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Como Roxane Gay engordou até os 262 kg para enterrar um estupro coletivo

A popular escritora expõe suas entranhas em ‘Fome’, a brutal autobiografia onde conta como o trauma de ter sido violentada aos 12 anos mudou sua visão (e espaço) no mundo

Roxane Gay
Roxane Gay participa de um evento da ‘Vulture’, em Nova York, em novembro de 2017

“O passado está descrito no meu corpo. Carrego-o todos os dias. Às vezes sinto como se o passado pudesse me matar. É uma carga muito pesada. Na minha história de violência houve um garoto. Eu o amava. Chamava-se Christopher. Na verdade não se chamava assim, mas não é preciso que eu diga. Christopher e vários dos seus amigos me estupraram na floresta, numa cabana de caça abandonada, onde ninguém, exceto aqueles meninos, podia ouvir meus gritos.”

Roxane Gay é uma reputada ensaísta, escritora e ativista norte-americana. Professora universitária em Purdue, suas colunas são publicadas regularmente no The New York Times e no The Guardian. Editora de ensaios da The Rumpus, a compilação de seus textos em Má Feminista (traduzidos no Brasil pela Globo Livros) alcançou tanto sucesso e aplauso midiático que os sites satíricos brincavam com manchetes do tipo “Má feminista ainda não leu Má Feminista”. Analista da questão racial (Gay é de origem haitiana), de gênero e de identidade, a escritora expõe suas entranhas em Fome, uma Autobiografia do (Meu) Corpo (Globo Livros). Um volume de memórias que retorce, incomoda e destrói o leitor, incapaz de afastar o olhar diante da confissão de como um estupro coletivo, quando ela mal havia completado 12 anos, a mergulhou numa espiral de vergonha, culpa e ódio contra si mesma, que derivou na superobesidade mórbida que ela sofre (diagnóstico clínico baseado no IMC, o índice de massa corporal).

“Comecei a comer para mudar o meu corpo, é algo que fiz de maneira intencional”, revela neste relato sobre quase três décadas de obstinada luta contra seu físico. Uma “prisão” que definiu sua relação com o mundo: seu auge foram 262 quilos, distribuídos por seu pouco mais de 1,90 metro, antes de se recusar a se submeter a um bypass gástrico. “Na minha vida há um antes e um depois. Antes de ganhar peso. Depois de ganhar peso. Antes de me estuprarem. Depois de me estuprarem”, sentencia.

“Destruíram-me e, para entorpecer a dor daquela destruição, comi, comi e comi”, escreve. Até poucos anos atrás, Gay nunca havia denunciado ou compartilhado com seus ente queridos a agressão sexual coletiva que sofreu. Seu silêncio se fundiu com a autodestruição do seu corpo para criar um escudo contra o mundo e o gênero masculino (“Sabia que não seria capaz de suportar outro estupro como aquele, então comi porque achei que, se meu corpo se tornasse repulsivo, poderia manter os homens afastados, seria mais desprezível, e já conhecia muito bem o desprezo deles”). Ainda continua em guerra contra seu físico – hoje está abaixo dos 200 quilos –, depois de tentar múltiplas dietas que ela também acaba por sabotar assim que observa resultados positivos. Ou, conforme ela resume, está há todo este tempo “faminta de deixar de sentir dor”.

Depois da agressão aos 12 anos, decidiu “comer, comer e comer” para se anular diante do mundo (“aqueles garotos me trataram como se eu fosse nada, de modo que me transformei em nada”). Fez isso porque desde pequena entendeu que a obesidade repele e causa asco na sociedade patriarcal. Que as meninas são ensinadas “a não ocupar espaço” e a “serem magras e pequenas” porque “se somos vistas, temos de agradar aos homens e ser aceitáveis para a sociedade”. Gay passou por um internato em Exeter no qual, sem supervisão paterna, pôde lançar-se a esse precipício de culpa e autodesprezo e engordar, quase de imediato, 13 quilos. Cresceu encerrada em sua concha enquanto se tornava mais astuta e escrevia melhor. Romântica empedernida por seu vício em histórias de aventuras adolescentes (desde Judy Blume a Sweet Valley High), entrou em Yale, fugiu na metade do curso e pulava de Estado em Estado em busca de carinho em amantes desconhecidos que conhecia pela Internet (homens e mulheres). Quando estava na faixa dos 20 anos engordou 12 quilos e fez praticamente de tudo: trabalhou em uma empresa de sexo por telefone, foi squatter, viveu uma história tranquila de amor com um homem e regressou a sua casa para direcionar a carreira profissional. Ainda se sente incômoda com as demonstrações de afeto. Teve bulimia durante dois anos.

“Estar magro é um valor social”, adverte a ensaísta. Seu texto não é só a história de um trauma. Também é uma afiada análise sociocultural sobre a demonização e a crueldade com a qual se julga, e se castiga, a obesidade. Consciente e com clareza sobre as indisposições e a péssima saúde que seu sobrepeso lhe provoca, Gay se posiciona contra o espetáculo dos programas populares de emagrecimento na televisão dos EUA (“sua mensagem sempre é a mesma: a autoestima e a felicidade estão inextrincavelmente vinculadas ao fato de estar magro”). Contra o marketing das dietas milagre (“equiparar magreza e autoestima é uma poderosa mentira. Está claro que se trata de uma mentira fodidamente convincente porque a indústria da perda do peso prospera”). Contra Oprah por ter passeado em seu programa em um carrinho carregado de gordura animal simbolizando os 32 quilos que perdeu em 1988, para depois se apossar de 10% do Weight Watchers. E contra o mundo “que força tantas meninas e mulheres a fazerem tudo o que for possível para desaparecer. Ninguém quer ouvir histórias de meninas gordas que ocupam espaço demais e, no entanto, continuam sem encontrar um lugar onde se encaixar. As pessoas preferem histórias de meninas magras demais que se matam de fome e fazem exercícios demais e têm uma aparência cinzenta e abatida e que a um simples olhar desaparecem”.

Jill Lepore, jornalista da ‘The New Yorker', Roxane Gay e o professor de História Geraldo Cadava, da Northwestern University, durante uma mesa-redonda no The New Yorker Festival, em 2015
Jill Lepore, jornalista da ‘The New Yorker', Roxane Gay e o professor de História Geraldo Cadava, da Northwestern University, durante uma mesa-redonda no The New Yorker Festival, em 2015

Fome não é uma confissão de cura com um clímax de resolução. As feridas de Gay continuam abertas. Sofre de timidez crônica e sente pânico cênico. Está hiperconsciente de seu tamanho e se rende ao autodesprezo com uma facilidade que gela o sangue, embora alivie o leitor ao afirmar que aos 40 anos “foi capaz de admitir que gosto de mim, apesar do aborrecimento de suspeitar que não deveria gostar de mim”. Dá um Google continuamente no nome do estuprador que liderou a agressão em grupo contra ela. Sabe, pelas redes sociais, que aparência tem, onde trabalha e que carro dirige. “Eu me pergunto se sabe que penso nele todos os dias. Digo que não, mas faço isso. Ele sempre está comigo. Sempre. Não tenho paz.”

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