Entrevista

Jodie Foster: “A velhice me provoca curiosidade”

Foi uma criança criada na telona, apesar de hoje afirmar que “o cinema como experiência em salas já era”. Atriz desde os três anos e vencedora de dois Oscar, afastou-se da indústria depois de revelar que é lésbica. “Cada entrevista que dou me devasta a alma”, lembra. Cinco anos depois, volta a protagonizar um filme, ‘Hotel Artemis’.

Richard Phibbs

JODIE FOSTER demorou cinco anos para voltar a protagonizar um filme. E hoje chega ao encontro em Beverly Hills para falar sobre isso. Vem de muletas. “Um joelho. Esquiando.” É a primeira coisa que diz ao entrar no hotel Four Seasons. Faz tempo que a grande atriz nascida há 55 anos em Los Angeles conquistou certa fama de dura, e fria, de uma pessoa com personalidade difícil. Mas cara a cara Foster é educada e agradável, até afável. Também tem uma forte atitude de comando, algo sem dúvida necessário para sobreviver em uma indústria na qual ela começou aos três anos. Agora tem nas costas cerca de 40 títulos como atriz, quatro como diretora, dois Oscar e uma carreira invejada por muitos. Especialmente por aqueles que tentam superar com sucesso a difícil transição de menina prodígio para protagonista de sucessos como Acusados (1988) e O silêncio dos inocentes (1991). Há cinco anos se afastou da telona depois de revelar sua homossexualidade. Na época, anunciou que ficaria um tempo distante. “Cada entrevista me devasta a alma”, explicou. Semanas antes da estreia na Espanha de Hotel Artemis, filme que representa sua volta à interpretação, só seu joelho está machucado. Seu novo papel é o de diretora de um hospital secreto para criminosos na cidade de Los Angeles em um futuro próximo.

Jodie Foster em 'Acusados'.
Jodie Foster em 'Acusados'.

Jodie Foster volta disposta a enfrentar o mundo com um sorriso. “Só mencionam os cinco anos que estive fora da indústria. É muito, mas às vezes é difícil levantar um projeto. Me considero sortuda por fazer filmes pessoais. Especialmente como diretora, não vou com a onda, com o cardápio de Hollywood. Tenho uma posição privilegiada e não preciso fazer filmes para usar e jogar fora ou franquias de outra pessoa. Procuro escolher histórias que possa defender, que me digam alguma coisa.”

E o que Hotel Artemis lhe disse? O que me chamou a atenção foi a originalidade. Estou farta de ver sempre o mesmo filme. Encontrei o roteiro de forma misteriosa, inclusive antes de ser divulgado, e sua energia me pegou. Sou muito chata. Cada vez pior. Cada vez levo mais tempo para encontrar o que quero. Mas é que não gosto de me repetir, voltar a interpretar o mesmo papel. Não gosto de concorrer comigo mesma, com minhas interpretações anteriores. Prefiro amadurecer e evoluir. E a transformação para esse personagem, sua mudança física, não se parece a nada que já fiz.

Jodie Foster em 'Hotel Artemis'.
Jodie Foster em 'Hotel Artemis'.MATT KENNEDY

Todas as atrizes com mais de 40 anos tentam melhorar sua imagem. Você vai na contramão aumentando a idade e as rugas? Gostaria de mentir e dizer que para este papel foram necessárias horas e horas de maquiagem, mas não chegou a tanto. Não sou uma pessoa especialmente vaidosa, então não tive nada a perder. Minha carreira como atriz nunca se apoiou no físico. Nunca fui a ingênua. Nem a noiva. Sempre fui, acima de tudo, a atriz. Mostrar rugas diante da câmera não representou um grande desafio.

E o fato de se sentir mais velha? De ver sua mãe, seus ancestrais, em seu rosto? Minha mãe costumava ter o mesmo cabelo. Em 10 anos serei como ela. A velhice me provoca curiosidade, não preocupação. A transformação, mudanças na pele... Depois de viver uma vida tão excitante, não posso me queixar. Se há algo que espero é continuar atuando quando tiver 80. É algo fácil de fazer.

Depois dessa longa parada em sua carreira, era mais factível pensar que se aposentaria e não que trabalharia até os 80. Não penso em parar de atuar. O que quero é dirigir mais. Essa era minha intenção nesse tempo.

“Não quero ser prolífica. Não preciso estar nas capas das revistas nem ser Ron Howard, ou dirigir o filme mais comercial. Quero contar minhas histórias”

O que aconteceu? Hollywood não deixa que uma mulher como Jodie Foster atue atrás da câmera? É possível dizer isso. Dirigi meu primeiro filme aos 27 anos. E desde então só rodei quatro. A proporção de minha carreira é de 90% de interpretação e 10% de realização. Uma falta de equilíbrio que tentei remediar nestes últimos anos em que além disso dirigi quatro episódios de televisão. Lamento não ter feito antes e por isso agora é mais urgente contar minhas histórias. Não é que queira ser prolífica. Não preciso estar nas capas das revistas nem ser Ron Howard, ou dirigir o filme mais comercial. Quero contar minhas histórias.

