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Após quatro meses sem formar governo, Angela Merkel consegue o apoio do Partido Social-Democrata

Decisão, fundamental para desbloquear a crise política alemã, terá que ser endossada pelos militantes

Martin Schulz, líder do SPD, no congresso federal do partido, neste domingo
Martin Schulz, líder do SPD, no congresso federal do partido, neste domingo Getty Images

O Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD) votou dividido e com o nariz tampado a favor de negociar uma nova grande coalizão com a chanceler Angela Merkel. Os partidários da aliança venceram com 56% dos votos (362 a favor de um total de 642 votos). A decisão deste domingo é importantíssima. A maior economia europeia está sem Governo há quase quatro meses e o apoio da maioria dos 600 delegados do SPD reunidos em Bonn é um passo crucial para desbloquear a crise política alemã. Os militantes terão a última palavra quando votarem o pacto de coalizão nas próximas semanas.

A chanceler Angela Merkel ganhou as eleições em setembro, mas até agora não havia encontrado um parceiro minoritário para formar Governo. Depois das eleições, o SPD rejeitou voltar a se aliar – governaram juntos durante oito dos últimos 12 anos – a uma chanceler que considera que eclipsa suas conquistas. Seu plano era se recuperar do histórico baque eleitoral de setembro nas filas da oposição. Mas a falta de alternativas para além da realização de novas eleições e diante da crise política em que o país está mergulhado, o SPD disse “sim” novamente à chanceler.

A partir de agora começam negociações que durarão algumas semanas e, em seguida, terá início outro processo complicado nas fileiras do SPD. Cerca de 450.000 militantes serão chamados a votar o acordo de coalizão que for pactuado pela equipe de negociação social-democrata com o bloco conservador (CDU/CSU). Se tudo correr bem, a Alemanha poderia ter um novo Executivo em torno da Semana Santa.

Em um discurso de uma hora, o líder social-democrata Martin Schulz pediu ao partido que apoiasse seu grande projeto de coalizão, apesar de ele mesmo renegar essa aliança até cinco semanas atrás. O papel central da Europa no pré-acordo da coalizão marca “um novo começo” no continente, segundo Schulz. “Podemos deter a onda de extrema direita na Europa”, clamou.

Schulz defendeu que o acordo alcançado há uma semana e que é uma espécie de esqueleto do que seria o próximo programa de Governo alemão, é “uma oportunidade para a Alemanha e para a Europa” para alcançar “uma maior justiça social em nosso país e em todo o continente”. “Seria um erro desperdiçar essa oportunidade”, disse o ex-presidente do Parlamento Europeu, que joga seu futuro político nessas negociações.

Schulz reduziu as opções dos delegados a duas. “Trata-se de decidir entre negociações de coalizão ou novas eleições. Não acredito que novas eleições sejam o caminho certo para nós”, disse durante um discurso de uma hora que não despertou excessivas paixões na sala. “Dizem que uma nova grande coalizão fortalecerá a direita, mas quem garante que novas eleições não tornariam a direita mais forte?”, perguntou. Andrea Nahles, a chefe do grupo parlamentar, pronunciou um discurso carregado de emoção também a favor da tentativa de formar Governo com Merkel.

O setor crítico e contrário à grande coalizão representado pela juventude social-democrata (Jusos) defende, pelo contrário, que é possível um quarto mandato de Merkel em minoria, com apoios pontuais no Parlamento. A chanceler, no entanto, descarta essa opção porque a considera uma fonte de instabilidade no momento em que Berlim precisa de força e unidade para impulsionar as reformas europeias que se comprometeu a fazer ao lado de Paris. O líder dos Jusos, Kevin Kühnert, inflamou os ânimos e recebeu uma ovação de uma sala lotada, na qual as intervenções se prolongaram durante cinco horas. Um “não” não é “o fim do SPD”, mas “o início de uma nova história”.

No meio, está a maioria dos militantes. “Sou cética sobre o pacto de coalizão, mas...”. “É um pacto insuficiente, mas...”. Muitos explicaram nos últimos dias, e também no congresso, que disseram sim mais como resultado da resignação e da necessidade do que por convicção.

Entre os membros do partido, a excitação convivia no domingo com a confusão e a frustração, em relação a uma decisão que os obrigou a optar entre uma alternativa que consideram ruim e outra pior. “Estamos escrevendo a história”, explicou a este jornal um delegado de Hannover, Martin Gerdau, nos corredores do congresso extraordinário de Bonn. Gerdau acredita que “ninguém está contente com o resultado do pré-acordo alcançado com Merkel”.

“O partido não havia vivido um momento tão crítico”, diz Mathias Petersen, outro delegado convocado para votar. Médico e representante de Hamburgo, Petersen explica por que acredita que é importante votar sim à grande coalizão. Ele apresenta, como fizeram muitos altos cargos do SPD nos últimos dias, e Schulz repetiu hoje em seu discurso, o argumento democrático. “Se os delegados agora disserem agora que ‘não’, os 450.000 membros não poderão votar mais adiante. Eles devem ter a última palavra”. Mas Petersen também reconhece que os militantes só votarão depois que as negociações tiverem sido concluídas e o programa de Governo estiver pronto. Então, a pressão para formar Governo será tão grande que muitos vão pensar mais de duas vezes. “O partido está dividido”, admite.

Fora da sala em que os políticos pronunciaram seus discursos, um militante contrário à grande coalizão explica por que considera essa decisão desastrosa para o partido. “No ano passado, saímos às ruas e perguntamos às pessoas por que tinham deixado de votar no SPD e elas nos disseram: não acreditamos mais em vocês, vocês abandonaram as políticas sociais. Dissemos a eles que Martin Schulz era diferente, que podiam acreditar nele. Schulz jurou que nunca faria uma grande coalizão com Merkel e agora temos isso. O que você acha que nossos eleitores pensam?”, explica sem esconder a frustração Olaf Gerhard, membro do SPD da região mineira da Renânia do Norte Westfália, tradicional reduto social-democrata.

Usando um chapéu de gnomo, para protestar contra as palavras de um político da CDU que disse que a oposição à grande coalizão era uma “revolta de anões”, Gerhard sentencia: “A política de esquerda adormeceu neste país”.

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