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Merkel e Schulz selam coalizão ampla para governar a Alemanha

Os dois grandes partidos do país dividem ministérios enquanto concluem os últimos detalhes da negociação, quatro meses após as inconclusivas eleições

Merkel fala sobre a negociação com o SPD, na terça-feira, em Berlim.
Merkel fala sobre a negociação com o SPD, na terça-feira, em Berlim. AP

Finalmente a fumaça branca. Após uma noite em claro – e depois de 136 dias sem Governo efetivo –, os dois grandes blocos políticos da Alemanha, a centro-direita da chanceler Angela Merkel (CDU/CSU) e a social-democracia de Martin Schulz (SPD), chegaram a um acordo preliminar para instituir uma nova grande coalizão para governar a maior economia do continente, o motor de uma União Europeia ávida por algum impulso. Merkel, a eterna primeira-ministra, cimentaria com este pacto o seu quarto mandato, após 12 anos no cargo.

Uma mensagem de WhatsApp da direção do SPD confirmava a notícia que o site da revista Der Spiegel havia antecipado horas antes. “Cansados, mas contentes. O acordo finalmente está de pé”, dizia a postagem, ressalvando que ainda restavam algumas arestas a serem aparadas. Pouco antes das 10h (hora local, 7h em Brasília) a imprensa do país começava a oferecer detalhes sobre a distribuição dos ministérios. Ainda há uma última rodada de negociações por concluir, mas fontes envolvidas no processo disseram ao jornal Bild que “em princípio está feito”.

O social-democrata SPD, que obteve 20,5% dos votos nas eleições de setembro, deve assumir as principais pastas do novo Executivo, segundo a imprensa alemã: o todo-poderoso ministério das Finanças, o de Relações Exteriores e o do Trabalho e Assuntos Sociais. À CDU, de Merkel, caberiam a Defesa e a Economia, enquanto sua filial bávara, a conservadora CSU, ficaria com o Interior. Essa distribuição implicaria concessões descomunais por parte de Merkel, líder do partido mais votado nas eleições de setembro do ano passado.

Para que esta terceira Grande Coalizão se torne efetiva, o pacto ainda terá de ser submetido nas próximas semanas à votação dos 463.000 filiados do SPD, boa parte dos quais são contrários à aliança entre Schulz e Merkel. Nesta terça-feira foi anunciada a cifra de novos filiados, 24.000 desde o começo deste ano, respondendo a um apelo da juventude social-democrata para que os seus simpatizantes contrários à grande coalizão se filiem e a derrubem na consulta partidária, que tem caráter vinculante.

Está sendo um processo “doloroso”, admitia Merkel na terça-feira, em que os partidos convocados a se entenderem estão conscientes de que as concessões eventualmente aceitas podem acarretar um custo político elevado junto a um eleitorado que, também na Alemanha, procura definição ideológica. O resultado de 12 dias de negociação (e de algumas madrugadas também) é um documento de 167 páginas e 14 capítulos, que esmiúça o programa de Governo para os próximos quatro anos, conforme noticiava a imprensa alemã nesta terça. Nesse contrato de Governo, a grande prioridade consiste em fortalecer a União Europeia, como exigia Schulz, ex-presidente do Parlamento europeu, segundo as mesmas fontes.

A Europa espera impacientemente a posse de um novo Executivo na Alemanha para iniciar as várias reformas com que Paris e Berlim pretendem refundar a UE. Merkel se diz convicta de que este é o momento, agora que a França tem um presidente que se destaca por seu brio pro-europeísta, e antes das primeiras eleições europeias pós-Brexit, no ano que vem.

O pacto governamental prevê ainda, segundo os últimos rascunhos, um investimento bilionário em políticas sociais e educacionais, com especial ênfase na ajuda às famílias. Ou seja, os partidos se comprometem a gastar boa parte do enorme superávit alemão, embora também prometam manter as contas equilibradas e não incorrer em dívidas. Os democratas-cristãos e os sociais-democratas pactuaram também um limite para a entrada de refugiados e seus familiares, depois que 1,5 milhão de solicitantes de asilo se instalaram na Alemanha nos últimos dois anos. Discordâncias entre os partidos, sobretudo em questões trabalhistas e de saúde pública – duas exigências dos sociais-democratas –, foram as mais difíceis de limar, e chegaram a colocar o acordo em perigo na reta final das negociações. Na terça-feira de manhã, Merkel alertou que as partes seriam obrigadas a adotar “compromissos dolorosos”.

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