De Satã à ‘família africana’ de Obama: as 3.500 postagens do Facebook pagas pela Rússia

Divulgadas as mensagens publicadas durante a campanha eleitoral norte-americana de 2016

Postagem financiada pela Agência de Pesquisas da Internet da Rússia
Postagem financiada pela Agência de Pesquisas da Internet da Rússia

Os quase 3.500 anúncios da trama russa no Facebook e no Instagram voltaram a ser publicados nesta quinta-feira, dia 10. Desta vez não na rede social mais poderosa do planeta, nem com a intenção de avivar fraturas sociais nos Estados Unidos. A propaganda financiada pela Agência de Pesquisas da Internet da Rússia foi divulgada a pedido da bancada democrata no Comitê de Inteligência da Câmara de Representantes (deputados) para ilustrar o alcance da manipulação de Moscou durante a campanha eleitoral norte-americana de 2016. A maioria dos anúncios é de mensagens incendiárias sobre temas sensíveis, como as divisões raciais, a imigração, questões LGBT e direito ao porte de armas.

Mais informações

O promotor especial que investiga a trama russa, Robert Mueller, acusou em fevereiro 13 cidadãos e três entidades da Rússia de terem promovido uma “guerra informativa” contra as eleições presidenciais norte-americanas de novembro de 2016. Os democratas dizem que as postagens publicadas no Facebook e no Instagram entre 2015 e 2017 tiveram uma eficácia diferente em cada caso: de poucas centenas de visualizações até mais de um milhão. Segundo a rede social, o alcance das publicações foi de 146 milhões de usuários.

Os anúncios políticos eram quase todos contra a candidata democrata Hillary Clinton. Em uma página chamada “Exército de Jesus”, que tinha como imagem de perfil Jesus lutando contra Satã, lia-se: “Hillary é Satã, e seus crimes e mentiras mostram sua maldade”. Contra Trump, circulou um evento de protesto contra a guerra na Síria, cuja foto era a Trump Tower. A convocação dizia: “Alguns acreditavam que Trump retiraria os EUA das campanhas militares inúteis e sangrentas. Mas o que vemos só aumenta a hostilidade”.

O dossiê sobre o caso elaborado pela CIA, pelo FBI e pela Agência de Segurança Nacional ofereceu uma conclusão aterradora sobre a influência das mensagens: “Vladimir Putin [presidente da Rússia] ordenou uma campanha em 2016 contra as eleições presidenciais dos EUA. O objetivo era solapar a fé pública no processo democrático, difamar a secretária Clinton e prejudicar sua elegibilidade e potencial presidência. Putin e o Governo russo desenvolveram uma clara preferência por Trump”.

Outra mensagem mostrava uma foto do ex-presidente Barack Obama junto a um grupo de africanos, com os dizeres: “Família de Obama. Parte de pai”. A mensagem era dirigida especialmente a pessoas que haviam demonstrado interesse a respeito da luta do reverendo Martin Luther King pelos direitos civis dos afro-americanos. A esse mesmo grupo estava dirigido um vídeo de uma menina negra de 13 anos detida por três policiais no Texas. Com as ferramentas de segmentação da rede social, os piratas russos conseguiram que a sua desinformação chegasse a perfis de usuários específicos e totalmente heterogêneos.

Até setembro do ano passado, quando o Facebook identificou 470 contas que compraram cerca de 3.500 anúncios por 150.000 dólares num período de dois anos, a empresa de Mark Zuckerberg negou reiteradamente que os ativistas cibernéticos russos explorassem sua plataforma. Entretanto, acabou detectando que uma empresa, que operava como uma espécie de fazenda de trolls de apoio ao Kremlin, vinha pagando os anúncios para influenciar a política norte-americana.

Os democratas do Comitê de Inteligência já tinham publicado uma amostra dos anúncios no ano passado, mas agora lançaram todo o material que os funcionários do Facebook entregaram à comissão em setembro. Desde então, a empresa, com sede em Califórnia, diz ter adotado uma postura “muito mais agressiva” em relação aos anúncios sobre assuntos políticos, obrigando os compradores a confirmarem sua identidade e localização e a revelarem publicamente quem são.

As medidas precisam ser convincentes se o Facebook quiser recuperar a confiança antes de novembro, quando os norte-americanos votarão para renovar a totalidade da Câmara de Representantes e um terço do Senado. É um desafio importante, levando-se em conta que os chefes das agências de inteligência dos EUA já alertaram que a Rússia tentará novamente interferir nesse pleito, usando as redes sociais para difundir propaganda e notícias enganosas.