presidencial do partido fosse contestada, o que poderia deixar o PT sem candidato no pleito de outubro. Não é uma hipótese aceitável para uma sigla que governou o país por mais de 13 anos.

O processo de metamorfose para tentar transformar Haddad em Lula não estará livre de obstáculos, alguns deles colocados inclusive por amigos. Por exemplo: o timing escolhido para a substituição já gerou atritos dentro do PT e do PCdoB, principal legenda aliada. Os comunistas acham que há pouco tempo para que o eleitor assimile que o ex-prefeito de São Paulo é o candidato de Lula e que a tática de adiar ao máximo a troca fez a coligação desperdiçar oportunidades importantes de apresentá-lo ao público. “Essa transferência de votos não é automática. Nós já perdemos a entrevista no Jornal Nacional, perdemos os debates”, queixa-se um dirigente do PCdoB.

“Nós não estamos ansiosos com isso. Vamos usar tudo o que temos à disposição, inclusive o tempo que temos para defender a candidatura do presidente Lula. Não tem ansiedade nesse processo, temos clareza dele, da sua importância e da responsabilidade que o PT tem nisso”, rebate a presidenta do PT, senadora Gleisi Hoffmann.

Mas o timing não é a única resistência interna que o substituto de Lula terá de superar. O seu próprio perfil, considerado intelectual e paulista demais, é pouco palatável para o campo sindical do petismo e para a ala mais à esquerda da sigla. “Tem uma parte [do PT] que não gosta [do Haddad] porque ele não dá atenção ao partido e outra que não gosta por achar que ele é de direita”, resume, entre risos, um parlamentar da legenda. São grupos que se curvaram à escolha de Lula pelo ex-prefeito, mas não escondem que preferiam ver o ex-governador da Bahia Jaques Wagner no papel hoje reservado à Haddad.

‘Um olho na urna, outro na história’

Prevaleceu a tese de que era preciso equilibrar a viabilidade eleitoral de Haddad com a defesa do ex-presidente. “É o momento de o PT estar com um olho na urna e o outro na história”, resume o ex-ministro Ricardo Berzoini, que tem atuado na coordenação da campanha presidencial do petista.

Construída a narrativa de que Lula seria vítima de uma injustiça perpetrada por aqueles que não querem vê-lo de volta no Planalto, passa-se ao mais difícil: Segundo as últimas pesquisas de opinião, Lula oscila entre 37% e 39% das intenções de voto, o que o coloca como líder disparado na corrida (estavam previstas novas sondagens do Ibope e do Datafolha para esta semana, mas os institutos cancelaram a divulgação em razão da decisão do TSE de barrar Lula). Para chegar ao segundo turno, Haddad precisa herdar parte expressiva desses votos.

Para isso, o ex-prefeito de São Paulo passou a maior parte da campanha até aqui num périplo pelo Nordeste, o principal reduto de votos do PT e região fundamental para viabilizá-lo como herdeiro do espólio eleitoral de Lula. Agora, o passo seguinte é realizar um ato que deixe claro que Haddad foi incumbido pelo próprio ex-presidente de ser o seu substituto. Uma das possibilidades é que o anúncio ocorra em frente à Superintendência da Polícia Federal em Curitiba na próxima semana, num ato cênico montado para ser usado e reusado no horário eleitoral de televisão. Outra especulação é que Haddad seja batizado como candidato do partido num evento pró-Lula marcado para a noite de segunda-feira no Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (TUCA).

Seja qual for o caminho, Haddad parece pronto para subir no palco e começar a interpretar o papel que Lula reservou para ele. A grande incógnita da eleição mais caótica que o Brasil já viveu desde a redemocratização, entretanto, permanece a mesma: o ex-prefeito de São Paulo conseguirá se transmutar em Lula e abocanhar os votos do líder petista para estar no segundo turno? Ou a estratégia do PT vai acabar se provando um tiro n’água, sem que os apoiadores do ex-presidente consigam assimilar bem a mensagem de que “Lula é Haddad”?