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Melania Trump, sim, construiu seu muro

Com sua extrema discrição, a primeira-dama pode chegar a parecer inerte. É a estratégia de quem acompanha um presidente em erupção constante

Melania Trump em 24 de abril.
Melania Trump em 24 de abril. Getty

 

 

 

Melania Trump se excede tão raramente e é tão pouco o que fala, que boa parte da cobertura midiática norte-americana sobre a primeira-dama se transformou em um exercício de agudeza visual. Se evita ou não evita a mão de seu marido na pose do dia já virou um gênero jornalístico. Quando em seu aniversário como primeira-dama a mídia publica uma foto dela sozinha segurando no braço de um marine, pode-se ler seu mal-estar pelo escândalo de Donald Trump e da atriz do cinema pornô Stormy Daniels. E se na visita de Estado do presidente da França, Emmanuel Macron, usa um chapéu branco, não é o que veste, mas que está fazendo diplomacia por meio da moda.

Não se sabe como é, o que pensa, como se sente ou se sofre. Bela, solene e inescrutável, pode chegar a parecer inerte. É o reverso extremo de um presidente em erupção constante. Ele está obcecado com esse muro que quer construir na fronteira com o México. Melania levantou seu próprio muro para se proteger do mundo.

Quando esta semana perguntaram sobre ela a Brigitte Macron, tão logo voltou de sua viagem a Washington, retratou uma mulher fechada em uma jaula de ouro. Apesar das aparências, disse, Melania "é muito divertida", também "inteligente e aberta", mas "não pode fazer nada". "Não pode nem abrir uma janela da Casa Branca, não pode sair, está muito mais limitada que eu. Eu saio todos os dias em Paris", contou em uma entrevista ao Le Monde. A esposa do presidente francês justificou assim sua opacidade: "Tudo é interpretado, ou superinterpretado. É alguém com uma forte personalidade, mas se esforça em esconder isso. Ri com facilidade, de tudo, mas mostra menos que eu."

Nada desse retrato fresco e alegre parece se encaixar na mulher que aparece nos atos públicos com Trump. Melania Knauss (seu sobrenome de solteira) nasceu há 48 anos na antiga Iugoslávia. Emigrou jovem para Nova York para seguir carreira como modelo e conheceu o magnata, uma celebridade que ninguém imaginava um dia na Casa Branca. E dificilmente ela imaginaria isso.

"Não acho que Melania queria este trabalho, e o está fazendo da melhor maneira que pode. De forma inteligente está desempenhando o papel de uma primeira-dama extremamente tradicional", opina Kate Andersen Brower, autora de First Women, um livro sobre as esposas dos presidentes. "Está ganhando respeito pelo que não diz e pelo que não faz", afirma, por sua vez, o historiador Doug Wead, autor de vários livros sobre presidentes e suas famílias, entre os quais um muito polêmico sobre George W. Bush porque se baseou em conversas com o mandatário gravadas em segredo pelo escritor.

A recente morte da ex-primeira-dama Barbara Bush serviu nos últimos dias para lembrar seu carisma, seu senso de humor e, também, suas gafes. A matriarca dos Bush deixou o marido em apuros com suas bases quando opinou que os republicanos deveriam suavizar sua oposição ao aborto. Anos depois de deixar a Casa Branca, quando seu filho George era presidente, ela diminuiu a importância do furacão Katrina ao argumentar que alguns dos afetados já viviam em uma situação tão precária que o desastre podia ser um bom negócio para eles, no final das contas, pela ajuda que receberiam.

Tinha um humor astuto. Em seu leito de morte, com o filho presente, disse ao médico: "Sabe por que George saiu assim? Porque fumei e bebi quando estava grávida".

No universo Melania não cabe esse espírito jocoso nem esses deslizes. A única ação que provocou rejeição notável nas redes sociais –e serviu para alguns artigos– neste período teve a ver com sapatos. Apareceu em saltos vertiginosos em agosto, quando ia visitar os afetados pelo devastador furacão Harvey, no Texas, o que muitos viram como um símbolo de desconexão da realidade. Ao descer do avião, no local do destino, já calçava tênis brancos. E acabou aí.

Melania é menos popular entre os norte-americanos do que foram as primeiras-damas recentes durante as presidências de seus maridos. No total, 54% a vê de modo favorável, segundo pesquisa do Gallup, enquanto o apoio que Michelle Obama suscitava alcançava 65%; o de Laura Bush, 71%; e Barbara Bush. 83%. Até Hillary Clinton, sempre no olho do furacão com a imprensa, contava com 57%.

O silêncio como escudo

Esta primeira visita de Estado do presidente da França, sua prova de fogo como anfitriã, transcorreu sem problemas e ela brilhou em silêncio. A posição de primeira-dama é ambígua e sem compensações, com funções que nunca foram definidas oficialmente. Na origem, a esposa do chefe de Estado só tinha como tarefa ser anfitriã nos atos da Casa Branca. Com o tempo se tornou norma que cada uma se tornasse defensora de alguma causa social: Nancy Reagan escolheu a luta contra as drogas, por exemplo, e Michelle Obama, a educação das meninas e a dieta saudável. Algumas exerceram esse papel de forma muito política, como Clinton, que levou adiante uma reforma da saúde que fracassou, ou Rossalyn Carter, que assessorava o marido em todo tipo de assunto político.

Para Andersen Brower, Melania "desempenha um papel de consolo e empatia com as pessoas, como seu marido não pode fazer". A causa pela qual se inclinou é o assédio nas redes sociais, o que significa a mãe de todos os paradoxos, levando-se em conta que o presidente usa sua conta de Twitter para insultar ou apontar o dedo para seus detratores dia sim e outro também. Na prática, nestes 16 meses de Governo não desenvolveu uma grande atividade relacionada com essa agenda, embora nos atos dos quais participa sozinha com crianças seja vista mais descontraída. Lê os discursos com serenidade e mostra doçura.

São os únicos instantes em que parece atravessar o muro. De um lado estão as labaredas de Trump e as notícias sobre seu chapéu branco, do outro está ela com o filho, Barron. Nas manifestações anti-Trump é comum ver cartazes com o lema "Liberdade para Melania".

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