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Acuado, Trump lança seu maior ataque contra o promotor que investiga a ‘trama russa’

Presidente acusa a equipe de Robert Mueller de estar infiltrada por “democratas e defensores da corrupta Hillary”

O promotor especial Robert Mueller, no Capitólio.
O promotor especial Robert Mueller, no Capitólio. AP

O nervosismo cresce na Casa Branca. À medida que o promotor especial que investiga a chamada trama russa, Robert Mueller, se aproxima do seu alvo final, é cada vez maior a inquietação do presidente Donald Trump. Em uma virulenta série de tuítes, o mandatário lançou neste fim de semana seu primeiro ataque direto contra Mueller e sua equipe, acusando-os de estarem infiltrados por democratas – “alguns deles defensores da corrupta Hillary” – e de não ter nenhum republicano em seus quadros. “É justo isso?”, perguntou-se Trump, ao mesmo tempo em que chamava de mentirosos o ex-diretor do FBI James Comey e seu número dois, Andrew McCabe, principais fontes de uma possível acusação por obstrução à justiça.

Os Estados Unidos estão testemunhando como seu presidente, rompendo as regras do respeito institucional, dispara sua artilharia tuiteira contra o promotor Mueller e sua investigação. Ele seria não só a “vítima de uma caça às bruxas”, como gosta de recordar; agora, afirma que os agentes nomeados pelo Departamento de Justiça do seu próprio Governo fazem parte de uma gigantesca conspiração contra o presidente. “A investigação de Mueller jamais deveria ter começado, porque não houve conluio nem delito. Baseou-se em atividades fraudulentas e num dossiê enganoso pago pela corrupta Hillary e pelo Comitê Nacional Democrata, e foi usado indevidamente perante os tribunais para investigar minha campanha. Caça às bruxas!”, clamou Trump na tarde de sábado.

É a primeira vez que os ataques se voltam diretamente contra Mueller. Sempre discreto em aparições públicas, o promotor especial é uma lenda viva do FBI. Nomeado diretor da agência em 2001 por George W. Bush, foi confirmado no cargo pelo Senado com todos os votos a favor. Uma semana depois de assumir, teve de lidar com os atentados do 11 de Setembro. Após 10 anos no cargo, sua gestão, aplaudida por republicanos e democratas, o levou a ser mantido no cargo por Barack Obama até 2013. Já aposentado, a escandalosa demissão de Comey da chefia do FBI, em maio do ano passado, levou o secretário-adjunto de Justiça, Rod. J. Rosenstein, a escolhê-lo para abrir uma investigação especial e aquietar as suspeitas de que o Departamento de Justiça estaria tentando acobertar a trama russa.

Em suas investigações, Mueller busca principalmente esclarecer se houve coordenação entre a equipe de campanha de Trump e o Kremlin. Mas, paralelamente, outro ramo da investigação apura se o presidente obstruiu o funcionamento da Justiça – uma suspeita que se baseia na demissão de Comey, que perdeu o cargo por se negar a engavetar o inquérito. Chamado a depor pelo Comitê de Inteligência do Senado, Comey revelou as reiteradas pressões que sofrera por parte do Trump, incluindo um jantar a sós na Casa Branca. Essas declarações poderiam sustentar, segundo os especialistas, uma acusação de obstrução, abrindo as portas a um remoto processo de impeachment.

Frente a esse horizonte, Trump tentou solapar a credibilidade de Comey, retratando-o como um pau-mandado dos democratas. “Uau, vejam o Comey mentindo sob juramento […]”, escreveu o presidente num tuíte na madrugada deste domingo, fazendo referência a um depoimento do ex-diretor do FBI no Senado em que ele negou que tenha sido uma fonte anônima ou soubesse quem foi. Esse golpe, na já emaranhada meada do caso, se refere ao ex-número dois do FBI, Andrew McCabe, que, num memorando interno, foi acusado de fornecer informações sigilosas a um meio de comunicação. A infração foi a justificativa para que McCabe fosse demitido na sexta-feira, 26 horas antes de se aposentar.

McCabe, cuja esposa foi candidata democrata numa recente eleição local na Virgínia e recebeu recursos de doadores de Hillary Clinton, revelou ter preparado um relatório sobre todos os seus encontros com Trump, o qual entregou ao promotor especial da trama russa. “Passei pouquíssimo tempo com Andrew McCabe, mas ele nunca tomou notas quando esteve comigo. Não acredito que tenha escrito esses memorandos senão para a sua própria agenda, e provavelmente numa data posterior. O mesmo ocorre com o mentiroso James Comey. Podemos chamá-los de falsos memorandos?”, tuitou o presidente.

Essas arremetidas mostram que Trump, com as eleições legislativas de novembro à vista, quer desmantelar a todo custo a investigação, ou pelo menos neutralizá-la mediante sua politização. Alarmado pelo desgaste que o caso provoca, elevou o tom de seus ataques, e seus advogados já pediram publicamente a Mueller que encerre o inquérito. O entorno do promotor especial guarda silêncio. Alguns meios de comunicação norte-americanos informam que ele já teria concluído a parte relativa à obstrução e que está à espera de finalizar as vinculadas à Rússia e as finanças. Comey, que nos últimos dias sofreu vários ataques, é dos poucos que respondem a Trump na mesma linguagem, a do Twitter: "Senhor presidente, os norte-americanos escutarão minha história dentro de muito em breve, e poderão julgar por si mesmos quem é honrado e quem não é”.

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