Eleições Estados Unidos

Waco: o coração do ódio paranoico contra Hillary Clinton

O lugar de uma matança é a origem de teorias conspiratórias sobre os Clinton

Charles Pace, o pregador que mora na fazenda dos davidianos em Waco, mostra o lugar da tragédia de 1993
Charles Pace, o pregador que mora na fazenda dos davidianos em Waco, mostra o lugar da tragédia de 1993P. X. S.

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Neste lugar, chamado Monte Carmelo, a 15 minutos de carro de Waco, hoje se veem de novo três casas e uma capela. Os únicos habitantes são um homem chamado Charles Pace e sua família. Na tarde da última quarta-feira, Pace fazia consertos em sua casa. Ele se juntou aos davidianos nos anos setenta e dedicou sua vida à exploração espiritual até que foi embora da congregação, em meados dos anos oitenta, por discrepâncias com Koresh. Basicamente, Koresh dizia que era o Messias e Pace não acreditava. Não esteve durante o cerco; chegou aqui depois.

Trump é muito popular aqui”, diz Pace, que ergueu um pequeno altar na entrada onde estão os nomes de todos os mortos no ataque do FBI. Sobre um dos túmulos, há um cartaz que diz: “Hillary para a prisão – 2016”, reproduzindo um lema da campanha de Trump. E logo embaixo ele escreveu: “Os Clinton ordenaram à Força Delta que matasse Koresh e seus seguidores”.

É nesse ponto que a conversa com Pace chama a atenção. “Hillary era quem dava as ordens. Era ela que pressionava o marido para que intercedesse.” Pace acredita que o presidente Bill Clinton, que estava havia um mês no cargo e herdou uma investigação que já durava meses, ordenou que não sobrasse ninguém vivo entre os davidianos. O motivo, segundo essa teoria, era que David Koresh sabia coisas sobre a corrupção do presidente.

“Os Clinton ordenaram à Força Delta que matasse Koresh e seus seguidores”, diz o cartaz colocado sobre um túmulo que recorda os mortos no cerco de Waco.
“Os Clinton ordenaram à Força Delta que matasse Koresh e seus seguidores”, diz o cartaz colocado sobre um túmulo que recorda os mortos no cerco de Waco.P. X. S.

A matança de Waco está na raiz de todas as teorias conspiratórias da direita alternativa (a “alt-right”, mencionada pela própria candidata), que odeia furiosamente os Clinton, especialmente Hillary. O ódio é misturado com a desconfiança do Governo, com a versão mais radical do direito de portar armas e com teorias esotéricas sobre a Nova Ordem Mundial. Essas teorias estão em vários documentários na internet e são objeto de um livro do comentarista Roger Stone. O candidato republicano, no entanto, jamais se pronunciou sobre essas coisas ou sobre os davidianos.

A resistência dos davidianos em abril de 1993 provocou uma onda de apoio de grupos extremistas contra o Governo. Entre eles estava Timothy McVeigh, que planejou a destruição de um edifício federal de Oklahoma em vingança à tragédia de Waco, exatamente dois anos depois. “Oklahoma foi um trabalho interno. Eles fizeram”, diz Pace, que é uma verdadeira enciclopédia das conspirações das últimas duas décadas.

Além disso, Pace afirma que Trump é o David Koresh de nosso tempo. Está lutando contra o império, e sua arma é a verdade. “Trump está fazendo o mesmo que Koresh, mas em escala mundial. Está indo contra a Nova Ordem Mundial e expondo suas mentiras.” Diz que, se Trump perder, “haverá secessão em alguns estados”. E, quando Clinton tentar estabelecer seu império, vai impor a lei marcial. Charles Pace é a versão mais radical do ódio da extrema-direita contra os Clinton e o establishment. Antes da sessão de fotos, ele troca de roupa. Quer sair com uma camisa anti-Clinton.

Apenas nove pessoas sobreviveram em Monte Carmelo. Uma delas é Clive Doyle, que hoje tem 76 anos e continua morando na cidade de Waco. Doyle relata como conseguiu pular sem ver nada, no meio da fumaça e com a pele chamuscando, por um buraco na parede produzido pelos tanques do FBI. Tinha morado na congregação desde 1966 e ainda hoje está convencido de que Koresh era o filho de Deus. Por isso, não se dá bem com Pace e não voltou a morar em Monte Carmelo.

Doyle estava lá durante o cerco, e a ponto de morrer por uma decisão do Governo Clinton. Mas rejeita todas as teorias conspiratórias. Só não deixa de criticar a atitude do FBI, “as mentiras e erros” que provocaram a tragédia. Por que não saíram de lá? “Era nossa casa. Tínhamos visto o Governo entrar matando, tal como nas profecias da Bíblia”, responde. “É preciso entender a mentalidade dos religiosos que se separam do mundo: o mundo é o inimigo. E você não entrega seus filhos ao inimigo.” Os davidianos estavam convencidos de que viviam uma situação similar aos ataques religiosos da Antiguidade.

Clive Doyle, sobrevivente de Waco, durante a entrevista.
Clive Doyle, sobrevivente de Waco, durante a entrevista.P. X. S.

Desde então, Doyle viu como o lugar foi sendo colonizado por esses grupos estranhos. “Todo 19 de abril (dia do ataque), organizo ali uma cerimônia de recordação. Um ano, recebi uma carta de um grupo chamado República do Texas dizendo que queriam falar no memorial. No dia seguinte, um integrante da República do Texas me ligou falando a mesma coisa, e respondi que podiam falar. Veio então um monte de gente armada, dizendo que eu não tinha respondido à sua carta. E o fato é que existem três grupos autoproclamados República do Texas, que se odeiam mutuamente”, afirma.

“Faz três anos que digo que posso estar de acordo com boa parte do que esses patriotas armados dizem. Mas são muito radicais e violentos”, diz o davidiano Doyle. “Se algum deles chegar ao poder, nos expulsará do Texas ou nos transformará em escravos. Estou vendo a mesma coisa nessas eleições.” Ele, que poderia muito bem se considerar vítima direta do presidente Clinton, não tem nada contra a candidata democrata e seu marido. “Os Clinton herdaram essa situação e tomaram decisões ruins”, afirma, em contraste com os direitistas que idolatram o cerco de Waco.

Doyle não vai votar nestas eleições. Não acha que possa votar em alguém que não conhece. Mantém intactas suas convicções davidianas. E afirma que continua esperando a ressurreição de David Koresh.