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Aliados de Marielle mantêm cautela sobre acusação contra vereador: “pode ser cortina de fumaça”

Pessoas próximas à vereadora apontam falhas na investigação do assassinato da política e do motorista Anderson. Para alguns, nome de Siciliano como eventual mandante pode ser “cortina de fumaça”

Grupo estende faixa na Câmara dos Vereadores do Rio, nesta segunda.
Grupo estende faixa na Câmara dos Vereadores do Rio, nesta segunda. AP

A brutal execução da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes completou dois meses nesta segunda-feira em meio à ansiedade pelo esclarecimento dos fatos, e à cautela de pessoas próximas das vítimas sobre o curso das investigações. Nem mesmo a acusação de uma testemunha de que o vereador Marcello Siciliano (PHS) possa ser o mandante do crime, juntamente com o ex-policial e miliciano Orlando Oliveira de Araújo (o Orlando Curicia), chegam a convencer o grupo ligado à vereadora. Por ora, mais dúvidas que certezas.

O depoimento da testemunha acabou vazando, apesar da investigação estar sob sigilo, e foi divulgado pelo jornal O Globo na terça-feira do dia 8 de maio. Nos últimos dois dias, em atos de homenagens a Marielle e Anderson realizados no Rio, o nome de Siciliano sequer foi mencionado. O vazamento vem sendo inclusive tratado pelo PSOL como algo prejudicial para as investigações, que estão à cargo da Delegacia de Homicídios da Polícia Civil do Rio. O teor do que foi trazido pela testemunha,  um policial militar da ativa que faz parte de uma milícia do Rio, vem sendo tratado publicamente por políticos do PSOL, ativistas, familiares e amigos de Marielle como inconclusivo. O EL PAÍS conversou com várias dessas pessoas, que preferem não se identificar, e nenhuma delas se arriscou em dizer que Siciliano pode, de fato, ter tramado a execução de sua colega vereadora. Também não rejeitaram essa hipótese. São 60 dias de mistério e de espera por justiça. Mas todas elas demonstraram confiança no trabalho da Polícia Civil, ao mesmo tempo em que defendem a pressão popular como instrumento para que o caso seja solucionado.

Algumas dessas pessoas ainda argumentaram que as acusações contra Siciliano poderiam servir de "cortina de fumaça" para despistar as investigações dos reais mandantes do crime e que a morte de Marielle pode fazer parte de um conluio ainda maior. Outras disseram que Siciliano é um "peixe pequeno" e poderia servir de "bode expiatório". Isso porque, coincidiram todos, alguns elementos do depoimento da testemunha não fazem sentido, como a alegação de que Siciliano e Orlando de Curicica estavam incomodados com ações de Marielle na Cidade Deus junto a moradores. A comunidade, que fica na Zona Oeste do Rio e é dominada por traficantes, estaria sendo disputada por milicianos, segundo a testemunha. No entanto, Marielle não possuía nenhum tipo de ação social específica nessa área da cidade. Sua atuação consistia muito mais no atendimento de vítimas de violações dos Direitos Humanos, sobretudo das mulheres.

Assim, pessoas ouvidas por este jornal acreditam que seja pouco provável que a execução de Marielle tenha sido motivada por embates na Câmara dos Vereadores ou por alguma atuação parlamentar específica. O mais provável, apostam, é que o crime tenha sido planejado por milicianos que queriam vingança, uma vez que a vereadora do PSOL foi assessora do deputado estadual Marcelo Freixo durante a CPI das Milícias (2008) e estava bastante exposta; ou que tenha sido uma tentativa por parte de organizações criminosas de tentar desestabilizar a intervenção federal no Estado do Rio de Janeiro. Uma das linhas de investigação, segundo publicou a revista VEJA, aponta justamente para políticos importantes, inclusive de fora da Câmara dos Vereadores do Rio, que teriam interesse em desestabilizar a intervenção. Ainda assim, a participação de Siciliano não está descartada. Tanto ele como outras pessoas apontadas pela testemunha estão sendo investigadas, garantiu o ministro da Segurança Pública Raul Jungmann.

