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COLUNA

Barbosa, o Lula negro?

O que sabemos até agora sobre o pensamento político do homem que pode ser um dos candidatos mais emblemáticos das eleições é muito pouco

Joaquim Barbosa antes de uma reunião com líderes do PSB em Brasília no dia 19 de abril
Joaquim Barbosa antes de uma reunião com líderes do PSB em Brasília no dia 19 de abril REUTERS

O juiz Joaquim Barbosa está tentado pela política, mas peca por ser muito reservado. Ao contrário dos políticos clássicos, cujas palavras não faltam, ele prefere a abstinência verbal. Os jornalistas, por exemplo, não são seu prato favorito. Eu mesmo tentei em vão conseguir uma entrevista com ele para este jornal diversas vezes. Embora alguns o tenham definido apressadamente como o “Lula negro”, Barbosa continua sendo um enigma.

O que até agora conhecemos sobre o pensamento político do homem que poderia ser um dos candidatos presidenciais mais emblemáticos das próximas eleições é muito pouco. E é somente através de seus votos no Supremo, onde passou 11 anos e foi o famoso e polêmico relator do escândalo do mensalão, com seus implacáveis ataques contra a corrupção político-eleitoral.

Mas Barbosa, que não carece de saber acadêmico e que lê e fala quatro idiomas, não pode ignorar um fato: se entrar na arena, será obrigado a se desnudar intelectualmente para que seus possíveis eleitores saibam o que pensa deste país poliédrico, com tantas almas diferentes. Um país que se debate entre a modernidade e as cinzas ainda vivas de um passado imperial e escravocrata.

Talvez por isso, Barbosa tenha começado a sair de seu silêncio. Quis iniciar sua nova tese de doutorado em política com a afirmação de que, para resolver os muitos problemas da nação, a começar pelos econômicos, não adianta o que ele chamou no jornal O Estado de S. Paulo de “uma engenharia social de soluções puramente especulativas”.

Por suas primeiras declarações, podemos ao menos saber que, se Barbosa chegar ao Planalto, o Brasil que ele avistará lá de cima é um país “social e estruturalmente frágil e desequilibrado, com desigualdades profundas e historicamente enraizadas”. E para esse Brasil, diz, não servem, na economia, posições “ultraliberais”. Essa é, até o momento, sua primeira marca de identidade, além de sua conhecida abertura em defesa dos direitos civis e da rejeição a todas as discriminações raciais e de gênero.

Barbosa não é marxista, e sim partidário do livre mercado, mas é consciente de que o Brasil não pode ser governado sem enfatizar o combate contra a miséria estrutural. É pragmático como aquele Lula do primeiro mandato, conhecedor das carências do Brasil oculto e marginalizado.

Haverá quem diga que Barbosa se prepara com esse primeiro desenho sobre o país para angariar os votos dos seguidores de Lula caso este não possa disputar as eleições. A política é também isso. Mas Barbosa não é o novo Lula e tem, sobre a realidade do país, uma visão mais analítica e menos triunfalista que a do popular ex-líder sindical. Sabe que não é certo, por exemplo, que 40 milhões de pobres tenham entrado definitivamente no paraíso da classe média. Talvez tenham, como escreveu Frei Betto, meia dúzia a mais de eletrodomésticos, mas é uma massa de pessoas ainda presa na carência cultural, herdeira das cicatrizes de uma escravidão que foi a última do mundo a ser abolida.

Barbosa, negro, intelectual, vindo dessa pobreza da qual pôde ser resgatado graças ao estudo, quer deixar claro, apesar de seu aparente mutismo, que continua existindo “o Brasil da pobreza profunda, cuja miséria é sua marca original.” Talvez o medo que Barbosa desperta na extrema-direita liberal seja que, se chegar à presidência, em seu olhar prevalecerá o Brasil dos despossuídos. Barbosa não é uma personalidade fácil, apaziguadora, nem de palavras doces. Se for mesmo candidato, o mais difícil de assimilar para ele será aceitar que a política é, por definição, “a arte do compromisso”.

Para Barbosa, mais do que para tantos políticos tradicionais, serviria o conselho radical do Livro do Apocalipse 3:16. “Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.” Ele não seria, de fato, um presidente para principiantes, para o Brasil da vassalagem ancestral ou o dos resignados. Menos ainda protetor de corruptos ou anestésico de excluídos. Não surpreende que desperte ao mesmo tempo admiração, receios e até medo.

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