Colônia Dignidade, a seita alemã que levou o inferno ao Chile

Pedofilia, tortura, tráfico de armas, escravidão… O livro ‘Sprinters’, de Claudia Larraguibel, revela a história de um dos esquemas de dominação mais infames e eficazes do século XX

A entrada da Colônia Dignidade.
A entrada da Colônia Dignidade.Shepard Sherbell (Getty Images)

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Quando a situação veio à tona, em meados dos anos noventa, a sociedade chilena se deparou com estranhos alemães, muito pobres, que se diziam colonos e não falavam espanhol, não sabiam o que era um computador, quando era seu aniversário ou que viviam em um país que tinha sofrido uma ditadura atroz. Mas ninguém realmente sabia de nada? “O lema da Colônia Dignidade era ‘Silêncio é fortaleza’. Parece que fora dali também se optou por isso afinal”, diz ao EL PAÍS a escritora chilena Claudia Larraguibel, autora de Sprinters, um livro híbrido, que recorre à autoficção e à mistura de gêneros para contar de perto as consequências dessa aberração. A publicação não foi lançada em português até o momento.

O sorriso do Tio Paul

A história de Paul Schäfer só pode ser lida com horror. Médico na II Guerra Mundial, fugiu da Alemanha acusado de pedofilia e chegou ao Chile no começo dos anos sessenta com algumas das suas vítimas. Convencido de que Deus havia lhe encomendado uma missão pela pureza e contra o comunismo, durante seu depoimento só se justificou, mas não pediu perdão nem explicou nada. "No julgamento não parava de sorrir. Já teve seu céu na terra", contam as testemunhas.

Sprinters eram as crianças que Schäfer tinha à sua disposição. Crianças alemãs retiradas para sempre dos membros da seita – na Colônia Dignidade não existiam famílias, e a separação por sexos era radical – ou menores chilenos sequestrados ou adotados ilegalmente. “Crianças de serviço”, como eram chamadas por Schäfer e seu grupo de líderes, escravos no campo e na cama. Quando Larraguibel conheceu o caso de Hartmut Münch soube que tinha a história que queria. A morte não resolvida desse menino dominado pelo tio Paul, como Schäfer era chamado, é uma das muitas interrogações deixadas por décadas de repressão e esquecimento. “Conforme você investiga, percebe que é uma trama de ramificações cada vez mais complexas e delirantes. Por isso usei a autoficção”, afirma a autora. Ela conta que já havia muitos trabalhos sobre a Colônia Dignidade no Chile, mas que ela queria ir ao drama das vítimas, dos colonos, do dia seguinte, quando sua realidade desmorona e é preciso encarar o mundo. “Durante a pesquisa, estive muito com os colonos, embora você se canse deles. Não é que se aproveitem, é feio dizer desse jeito, mas, como o Governo chileno não fez nada por compensar as vítimas, se agarram ao que podem. Chega uma hora que você quer fazer o que um país inteiro fez: esquecê-los”, relata, com sinceridade. “Eu me pergunto: até que ponto preferimos olhar para o outro lado? Essa pergunta incômoda é a que quero que o leitor se faça.”

Ao contrário de outros cultos radicais, a Colônia Dignidade estava fadada a desaparecer ao invés de se multiplicar. Schäfer proibiu os casamentos, obrigou as mulheres a abortar e matou recém-nascidos. A seita começava e terminava nele. “É algo que não se entende. Mesmo que seja só por seus próprios interesses, um pedófilo precisa de crianças”, comenta Larraguibel. As mulheres foram as outras vítimas desse inferno, consideradas como elemento pecaminoso, alvo de surras, torturas e intimidações. A fascinação que Schäfer gera as deixa também fora do relato. “Por isso usei Lutgarda, que é a síntese de muitas colonas” diz Larraguibel, que coloca essa mulher no centro do enredo do seu livro.

Por que quase ninguém escapou? Simples: cercas eletrificadas de dois metros, minas nos arredores, torres de vigilância, homens armados e cães adestrados impediam. O sistema foi montado pedra a pedra pelos colonos, como todo o resto. Jornadas diárias de 16 horas sem salário rendem bastante.

Quando já não era possível olhar mais tempo para o outro lado, o cerco judicial contra a Colônia Dignidade começou a se fechar. Além de todas as aberrações contadas pelos poucos que puderam escapar, e ignoradas repetidamente pelo Chile e a Alemanha, o regime de Augusto Pinochet usou o local como centro de torturas e extermínio. Pelo menos 38 opositores morreram ali. Schäfer e os seus também venderam armas à ditadura em quantidades enormes, que nunca puderam ser recuperadas. Até mesmo a rede de túneis que percorriam a fazenda foi copiada pela ditadura para seus centros de repressão. Apesar dos esforços de Hernán Hernández, advogado das vítimas, ninguém foi indenizado por tudo isto. Só o filme Colônia, com o Daniel Brühl e Emma Watson, mobilizou o Governo. “Como não ficaram sabendo antes?” pergunta-se a autora, irônica.

Claudia Larraguibel nesta semana em Madri.
Claudia Larraguibel nesta semana em Madri.DAVID FOLGUEIRAS

Depois de uma fuga espetacular, Schäfer foi preso em 2005 na Argentina, julgado e condenado, e morreu em uma prisão chilena em 2010. Hoje, os rostos visíveis do lugar, agora chamado Villa Baviera, são dois chilenos submetidos por Schäfer quando crianças. Por trás deles, segundo advogados e especialistas, os mesmos obscuros interesses que permitiram que a seita sobrevivesse durante tanto tempo. O esquema de dominação se fecha quando os colonos decidem ficar, mesmo sem que ninguém os submeta. “Como entender que continuem por lá?” pergunta-se Larraguibel. “Não sabem viver no mundo, e o que se oferece para eles também é terrível. A colônia foi um espelho dos horrores do Chile.”

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