Nesta terça-feira, a Câmara de Vereadores do Rio realizou sua primeira sessão plenária após as revelações do jornal O Globo sobre o suposto envolvimento de Siciliano. Ele não esteve presente, o que acabou evitando certo constrangimento ao longo do dia, segundo disse um vereador ao EL PAÍS. Na quarta e quinta-feira da semana passada, os vereadores decidiram que, pela gravidade das acusações, não havia espaço para abrir os debates na Casa. Segundo disse um deles, essa decisão expôs a anormalidade do momento, mas ter que levar o assunto ao plenário poderia expor ainda mais. Nesta terça, os debates ocorreram com normalidade e o clima geral era de cordialidade e descontração entre os presentes. Uma das principais discussões do dia foi o aniversário de 70 anos da criação do Estado de Israel e o massacre promovido nesta segunda pelas forças de segurança israelense, que mataram 60 palestinos que protestavam na fronteira com a Faixa de Gaza. Não houve nenhum pronunciamento sobre o caso Marielle.

Atos em homenagem a Marielle e Anderson

Os atos em homenagem a Marielle e Anderson e para cobrar respostas das autoridades ocorreram ao longo desta segunda-feira. O primeiro deles, promovido pela Anistia Internacional, foi realizado em frente a Secretaria de Segurança Pública do Rio e contou com a presença de familiares de Marielle. Elogiaram o empenho da Polícia Civil em solucionar o caso, mas não mencionaram nominalmente Siciliano. Ao serem questionados pela imprensa sobre sua possível participação no crime, tiveram o cuidado de usar a condicional. "O meu coração de mãe pede para que não seja ninguém que a gente conheça, pede que não seja ele. Se for, é uma traição", afirmou Marinete Silva, mãe de Marielle. "Se realmente for confirmado, será uma indignação muito grande, porque uma pessoa que convive no dia a dia com ela cometer uma traição desse tipo é inadmissível. Uma pessoa dessas não pode nem exercer uma função na Câmara de Vereadores", afirmou Antônio Franco, pai da vereadora.

Mais tarde, por volta das 16h, centenas de pessoas começaram a ocupar a Cinelândia para um ato em frente a Câmara dos Vereadores. Duas enormes faixas brancas foram lançadas de janelas do Palácio Pedro Ernesto e estendidas em suas escadarias para que os presentes pudessem deixar suas mensagens e desenhos. "Maré vive por você", "Precisamos de respostas!", "Axé hoje e sempre", "Lute como uma Marielle" e "Vidas negras importam" eram algumas das frases escritas. Aquele mesmo local fora completamente tomado por milhares pessoas que, na quinta-feira do dia 15 de março, um dia após o assassinato de Marielle e Anderson, repudiavam o crime e exigiam respostas.

Como daquela vez, o tom do protesto era de cobrança e pressão para que o crime fosse desvendado. Durante os discursos de lideranças políticas e ativistas, em nenhum momento se mencionou o nome de Siciliano. Nem mesmo entre os manifestantes que estavam na praça. O deputado federal Chico Alencar (PSOL) enfatizou que o crime foi cometido por criminosos imbricados no aparato estatal, em clara referência às milícias e forças de segurança. Já o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), muito próximo de Marielle, condenou enfaticamente o vazamento do depoimento da testemunha que acusou Siciliano. Ele ainda responsabilizou a Polícia Federal por seu vazamento. Também criticou o ministro da Segurança Pública Raul Jungmann, que havia elogiado sua divulgação e garantido que as investigações se aproximavam de um final. Para Freixo, entretanto, a complexidade do caso indica que um final não está próximo e que é preciso reunir o maior número de provas para que injustiças não sejam cometidas. Em seu discurso, destacou que não quer vingança, mas sim justiça.

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