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Trump agora diz que não existirá acordo sobre os jovens imigrantes

Presidente muda de opinião sobre os ‘sonhadores’, pede uma lei de imigração mais dura e ameaça o México com a quebra do acordo comercial que compartilha com o Canadá

Trump em 13 de março, ao lado de protótipos do muro que quer construir na fronteira mexicana.
Trump em 13 de março, ao lado de protótipos do muro que quer construir na fronteira mexicana. AP

Quando eram 8h27 (9h27 de Brasília) Donald Trump publicou uma mensagem desejando Feliz Páscoa, somente duas palavras com sua marca pessoal: letras maiúsculas e exclamações. Menos de uma hora e meia depois, disse algo que pode significar a expulsão de centenas de milhares de pessoas que cresceram nos Estados Unidos: que não existirá acordo sobre o programa que protege da deportação os jovens imigrantes que foram trazidos ilegalmente ao país quando crianças e estão há anos em um limbo legal. O presidente dos EUA afirmou no domingo que já não existirá pacto algum para esse grupo, os chamados dreamers (sonhadores), em relação ao mantido até agora, e pediu aos políticos republicanos uma lei dura contra a imigração, ameaçando também o México de quebrar o tratado comercial que compartilha e renegocia com o Canadá (NAFTA, na sigla em inglês).

“Os agentes de fronteira não podem fazer seu trabalho adequadamente por culpa de leis liberais (democratas) absurdas como a de catch & release [prender e soltar]. Isso fica mais perigoso. Estão chegando ‘caravanas’. Os republicanos devem usar a opção nuclear para aprovar leis duras agora. JÁ NÃO [existirá] TRATADO SOBRE O DACA”, escreveu o presidente em sua conta do Twitter. DACA é a sigla do programa aprovado pela Administração de Barack Obama no qual se dá residência temporária a esses imigrantes que foram criados e se formaram como qualquer norte-americano, mas estão em situação ilegal. Existem 700.000 pessoas registradas nesse plano, ainda que o conjunto de ilegais em tal situação é muito maior.

A posição de Trump sobre eles variou ao longo do tempo. Logo após chegar à Casa Branca, afirmou que sua intenção era protegê-los, mas em setembro do ano passado decidiu não renovar o DACA e tratá-los como qualquer outro imigrante ilegal, podendo ser deportados durante seu Governo, cometendo crimes ou não. O Congresso tinha alguns meses para encontrar um plano alternativo. Depois, com as negociações orçamentárias, encontrou nos dreamers a moeda de troca perfeita para conseguir com que o Congresso aprovasse fundos ao polêmico muro que ele pretende construir na fronteira com o México. Concretamente, pediu 25 bilhões de dólares (82 bilhões de reais) a esse projeto em troca de não os expulsar, abrindo as portas à cidadania norte-americana a 1,8 milhão de jovens imigrantes no prazo de 10 a 12 anos se cumprissem uma série de requisitos (emprego e formação) e tivessem “bom comportamento”.

A decisão da Califórnia em janeiro anulou a chantagem, pelo menos por enquanto, já que decidiu bloquear a eliminação do programa de forma cautelar enquanto se decidia o fundo da questão. Os dreamers, por enquanto, ficam nos Estados Unidos, mas os políticos não chegaram a nenhuma resolução sobre eles nos dois últimos acordos orçamentários e não conseguiram dinheiro ao muro com o México que Trump tanto deseja, o que incomodou muito o presidente.

Trump pede leis de imigração mais duras e as pede para agora. Quando exige aos republicanos que recorram à “opção nuclear”, se refere a um mecanismo pelo qual o líder da maioria no Senado (que é o republicano Mitch McConnell) pode mudar as regras da Câmara alta e requerer uma aprovação somente por maioria simples, ou seja, 51 dos 10 votos, em vez dos 60.

Contra o México

Neste domingo, Trump também acusou o México de não estar fazendo “NADA” para evitar que muita gente cruze sua fronteira e entre nos Estados Unidos ilegalmente. “Eles riem de nossas ridículas leis de imigração. Têm que parar os grandes fluxos de drogas e pessoas ou eu acabarei com a galinha dos ovos de ouro, a NAFTA. Precisamos do muro!”, frisou.

A ameaça ao Tratado de Livre Comércio da América do Norte (TLC ou NAFTA) ocorre justamente quando as complicadíssimas conversas para reformulá-lo entraram no que se acredita que sejam as últimas rodadas de negociação (já ocorreram sete) e no momento em que Washington expressou um certo otimismo sobre seu resultado. O negociador chefe da Administração Trump, Robert Lighthizer, disse há duas semanas no Congresso norte-americano que estavam ocorrendo “bons avanços”.

As duras mensagens de domingo no Twitter são difíceis de se interpretar no Universo Trump. Podem ser um simples desabafo matinal do presidente, que no dia anterior se dedicou a chamar de lobby um jornal que o critica porque pertence a Jeff Bezos, dono da Amazon, empresa que não suporta. E podem realmente significar uma mudança de postura do mandatário em relação a dois assuntos com inúmeros afetados em vários países, o futuro dos dreamers e do grande tratado comercial da América do Norte. A decisão cautelar de um juiz por enquanto protege os primeiros.

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