Argentina

Senado argentino autoriza buscas nos domicílios de Cristina Kirchner

Dezenas de milhares de pessoas se manifestam contra a corrupção diante do Congresso

Cartazes contra Cristina Kirchner na manifestação diante do Congresso contra a corrupção, na terça-feira, 21 de agosto.
Cartazes contra Cristina Kirchner na manifestação diante do Congresso contra a corrupção, na terça-feira, 21 de agosto.

A Justiça argentina verá de perto a intimidade da ex-presidenta Cristina Kirchner. O Senado aprovou, após duas tentativas frustradas, o pedido do juiz Claudio Bonadio para que a senadora tivesse seu foro privilegiado suspenso, como parte da investigação sobre os chamados “cadernos da corrupção”, o maior escândalo de pagamento de subornos já revelado na Argentina. Por unanimidade, os legisladores acataram o pedido do juiz, um dia depois de ela mesma pedir a seus pares que deixassem Bonadio e seus subordinados entrarem em seus domicílios. Kirchner enviou uma carta na qual tentou impor condições a qualquer inspeção. “Que Bonadio não quebre nada”, disse. Pediu também que os senadores vetem a presença de câmeras no interior dos imóveis, para evitar “a difusão de imagens em programas governistas com a clara intenção de humilhação e perseguição”.

A polícia poderá entrar no apartamento da ex-presidenta no bairro da Recoleta, em Buenos Aires. Ela também tem duas outras casas na província de Santa Cruz (sul), nas localidades de Río Gallegos e El Calafate. O juiz quer buscar provas que corroborem depoimentos de testemunhas segundo as quais o dinheiro pago como propina era guardado nos domicílios particulares de Néstor e Cristina Kirchner. Bonadio não espera encontrar dólares, e sim saber se os espaços físicos coincidem com as descrições que ouviu em seu gabinete.

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O juiz investiga uma suposta rede de corrupção na distribuição de obras públicas durante os governos de Néstor e Cristina Kirchner. Uma dúzia de executivos e dois ex-funcionários do kirchnerismo fizeram acordos de delação premiada e confirmaram parte das anotações de um motorista do poder, Oscar Centeno, que durante 10 anos anotou em oito cadernos escolares as viagens que fez com sacolas carregadas de dinheiro.

Cristina Fernández chega ao Senado, prévio à sessão que tratará sua desafuero.
Cristina Fernández chega ao Senado, prévio à sessão que tratará sua desafuero.

Cristina Kirchner não perdeu o foro privilegiado a que tem direito como senadora. O Senado só debatia a autorização para realizar buscas judiciais em sua casa, mas não para prendê-la, quaisquer que sejam as provas lá encontradas. A sessão desta quarta foi a terceira a discutir o destino da ex-presidenta —nas duas anteriores, o peronismo não garantiu o quórum, e o governismo também ficou privado de dois senadores, um por licença médica e outro por estar em férias. Na nova tentativa, nesta quarta, os senadores contavam com o aval de Kirchner, mas também tiveram que enfrentar a pressão das ruas.

A rejeição à ex-presidenta falou mais alto que os dissabores da crise econômica, e dezenas de milhares de argentinos participaram na terça-feira à noite de uma manifestação diante do Congresso pela quebra dos privilégios jurídicos de Kirchner. As palavras de ordem, no entanto, se dirigiam a todos os senadores, acusados de atitudes corporativas para ocultarem supostos negócios escusos. “Nós a queremos presa”, "Não voltam mais", "Argentina sem Cristina" foram algumas dos slogans ouvidos na praça.

A situação judicial do Cristina Kirchner se complica a cada depoimento no “caso dos cadernos”. Enquanto os empresários pagantes concordaram em se considerar vítimas de uma extorsão por parte de ex-funcionários corruptos, o juiz colheu o depoimento crucial de dois ex-funcionários que participaram do coração da suposta rede. Um foi Claudio Uberti, que agia como coletor e apontou diretamente o casal Kirchner como chefe da trama. O outro foi José López, preso há dois anos quando tentava de livrar de ser apanhado com nove milhões de dólares em espécie, atirando esse dinheiro dentro de um convento. López era secretário de Obras Públicas, e seu nome não figurava nos cadernos de Centeno. Mas, talvez por ser o mais comprometido, selou um acordo para depor contra a ex-presidenta e seu marido, Néstor, que morreu em 2010.

"Não me arrependo de nada"

Kirchner sempre negou qualquer responsabilidade. Ela denunciou que o presidente Mauricio Macri estaria se valendo dos juízes para persegui-la politicamente, e considerou Bonadio como a ponta de lança de uma campanha para ocultar a crise econômica, o calcanhar de Aquiles do Governo. "Esta é a primeira vez que serão feitas buscas na moradia de um senador. Nem em 2001, com o escândalo institucional mais grave de que se tem memória [o suposto pagamento de subornos para a aprovação da reforma trabalhista], nem sequer naquela oportunidade houve buscas na moradia de qualquer senador. Só se fez uma inspeção", argumentou a ex-presidenta nesta quarta no Senado. "Se acham que com a perda do foro, com os Bonadios, eu vou me arrepender, não! Não me arrependo de nada do que fiz!", afirmou.

Enquanto o Senado discutia a suspensão parcial do foro privilegiado da ex-presidenta, o dólar batia um novo recorde, cotado em 30,7 pesos, num cenário de crescente tensão social. Uma passeata de portuários terminou na terça-feira com graves incidentes em frente à sede do Governo da província de Buenos Aires, as universidades estão paralisadas por uma greve geral de quatro dias, e já se respira nas ruas um “clima de dezembro”, um mês tradicionalmente conflitivo.