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Em encontro com Trump, Putin quer recuperar o papel de superpotência

As expectativas dos analistas sobre a reunião entre os dois líderes são modestas, pois as relações bilaterais estão em seu pior momento desde o fim da Guerra Fria

Cumbre entre Trump y Putin
Donald Trump e Vladimir Putin se cumprimentam no início da reunião REUTERS

O espetáculo está garantido no encontro entre os presidentes dos EUA e da Rússia em Helsinque, capital da Finlândia, que acontece na manhã desta segunda-feira, 16. Isso é o que indica a personalidade de Donald Trump e de Vladimir Putin, sua necessidade comum de apresentar como sucesso pessoal a arrastada reunião e o suspense alimentado para a primeira cúpula propriamente dita entre os dois líderes. Mas os resultados do encontro só poderão ser analisados sobriamente quando a realidade dissipar os efeitos teatrais. As expectativas dos analistas são modestas, já que as relações estão em seu pior momento desde o final da Guerra Fria. Os laços bilaterais, sobrecarregados pela crescente desconfiança, se degradaram qualitativamente desde 2014, quando a Rússia anexou a Crimeia e apoiou militarmente os separatistas ucranianos. A principal urgência internacional de Moscou é conter a escalada das sanções ocidentais que lhe impõem restrições financeiras e prejudicam sua economia.

No campo da segurança internacional talvez o melhor que pode acontecer, na opinião de Andrei Kortunov, diretor do Conselho de Assuntos Internacionais da Rússia (um influente think tank, cuja sigla russa é RSMD), é "reafirmar compromissos de princípios" e "restabelecer mecanismos de comunicação" bloqueados desde 2014, para que ambos os lados possam entrar em contato regularmente e evitar que as relações continuem se decompondo, com o crescente risco de confronto militar direto. "Haja o que houver, os dois presidentes tentarão apresentar a reunião como um avanço. Putin tem mais condições de anunciar um sucesso porque não tem nenhum promotor que o investigue e nem um Congresso que o limite, só autoridades complacentes prestes a aplaudi-lo, mas Trump se antecipará com seu Twitter", diz Kortunov com ironia.

Apesar de sua retórica sobre a substituição de parceiros ocidentais por outros, como a China, Índia, Irã ou associações de países emergentes, como os BRICS, Putin quer restaurar a imagem da Rússia como uma superpotência. Na mentalidade da classe dirigente russa (que ainda vê Washington como o último critério de referência), isso significa decidir em pé de igualdade com os EUA sobre o sistema de relações e divisão de responsabilidades no mundo. Mas a Rússia quer retornar ao antigo relacionamento sem concessões na forma de compreender sua área de influência, tanto no entorno pós-soviético como fora dele.

Para Putin, a própria realização da cúpula já é um sucesso, diz Kortunov. O campeonato mundial de futebol melhorou a opinião pública ocidental sobre os russos e eles se mostram mais abertos aos estrangeiros. A proporção de russos desejosos de que seu país se relacione com o Ocidente como parceiro aumentou (61% contra 43% em janeiro de 2017) e a dos que veem o Ocidente como adversário diminuiu (de 31% para 16%), de acordo com uma pesquisa do instituto Levada. Dados os problemas financeiros do Estado, os cidadãos russos querem acordos que poupem dinheiro no campo da não-proliferação de armas nucleares, na Síria e na luta contra o terrorismo, observam os analistas Denis Volkov e Andrei Kolesnikov.

"O importante é lançar um novo mecanismo, ter bem claro que descemos ao nível mais baixo e que agora começamos a sair à superfície, e acompanhar as declarações no sentido de instruir os especialistas para lidar com o problema de uma forma mais concreta, talvez até mesmo para organizar outra cúpula mais bem preparada no último trimestre", diz Kortunov. "As chances de Trump são limitadas porque a atitude negativa da classe política norte-americana em relação à Rússia não vai mudar, por isso a ênfase está em encontrar pontos em comum que não causem grande irritação aos conservadores do estilo do senador John McCain", acrescenta.

Possível acordo sobre a Síria

Segundo Kortunov, para Trump é importante "voltar a Washington e dizer que chegou a um acordo com Putin pelo qual os russos não irão mais interferir nas eleições dos EUA, mas Putin não reconhecerá nunca a eventual interferência. Um acordo sobre esta questão deveria ser bilateral, ou seja, levar em conta também as acusações de Moscou aos Estados Unidos, de que durante anos interferiram na política russa com dinheiro, fundações, consultores e ONGs, o que Trump não pode fazer." As duas partes entendem o conceito de interferência de forma distinta e isso torna difícil uma declaração que vá além de um compromisso de não se imiscuírem nos respectivos assuntos internos no futuro.

Quanto à possibilidade de destravar conflitos regionais, as previsões mais otimistas se referem à Síria, onde se poderia chegar a um acordo (com muitos participantes tácitos nos bastidores), cujo principal objetivo seria afastar as milícias apoiadas pelo Irã das fronteiras de Israel e das colinas do Golã. Este acordo implicaria que as forças do governo sírio apoiadas pelas forças aéreas russas assumiriam o controle do sudoeste da Síria, na fronteira com Israel e Jordânia. Trump aceitaria assim a Rússia como um fator-chave de estabilidade para Israel por causa da habilidade de Putin de influenciar o líder sírio e de conter a influência iraniana sobre ele.