Você se vê melhor refletida naquilo que dirige do que no que interpreta? Costumam me perguntar porque não escrevo mais. E o que é um diretor além de alguém que reescreve com a câmera? Em Mentes que Brilham (1991), meu primeiro filme, enxergo uma obra da juventude. E também me sinto mal por quem trabalhou comigo, pelo controle a que os submeti, não deixei que a criatividade fluísse. O castor (2011) é meu melhor filme, o mais maduro. Mas sei que não se para todo mundo.

Hoje você trabalha mais na televisão do que no cinema. Tudo mudou? O futuro da narrativa está nas mãos dos serviços de cabo ou de streaming. O cinema como experiência em salas já era. E temos de aceitar isso. As pessoas veem o conteúdo em seus telefones. E ninguém vai ao cinema. Nem eu. Mas continuo sendo defensora do formato de filme: histórias de uma hora e meia com início, conflito e desenlace. Vejo séries de televisão, mas não costumo passar para a segunda temporada. Gosto dos personagens, mas depois de um ponto não preciso saber nada mais sobre eles.

Ela resiste à tecnologia. E dá para notar. Foster briga com o celular para mandar uma mensagem de texto. Fala em voz alta. “Pegue o telefone e chame seu tutor já”, pressiona um de seus filhos. Provavelmente é Charlie, o mais velho; ou talvez Kit, o caçula. Mas não usa o comando de voz. Nem a assistente virtual Siri. Fala enquanto tecla. Resmunga, mas há uma certa pose na fala. Sua vida privada foi uma barreira intransponível nas entrevistas. Agora, a mulher que saiu do armário na entrega do Globo de Ouro de cinco anos atrás torna o interlocutor partícipe de sua vida sem pedir. “A única coisa que preciso é de um filho que responda quando telefono. Você sabe o que é isso.”

Só tenho cachorros. É mais simples. Digo: “Lucy, venha” e ela vem. Outra Lucy! Ela sim foi o amor da minha vida! Minha buldogue francesa... Ter filhos muda a vida. E coloca seus pés no chão. É fácil sentir-se só em Los Angeles, especialmente quando se é alguém introvertido, independente e que não gosta de pedir ajuda. E se ainda for famosa, mais ainda. Mas meus filhos... Volto para casa depois da estreia, depois de um dia inteiro de entrevistas, e enquanto faço os exercícios de reabilitação no joelho chegam com um grupo de adolescentes e começam o dia à meia-noite. À meia-noite! Assaltam a geladeira, se entopem de algas, de refrigerante de laranja, de chantilly. Comem o que encontram. Não me entenda mal. Charlie tem 20 anos. E Kit, dezesseis e tanto. Não temos problemas além do típico: que deixam tudo jogado por aí. Me canso de ouvir minha própria voz. Mas temo que será assim até o fim da vida.

“Há uma grande beleza no fato de olhar para trás. E com isso não quero dizer que todo tempo passado foi melhor. Vivendo a lembrança me conformo”

Qual é a relação deles com o cinema? Se interessam por seus filmes? Não sou como Martin [Scorsese], que organiza projeções privadas e comentadas para a filha e seus amigos. Ele é obsessivo. Nós falamos de cinema, claro. Eles gostam. Mas têm sua própria conta da Netflix para ver o que querem. Sou muito mais obcecada pela ética do que pelo cinema. Rende mais assunto. Lemos juntos as páginas de opinião do The New York Times. Ou discutimos as notícias. Às vezes também falamos sobre filmes, mas por seu conteúdo social ou contexto histórico.

Qual é o filme que mudou sua vida? São tantos... O caçador me impactou, e muitos da nouvelle vague. Pequenas tramas sobre gente comum. Esses são os que mais me influenciaram.

Seu discurso há cinco anos durante a entrega do Globo de Ouro, quando recebeu o Prêmio Cecil B. DeMille por sua carreira, foi revelador: “Este poderia ter sido um grande discurso de saída do armário. Mas já saí do armário há milhares de anos”. Existe um antes e um depois em sua vida desde aquele momento? Foi uma grande noite e meu discurso foi o que foi. Falou por si. Quando alguém recebe um prêmio por sua carreira não comenta seu último filme, mas o que fez ao longo da vida. E aquele foi um momento de transição, de mudança para um novo futuro. Sei que causou muito ruído, mas não quis participar disso. Não há mais o que dizer. Não poderia estar mais orgulhosa desse trabalho absurdo de que desfruto e que me proporcionou uma vida maravilhosa. O cinema é minha família, é minha vida. Me deu sentido como pessoa e também tive de ganhar na marra essa coerência.

Quais foram as batalhas? Os piores momentos? Prefiro lembrar os melhores. Sou muito nostálgica. Há uma grande beleza no fato de olhar para trás. E com isso não quero dizer que qualquer tempo passado foi melhor, que gostaria de voltar para trás. Vivendo a lembrança me conformo. Minha vida nos hotéis com minha mãe, lavando nossa roupa no banheiro e sem ter sequer uma geladeirinha... Tínhamos nossas regras. Se comíamos na cama, colocávamos a toalha para que não ficassem migalhas. Inclusive em hotéis horríveis, como no que moramos durante a filmagem de Bugsy Malone (1976), ao lado do aeroporto e com cheiro de cloro, a lembrança que guardo é de ter passado o melhor momento da minha vida.

