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Relato de uma testemunha solidária com os caminhoneiros em greve

O bloqueio em frente à fazenda da minha família me tornou solidário aos caminhoneiros.

Não só eu, mas toda a comunidade vizinha deu suporte enquanto eles se sentiam menosprezados pelo Governo

Greve dos Caminhoneiros 2018
Paulo, à frente de óculos, junto aos caminhoneiros

Aqui no km 92, a rodovia Dutra está liberada nos dois sentidos neste domingo, inclusive nos acostamentos. As dezenas de caminhões que bloquearam esta estrada, vizinha do local onde moro e trabalho, estão na lateral da rodovia. Saíram da pista depois da ameaça do Governo, na sexta-feira, de usar as Forças Armadas e multar quem estivesse parado. Passam carros e ônibus normalmente agora. Muitos buzinam em apoio e são retribuídos. Mas quando eles estavam enfileirados na Dutra, e só tinham uma pista liberada, também recebiam manifestações de apoio. Testemunhei de perto todos os dias, conversei com eles. Vivo em Pindamonhangaba, a apenas 500 metros do local onde eles se instalaram e fiquei curioso para entender os motivos para estarem ali.

É um movimento pacífico, na forma como começou na segunda-feira, dia 21. Até agora, continuam passando vendedores de cerveja e salgadinho. Empresas e cidadãos seguem ajudando com mantimentos. A Rede Graal, de postos de combustíveis, mandou refrigerante e marmitex, afinal os grevistas são seus grandes clientes. À noite fazem fogueiras entre as carretas e caminhões e ouvem músicas que enaltecem as virtudes e sofrimentos da classe.

Muitos estão constantemente ao celular, falando com a família. Nem todos estão acostumados a longos períodos fora de casa. Falam entre eles, trocando áudios e vídeos. “Ninguém está roubando, a gente trabalha. Caminhoneiro é maltratado em tudo que é lugar. Tirado como lixo, mas carrega o Brasil nas costas”, conversa em viva voz um deles com algum interlocutor, refletindo sobre a semana em que eles viraram o centro das atenções no Brasil.

Se o Governo os trata mal, se sentem confortados por diversos gestos anônimos. Carreatas de jipeiros vêm da cidade ver a situação, fazem um buzinaço de apoio e vão embora. A polícia passa de vez em quando e deve sentir certa frustração por ser desnecessária para garantir a lei e a ordem. Não há assaltos, roubos, baderneiros. Todos se conhecem e não permitiriam que pessoas de fora desconstruíssem um plano tão bem arquitetado. Há banheiros químicos e umas barracas montadas para apoio. Eles parecem não precisar de nada. Alguns que estavam em trânsito e não haviam puxado a greve acabaram parando e se juntando ao grupo. Não eram autorizados a seguir. Ligaram para seus patrões, que decidiram mandar dinheiro para que possam se virar.

Gente acostumada a uma vida muito dura está também acostumada a dormir na boleia. Nos caminhões têm TV, ventilador, ar condicionado (embora não tenha sido necessário). Os tanques estão cheios de óleo diesel. Nos postos não há álcool ou gasolina, o diesel ainda está disponível, afinal o consumo cessou. Quase todos têm um tanque de água e os maiores até uma pequena cozinha com fogão a gás. Não os vi pedir nada. Aliás, parecem saber que não precisam de ninguém, nem do governo. O que querem não estão pedindo, mas exigindo! Parecem estar revoltados com a boataria da grande mídia e o que parece bravataria do governo. Para eles está clara a manipulação da informação, a chantagem emocional da "tragédia social" que estariam causando. Nenhum caminhão de gás de cozinha, medicamento, oxigênio hospitalar ou outro gênero de primeira necessidade está retido, todos sabem disso e o movimento orgulha-se de seu caráter pacífico.

Demonstram estar cansados da inércia dos políticos, da falta de sensibilidade para os problemas sociais, das promessas não cumpridas. Riem das medidas de desmobilização. Sabem que duas dúzias de empresários, pagando de 1 a 3 salários mínimos por motorista, não conseguiriam mantê-los na estrada por tanto tempo para defender os benefícios daqueles. Acham graça do uso de militares para dirigir 2 milhões de caminhões. Gargalham das multas que pretendem aplicar, seja aos sindicatos, empresas ou aos próprios caminhões. Não acreditam que haja disposição dos militares ou policiais para um confronto. Conhecem a incapacidade da força para conter o roubo de carga, a violência urbana. Acreditam sim na fragilidade de um governo sem popularidade, consideram sua causa muito mais legítima que o próprio governo num país comandado por vices em todas as esferas do poder executivo. Quanto ao Congresso, não se sentem representados! Enfim, parecem ter plena consciência da força que possuem, além de terem conseguido demonstrar esta força para a população, que vê no movimento uma oportunidade de expressão e redenção.

*Paulo Bottino é arquiteto

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