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Joaquim Barbosa, o quase candidato que desistiu antes da largada

Dirigentes do PSB sondam ex-ministro do STF para outras disputas, mas ele diz que se absterá de qualquer candidatura.

Dúvida é quem vai herdar os 10% de intenção de voto que ele já tinha nas pesquisas.

Joaquim Barbosa
Joaquim Barbosa antes de uma reunião com líderes do PSB em Brasília no dia 19 de abril. AP

Se a corrida eleitoral fosse uma maratona, como alguns dirigentes do PSB pregam, Joaquim Barbosa teria sido aquele atleta amador mas promissor que, quando começa a se aquecer minutos antes da largada, desiste do desafio temendo as cãibras e outras dores que possivelmente sentirá em todo o corpo após a prova. Ao anunciar, nesta terça-feira, que abriria mão de uma candidatura à presidência da República, o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal jogou fora qualquer expectativa que os torcedores por outsiders poderiam ter.

Conforme as últimas pesquisas, ele era o único não-político que tinha alguma chance de chegar ao Palácio do Planalto, numa eleição que pedia um outsider. Era a grande novidade do ano. E acabou se transformando em um cometa que desaparece quase na mesma velocidade que surge. Assim, a decisão do ex-ministro colocou mais interrogações no já confuso tabuleiro político brasileiro. A principal delas: quem herdará os 10% dos votos que o neófito peessebista tinha? Consultados pelo EL PAÍS, dois cientistas políticos – Flávia Biroli, da UnB, e Leandro Machado, do Movimento Agora – e o presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira, entendem que ainda é cedo para dar uma resposta certeira. Mas entendem que todos os políticos tradicionais se beneficiam da decisão dele. “A política convencional ganha. Ele era um candidato transversal, entrava no eleitorado de todos os outros candidatos. Hoje você tem um voto no Jair Bolsonaro que é de protesto. É o mesmo que votar num poste. O Joaquim era uma alternativa que se perde”, disse Siqueira.

Em artigo para este jornal, Marcello Falhauber, marqueteiro de campanha, via em Barbosa o candidato com o maior potencial de crescimento dentre os demais, além de ser um nome que tinha grandes chances de roubar votos de Bolsonaro. “A presença do ex-ministro do STF na disputa divide a narrativa do combate à corrupção (apontada por 58% dos eleitores como a principal causa do momento difícil por que passa o país) e do rompimento com o sistema político vigente... Por enquanto, a candidatura Joaquim Barbosa representa um risco muito maior para Bolsonaro do que Alckmin ou Álvaro Dias e isso tende a permanecer assim até o final da disputa”, escreve Faullhaber, ponderando que o PT viria a perder o timing para apontar um candidato.

A cientista política Biroli pondera, entretanto, que era difícil saber o que Barbosa pensava sobre diversos temas, porque jamais se pronunciou oficialmente sobre economia, movimentos sociais ou políticas públicas para o Brasil. “A candidatura dele estava pouco delineada. Embora não o leia como alguém que fosse dialogar com as demandas da esquerda, dos movimentos negros, ele acabava trazendo posições que embolavam um pouco os polos mais nítidos.”

Leandro Machado, que participa do grupo que tenta renovar a política e já apoiou o nome de Luciano Huck à presidência, lamentou a desistência de Barbosa e a vê como um desestímulo para novos nomes entrarem na eleição. “Temos um grupo de eleitores-pêndulos. Uma análise combinatória do Datafolha mostra que 33% estariam nesse grupo que, não necessariamente, migram em bloco. A eleição ainda está muito dividida”, avaliou Machado. Tanto Machado quanto Siqueira também entendem que a decisão do ex-ministro era de foro íntimo. “Ser candidato é um fardo muito pesado”, disse o cientista político. “Ninguém pode ser candidato sem querer”, completou o presidente do PSB.

Fator pessoal

Em seu anúncio, Joaquim Barbosa deixou claro o motivo de sua desistência. “Decisão estritamente pessoal”. Deputados com que conversaram com ele nas últimas duas semanas, disseram que o fator família e o financeiro pesaram na decisão. Seus familiares eram contrários à candidatura. E os valores que ele recebe emitindo pareceres jurídicos em seus três escritórios de advocacia (Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro), jamais seria alcançado na presidência da República. O salário do presidente hoje é de pouco mais de 30.000 reais mensais. É pelo menos a metade do que Barbosa recebia por um único parecer, dependendo da envergadura do processo.

Ao blog do jornalista Lauro Jardim, d’O Globo, ele afirmou que seu coração já dizia para não mexer com a política. Alegou que desistiu neste momento para que as próximas pesquisas eleitorais já não constassem seu nome. E disse ainda que vê três riscos no horizonte: Bolsonaro ser eleito presidente do Brasil, ou Michel Temer (“maquiavélico”) articular algo para se manter na presidência ou que os militares deem um golpe. Em entrevista publicada nesta quarta no Valor, mostra que carece de uma característica intrínseca a quem quer ser vencedor em um pleito eleitoral: “não morro de amores pelo poder”, diz ele expondo outra faceta pouco comum entre candidatos: a sinceridade. Quando questionado sobre o que esperava desta eleição, ele respondeu: “Temo que se aprofundem as desigualdades”, deixando claro que esse seria um mote de sua hipotética campanha. “Esse processo de precarização, de miserabilidade, não está sendo abordado por ninguém. Meu temor é que os grupos que são indiferentes ao aprofundamento da desigualdade vão se unir para dominar esse processo eleitoral. Se uniriam contra mim, não tenho dúvidas”, avaliou.

Dois deputados consultados pela reportagem disseram que tentarão convencer Barbosa a se candidatar a outro cargo – vice-presidente, governo do Rio ou Senado. Mas já ouviram um sonoro não de aliados dele. E o presidente do PSB acredita que, dificilmente, ele aceitaria. “Ele mesmo não me disse, mas acredito que se estivesse disposição de subir em palanque algum, se tivesse, não desistiria de candidatura a presidente.” Enquanto o atleta amador se dedica às suas sessões de quiropraxia e promete viajar para o exterior para não ter de votar, os outros atletas (esses profissionais) se preparam para tentar abocanhar os 10% do eleitorado que havia dito ser fiel a ele. O treinamento está a todo vapor.

Sem Barbosa, PSB volta a ser coadjuvante

Joaquim Barbosa era a única opção para o PSB disputar uma eleição presidencial como cabeça de chapa. Na cúpula do partido, o sentimento é de abatimento, apesar de dizerem entender as razões que o tiraram da corrida eleitoral. “Não cogito candidatura presidencial porque isso não se improvisa”, afirmou o presidente do PSB, Carlos Siqueira.

Nos próximos dez dias, a Executiva Nacional dos socialistas se reunirá para definir seu rumo. Sem Barbosa, a legenda tentará se aliar a outros partidos de centro esquerda desde que não apoiem as medidas adotadas pelo governo de Michel Temer. Nessa linha estariam do PT, PDT, REDE e PCdoB. De antemão, estão descartados o DEM e o MDB. E o PSDB? “Li que o ex-governador Geraldo Alckmin [PSDB] estaria negociando com o Temer. Se isso for verdade, já nos afastamos do PSDB”, ponderou Siqueira.

Em 2014, o PSB esteve entre os protagonistas da eleição com as candidaturas presidenciais de Eduardo Campos, morto em um acidente aéreo na campanha, e posteriormente de Marina Silva. Era uma terceira via diante da polarização PT-PSDB. Agora, voltará ao posto de coadjuvante.

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