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Catalunha elege outro presidente independentista e prolonga queda de braço

Quim Torra promete trabalhar pela "República Catalã" e diz que o presidente legítimo é o foragido Carles Puigdemont

Quim Torra
Quim Torra, novo presidente da Catalunha.

Os nacionalistas da Catalunha não desistem e parecem dispostos a prolongar o conflito com a Espanha. Nesta segunda-feira, o Parlamento regional elegeu o novo presidente Quim Torra com os votos dos partidos favoráveis à separação da Espanha. Torra proclamou, no entanto, que o presidente legítimo é Carles Puigdemont, foragido da Justiça espanhola na Alemanha. Seu primeiro ato como governante será visitar seu antecessor nesta terça-feira em Berlim.

O conflito na Catalunha passou meio ano em hibernação depois que o Governo espanhol decidiu abolir a autonomia da região em resposta à declaração de independência aprovada em 27 de outubro pelo Parlamento de Barcelona. A Justiça espanhola prendeu alguns dos principais líderes pró-independência, mas Puigdemont conseguiu escapar da prisão fugindo para o exterior. Um tribunal na Alemanha, país onde Puigdemont se encontra depois de passar pela Bélgica, negou o pedido de extradição apresentado pela Espanha.

Puigdemont voltou a ser candidato nas eleições realizadas em dezembro passado, que confirmaram a forte divisão da sociedade catalã entre apoiadores e opositores da independência, embora os nacionalistas conseguiram uma maioria apertada no Parlamento. Após tentativas fracassadas de proclamar presidente Puigdemont ou alguns dos líderes presos – a Justiça impediu todas essas manobras nos últimos meses – os independentistas chegaram a um acordo para eleger Quim Torra. A figura do novo presidente tem sido fortemente contestada pelos partidos contrários à separação da Catalunha, já que nos últimos anos ele fez numerosas declarações públicas ofensivas para os espanhóis. Torra pediu desculpas por essas manifestações, mas prometeu “trabalhar incansavelmente” para conseguir a “República Catalã”.

O novo presidente teve 66 votos a favor dos dois principais partidos nacionalistas, Juntos pela Catalunha e Esquerda Republicana, e 65 contra das legendas que rejeitam a independência. Os quatro deputados do grupo separatista mais radical, os anticapitalistas da Candidatura de Unidade Popular (CUP), se abstiveram.

A eleição não prenuncia o início de uma nova etapa, mas a continuação do desafio ao Estado espanhol por parte das instituições que Puigdemont já liderou em setembro e outubro de 2017, quando leis foram aprovadas à margem da Constituição espanhola e se declarou independência, o que levou à prisão ou à fuga de seus promotores. Desde sua fuga da Espanha, o ex-presidente liderou a linha mais dura do separatismo. Na sexta-feira, em três discursos no Parlamento, Torra mostrou grande consideração por seu antecessor. Ele fez contínuas menções à figura de Puigdemont e ofereceu seu cargo depois da posse, um sintoma da prevalência que o foragido terá sobre Torra. O presidente eleito insistiu na “excepcionalidade e provisoriedade” de seu mandato e prometeu que fará tudo o que estiver ao seu alcance para que Puigdemont, com quem dará uma entrevista coletiva conjunta em Berlim na terça-feira, volte a ocupar o cargo.

Um dos líderes da oposição, Miquel Iceta, do Partido Socialista, alertou os nacionalistas: “não provoquem de novo para evitar outra aplicação do 155”, referindo- se ao artigo da Constituição espanhola, que permite que o Governo central intervenha na região, como aconteceu em novembro passado. Torra admitiu que “é preciso aprender com os erros”, o que foi entendido como uma referência à declaração de independência aprovada pelo Parlamento em 27 de outubro. O novo presidente também indicou que sua intenção é elaborar uma “Constituição catalã”. Segundo Torra, a chave do seu mandato será o julgamento contra os líderes independentistas previsto para daqui a alguns meses, e que “colocará a Catalunha à prova”. No último fim de semana, Puigdemont declarou ao jornal italiano La Stampa que novas eleições podem ser realizadas em outubro.

Enquanto isso, o primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy convocou os líderes dos principais partidos para chegar a um acordo sobre uma possível nova intervenção na Catalunha se os nacionalistas voltarem a tomar decisões que violam a Constituição da Espanha.

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