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O dia de fúria de um ex-ator pornô anti-Trump

Polícia investiga por que Jonathan Oddi irrompeu no resort de golfe gritando contra o presidente e trocou tiros com a polícia

Jonathan Oddi depois de sua detenção.
Jonathan Oddi depois de sua detenção. REUTERS

Na madrugada de quinta para sexta-feira da semana passada, no luxuoso hotel e clube de golfe Trump National Doral, propriedade do presidente dos Estados Unidos numa pacata zona de Miami, viveram-se momentos de pânico quando um indivíduo irrompeu por volta de 1h (0h em Brasília) gritando contra o chefe da Casa Branca, provocando um intenso tiroteio com a polícia antes de ser detido. Na foto da ficha policial tirada após a detenção, o atirador, Jonathan Oddi, de 42 anos, aparece com o olhar perdido e expressão atônita. Talvez no preciso instante da foto tivesse se dado conta da barbaridade que tinha cometido. A polícia, por enquanto, não sabe por que ele fez o que fez. Sua trajetória de vida e profissional não parece esclarecedora à primeira vista. Oddi, ex-ator pornô e ex-stripper, atualmente se dedica aos negócios e, acima de tudo, a malhar na academia.

No meio da noite, Oddi saltou uma cerca do hotel, agarrou uma bandeira dos Estados Unidos do estabelecimento, entrou no saguão e jogou o pavilhão das listras e estrelas sobre o balcão da recepção. Sacou uma pistola, ameaçou um segurança desarmado e, sem que ninguém o contivesse, continuou destruindo computadores, quadros, móveis, janelas e enfeites da entrada, onde se veem, emolduradas, várias capas de revista dedicadas a Donald Trump, como pôde observar este jornal numa visita em 2016, depois o proprietário foi eleito presidente. Enfurecido, Oddi, segundo a reconstrução policial dos fatos, bradava “retórica anti-Trump” e estranhamente também gritava contra Obama e – para maior desconcerto ainda – contra o famoso rapper P. Diddy..

Quando a polícia chegou, o ex-ator pornô primeiro disparou para o ar e depois começou a atirar nos agentes, sem acertar em nenhum. O chefe da polícia do condado de Miami-Dade, Juan Pérez, especulou que Oddi, que supostamente ativou de propósito o alarme do lugar – como fez em fevereiro o assassino de Parkland – queria “atrair os agentes com seus tiros, para emboscá-los”. “Poderia ter causado muito dano, mas não conseguiu. Perdeu. Esse é o resultado final.” O atirador quis se proteger dos agentes subindo a escadaria do saguão, mas foi baleado nas pernas e capturado. Um vídeo divulgado pela polícia, gravado por uma câmera que um agente portava, mostra muita agitação e uma saraivada de balas. O presidente dos Estados Unidos não se encontrava ali, nem se previa sua visita nesta época.

Hospitalizado durante o fim de semana, Oddi compareceu nesta segunda-feira perante uma juíza e novamente parecia alterado, falando por cima do seu advogado e torpedeando com suas intervenções o trabalho da sua própria defesa. Quando o advogado questionava que ele tivesse acionado o alarme, e não a polícia, o acusado o interrompeu e reconheceu: “Eu que o ativei”. Seu advogado desligou seu microfone. “Sábia decisão”, comentou a juíza. Oddi, que nunca tinha sido detido, pelo menos em Miami, permanece na prisão sem direito a fiança e pode ser processado por vários crimes graves, incluindo cinco tentativas de homicídio doloso.

Jonathan Oddi é natural da África do Sul e em 2017 obteve a nacionalidade norte-americana, o que comemorou na sua conta do Instagram: “Deus abençoe os EUA. Finalmente americano!”. Vive a poucos minutos em carro do hotel de Trump, e em suas redes sociais se apresentava como instrutor de fitness, investidor imobiliário e gerente de um negócio de pedras preciosas. Cinco anos atrás, tinha sido stripper e ator no site El Oso Danzón, da Flórida, que produzia vídeos pornôs de festas grupais em que a clientela fazia sexo com os bailarinos.

Divorciado em 2014 e atualmente vivendo com outra mulher, Oddi publicava frequentemente no Instagram suas opiniões sobre temas da atualidade. Por exemplo, criticou Colin Kaepernick, o jogador de futebol americano que se ajoelhou durante o hino em protesto contra a brutalidade policial, e recriminou o Governo dos Estados Unidos por “dar dez milhões de dólares por dia a Israel”. Também ensinou que o caju tem propriedades antidepressivas, denunciou maus tratos contra animais – ele tem um cachorro pequeno chamado Popo –, postou notícias sobre as denúncias contra Harvey Weinstein e sobre a epidemia de opiáceos, e uma vez uma capa sobre o escândalo da relação de Trump com a atriz pornô Stormy Daniels, à qual acrescentou o comentário: “A dura realidade”, e outra protagonizada por Melania Trump em que elogiava a primeira-dama dizendo que ela contrabalançava “a agressividade” do seu marido.

Seu amigo Luis David González disse à imprensa local que ficou “surpreso e confuso” com o ocorrido. “Faz dez anos que o conheço, e é boa gente”, comentou. Soube do fato na sexta-feira de manhã, quando se dirigia à casa de Oddi com café e ovos para tomarem o café da manhã juntos antes de irem para a academia.

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