Ditadura argentina

Morre Luciano Benjamín Menéndez, ideólogo do terrorismo de Estado na Argentina

Militar de 90 anos acumulava 13 condenações à prisão perpétua por crimes contra a humanidade cometidos durante a ditadura

Em 1984, Menéndez atacou com uma faca manifestantes que o insultavam.
Em 1984, Menéndez atacou com uma faca manifestantes que o insultavam.

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É difícil imaginar um homem com mais crimes sobre seus ombros: 3.000 casos de torturas, sequestros e assassinatos. E o responsável por essa ficha criminal provavelmente nunca disparou um só tiro durante seus anos de maior “atividade”. O ex-general Luciano Benjamín Menéndez, que morreu nesta quarta-feira aos 90 anos no hospital militar de Córdoba, região central da Argentina, foi um repressor de gabinete: longe do gatilho, concebeu, ordenou, presenciou e controlou centenas de operações ilegais. Foi, sem dúvida, o principal ideólogo do terrorismo de Estado que assolou a Argentina entre 1976 e 1983. A democracia argentina nunca esqueceu Menéndez: os juízes lhe impuseram 13 penas de prisão perpétua por genocídio, um recorde para o país latino-americano que mais militares condenou por crimes contra a humanidade.

Menéndez foi um homem com um enorme poder, maior até mesmo que o dos ditadores Jorge Rafael Videla e Roberto Viola, seus colegas na escola militar. Entre 1975 e 1979, como chefe do Terceiro Corpo do Exército, teve sob seu comando o plano de extermínio de opositores de esquerda em 10 províncias do centro e norte do país. Da sua cabeça saiu o modelo de 238 centros clandestinos de detenção, sendo o La Perla e o La Ribera os exemplos mais ativos. Dono e senhor do destino de seus presos, foi o mais duro entre os repressores duros. Em fevereiro de 1982, dois meses antes de seu primo Mario Benjamín Menéndez ser nomeado governador militar das ilhas Malvinas, disse em uma entrevista à revista Gente que os desaparecidos não deviam ser levados em conta. “Os desaparecidos desapareceram e ninguém sabe onde estão, o melhor então é esquecer”, recomendou Menéndez.

Quando terminou de “aniquilar a subversão marxista”, como se gabava, Menéndez considerou oportuno passar à guerra convencional. Em 1978, foi o principal promotor de um quase conflito armado contra o Chile pelo controle do canal de Beagle. Instalado durante quatro meses na fronteira, disse às suas tropas uma frase que ficou famosa: “O brinde de fim de ano nós faremos no Palácio de La Moneda [sede do Governo chileno], e depois iremos mijar o champanhe no Pacífico”. Seus desejos foram truncados porque a mediação do papa João Paulo II evitou a guerra no último instante. “Videla é um cagão”, disse na época o general sobre o então líder do regime.

Convencido de que era o portador de um destino manifesto, o de salvar “a Pátria” do comunismo internacional, Menéndez nunca se arrependeu de seus crimes. Os argentinos puderam ouvi-lo durante os intermináveis julgamentos que enfrentou, sempre com os olhos claros cravados em algum ponto perdido, entre bocejos, e com as mãos entrelaçadas sobre as pernas. Em 2010, durante um depoimento judicial, deu sua versão para o terrorismo de Estado: “O que realmente aconteceu foi que há 60 anos a guerra eclodiu de maneira repentina e brutalmente no nosso país, sem mais nem menos, simplesmente porque estávamos na rota de conquista do comunismo internacional. Os argentinos sofremos o ataque dos subversivos marxistas”.

Menéndez foi condenado durante o julgamento da Junta Militar, em 1984, mas voltou às ruas em 1990, indultado pelo então presidente Carlos Menem (1989-1999). Sua vida em sociedade não foi tranquila. Em 21 de agosto de 1984, antes de ir para a prisão, protagonizou uma foto que correu o mundo: na saída de um programa de televisão, sacou uma faca para atacar militantes da Juventude Comunista que o chamavam aos gritos de “assassino” e “covarde”. Anos depois, em 1997, Alberto Salguero, sobrinho do líder montonero Fernando Vaca Narvaja, deu-lhe uma surra numa rua da cidade de Córdoba. Sua casa no bairro Bajo Palermo, onde passou os últimos anos da sua detenção domiciliar, foi também o primeiro alvo dos “escrachos” com que o grupo HIJOS marcava os repressores libertados por Menem.

A revogação dos indultos e das leis de perdão, em 2005, colocaram outra vez Menéndez num calabouço. As ações judiciais por genocídio foram reabertas, e o militar foi imputado em 73 processos e condenado 13 vezes. Em 2016, disse aos juízes que na Argentina "não houve nenhuma repressão ilegal”. E convencido disso foi para a tumba.