Israel, que tem uma excelente relação com a Rússia, ficaria mais tranquilo, embora o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu teria de decidir se quer e sabe estender pontes para Bashar al-Assad, também com a finalidade de reduzir o papel de Teerã. O presidente dos EUA, no entanto, precisaria moderar seus atuais objetivos, porque o Irã não deixará de ser um importante participante no tabuleiro do Oriente Médio.

"A Rússia não pode substituir o Irã na Síria, porque o Irã é a principal força no terreno. A influência do Irã vai de baixo para cima, das províncias a Damasco, e a da Rússia, de cima para baixo, de Damasco às províncias." A principal tarefa estratégica na Síria, diz Kortunov, “é como integrar o Irã como ator na área, porque, enquanto o Irã não estiver integrado, não terá nenhuma responsabilidade". "Os norte-americanos não entendem que é preciso trabalhar com o Irã, um país grande, importante e difícil, onde é pouco previsível uma mudança de regime num futuro próximo", acrescenta Kortunov, que defende algum acordo de regras de comportamento entre todos os países com contingentes militares na Síria.

Risco de enfrentamento

Como um exemplo do perigo de confronto direto, é possível que os EUA citem em Helsinque o incidente de 7 de fevereiro na Síria, quando comandos norte-americanos causaram danos a tropas de Damasco acompanhadas por mercenários russos em uma área perto de instalações da petroleira Conoco, na província de Deir al Zor, que faz fronteira com o Iraque.

Segundo fontes do Pentágono, mencionadas pelo The New York Times, nesse ataque os norte-americanos causaram entre 200 e 300 mortes no contingente sírio-russo. Mas o Ministério da Defesa russo reconhece apenas alguns mortos e conseguiu se esquivar de uma história que levanta muitas questões desconfortáveis, incluindo a forma de valorizar as vidas humanas a serviço da Rússia, apesar de não estarem formalmente integradas em seus contingentes militares oficiais. Os analistas político-militares concordam em que é difícil imaginar uma ação de mercenários russos no exterior, tanto em Donbas (leste da Ucrânia) como na Síria, sem a coordenação com as instituições oficiais russas.

No cenário ucraniano "é impossível entrar em acordo sobre alguma coisa", afirma Kortunov. O fórum de Minsk, marco da resolução do conflito com as chamadas "repúblicas populares" de Donetsk e Lugansk, está estagnado e a Rússia se recusa taxativamente a falar sobre a anexação da Crimeia, de modo que o máximo que se poderia esperar de Helsinque é algum gesto de boa vontade, se houver, para a troca de prisioneiros com Kiev ou para libertar o cineasta ucraniano Oleg Sentsov, em greve de fome em uma prisão russa desde 14 de maio.

No capítulo do desarmamento, há dois acordos sobre a mesa que exigem atenção. O primeiro é o de redução dos mísseis de médio e curto alcance, que Mikhail Gorbachev e Ronald Reagan assinaram em 1987 e que ambas as partes se acusam hoje de transgredir. O segundo é o tratado de forças estratégicas ofensivas assinado em 2010 pelos presidentes Dmitry Medvedev e Barack Obama em Praga e que expira em 2021. Os EUA querem formatos de desarmamento totalmente novos, conforme explicou o enviado especial de Trump, John Bolton, durante sua recente viagem a Moscou.

Kortunov, que participou de uma reunião com o Bolton, disse que o alto funcionário norte-americano foi muito crítico com os dois acordos, com o primeiro por ser o reflexo de um mundo bipolar que não existe mais e impor limitações só à Rússia e aos EUA, e com o segundo, por manter uma abordagem própria da Guerra Fria, tanto que poderia ter sido assinado por Leonid Brezhnev e Richard Nixon. "Eles querem um novo enfoque, as conversas sobre a estabilidade estratégica com base em novos princípios e não apenas a confirmação de acordos antigos, querem algo que permita a Trump dizer que ele fez o que Obama não fez, querem uma nova embalagem que permita falar de progresso substancial, não querem avançar passo a passo", explica. "Para chegar a um novo enfoque teria de haver um nível de confiança que não existe atualmente."

De início, os russos tinham preparado uma declaração que fixaria os acordos ou posições alcançadas, um texto geral de duas páginas. Mas, na sexta-feira, o assessor de política externa de Putin, Yuri Ushakov, disse que mesmo tal texto é problemático, por isso haviam desistido dele. "O mais provável é que não haja um comunicado final e que os dois presidentes falem eles mesmos dos acordos a que chegaram", disse Ushakov. A reunião pode ajudar a restaurar um "nível de confiança mais ou menos aceitável" e nesse marco podem ser definidas etapas que "permitam que as partes retornem à colaboração internacional". Pela posição oficial do Kremlin, as relações estão em "estado de crise" e "a tensão existente não tem causas nem bases objetivas".

A diplomacia do futebol, a guerra síria e África

P. B (Helsinki)

Putin chega a Helsinque precedido da triunfal operação de relações públicas que representou para ele o campeonato mundial de futebol e após a realização de reuniões com vários líderes, da Arábia Saudita à França, pouco antes do evento. Sinais da diplomacia do futebol indicam que a Síria é uma prioridade para o líder russo, que na véspera da sua reunião com Trump se encontrou em Moscou com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e o presidente palestino, Mahmoud Abas, e conversou por telefone com o presidente turco, Racep Tayyip Erdogan. Putin indicou que os interesses russos – como os da União Soviética – são globais e que a África está na sua mira. No sábado, ele recebeu o presidente do Sudão, Omar al Bashir, com quem discutiu a florescente colaboração militar bilateral. Bashir é procurado pelo Tribunal Penal Internacional como suspeito de limpeza étnica em Darfur.

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