Naquele discurso do Globo de Ouro você também dedicou palavras emocionantes a sua mãe, Evelyn Almond. Como disse, ela está perdida atrás de seus olhos azuis, acometida pela demência. Essa é outra das razões de sua transição? Minha mãe não poderia estar melhor. Vai viver mais do que todos! É um período difícil, e é verdade que sua demência está muito avançada. É muito duro para todos quando nossos pais envelhecem. Mas estou muito agradecida de poder passar tempo com ela. Mora em sua casa, como quer, e não lhe faltam cuidados. O mais importante é que faz o que gosta: assistir filmes e comer.

Em algum momento se sentiu à frente do seu tempo? Não acredito que seja a pessoa mais adequada para dizer, mas olhando para trás algumas vezes pode parecer. Um dos motivos por que tive sucesso, por ser alguém tão fora da curva, é que quando criança estava cercada não de colegiais, mas de mulheres que trabalhavam. Como eu. Nunca tentei ser como os outros. Simplesmente fui.

Mas a força dos papéis que interpretou se adiantou ao momento em que vivemos. Sempre imprimi aos trabalhos minha experiência como pessoa. Não busquei a força. Só quis papéis que não fossem definidos por outros. E às vezes tive que tirar de um homem.

Jodie Foster, em 1976, em uma imagem de 'Táxi driver'.
Jodie Foster, em 1976, em uma imagem de 'Táxi driver'.everest collection

Protagonista desde muito jovem de títulos como Taxi Driver (1976), tornou-se a obsessão de John Hinckley Jr., autor no início dos anos oitenta do atentado frustrado contra o presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan como prova de seu amor à atriz. Jodie Foster parece a voz perfeita para o movimento Time’s Up contra o assédio sexual que teve início em Hollywood em resposta ao caso Weinstein. No entanto, suas reações ao furacão que abala a meca do cinema foram mais cerebrais do que emocionais. Não falou nada de Polanski, diretor com quem trabalhou em um de seus últimos filmes como atriz —Um deus selvagem (2011)—, agora expulso da Academia de Hollywood por estuprar uma menor há 40 anos. “A justiça a golpes de Twitter não é o caminho a seguir”, declarou Foster recentemente. Está claro que as redes sociais não lhe dizem nada. “Não vou julgar ninguém, porque não se pode dizer que vou salvar o mundo enquanto outros perdem tempo nas redes. Simplesmente não me interessa, e não sinto falta dos vídeos do YouTube com gatinhos e arco-íris. Não sei o que os outros fazem enquanto não estou nas redes, mas sinto saudades daqueles dias em que não estávamos tão interconectados”.

Como acha que a indústria vai mudar depois da revolução do #MeToo e do movimento Time’s Up? Me nego a aumentar o ruído em um momento tão importante de nossa história. Sofremos de um excesso de declarações. Ninguém precisa ouvir outro ator falando sobre o assunto. Precisamos de ações. De mais consciência. E como em todas as revoluções, deveríamos aprender com os erros cometidos pelos movimentos sociais anteriores. Se queremos mudança, temos de falar entre nós para buscar a reconciliação. Não fui eu quem disse, foi Desmond Tutu durante a luta contra o apartheid.

Sei que não gosta de falar sobre política, mas é impossível não fazer pelo menos uma referência à atual Administração estadunidense, contra a qual você se manifestou publicamente. Tenho orgulho de ser californiana. Sempre tive, mas agora ainda mais. Por fazer parte do Estado que neste momento da história dos EUA faz a diferença, tanto na tecnologia como nos temas sociais e políticos. Como o resto do país, estamos sendo empurrados para o abismo. Mas somos os primeiros a nos dar conta do que acontece. Minha esperança é que a Califórnia lidere a mudança de que precisamos. E sou muito otimista, porque o resto do país sempre olhou nessa direção para saber para onde vêm os tiros.

A que se deve sua reticência na hora de falar de política? Não me considero a porta-voz de nenhuma causa. E acho que nós, atores, não somos necessariamente qualificados para falar. Somos bons dizendo coisas sobre o cinema que fazemos e adoro participar de filmes que têm algo a comunicar. Mas prefiro depositar minha confiança em outras vias, como a ciência. De fato, confio muito nela, no fato de que as próprias pesquisas que nos levaram até aqui sejam a resposta para compreender o mundo em que vivemos e sejamos capazes de cuidar.

Em momentos de pânico, o que lhe dá tranquilidade? Desligar a televisão e parar de ver a CNN, para começar. E gosto de meditar, apesar de agora fazer tempo que não faço isso. Minha melhor forma de me concentrar, de desligar o ruído, de desconectar, é esquiar. Isso me acalma. Quando se está descendo por uma colina em alta velocidade, se começa a pensar em Trump ou em qualquer outra coisa, elas te dão segurança.

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