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ANÁLISE

Os percalços no caminho da reforma trabalhista de Macri na Argentina

Os argentinos serão recebidos na volta das férias com novo 'tarifaço': alta nos transportes e na luz. Sindicatos prometem grande marcha para 22 de fevereiro

O presidente argentino Maurício Macri.
O presidente argentino Maurício Macri. EFE

A Argentina é um campo de batalha permanente, regulado pelas férias. Há décadas, todas as discussões políticas acabam na rua. A tensão cresce em dezembro, logo antes das férias do verão, então fica suspensa, para ser retomada só em março. Mauricio Macri acreditava ter desarmado essa dinâmica com sua vitória eleitoral, em outubro de 2017, quando ganhou de Cristina Kirchner em Buenos Aires e golpeou o peronismo de uma forma que parecia definitiva. Mas o pano de fundo de uma economia desmantelada, um país cheio de pequenas ilhas de poder que Macri não consegue desativar e um imprevisto escândalo interno agem contra esse sonho do presidente de transformar a Argentina em um país normal, pelos menos semelhante aos seus vizinhos latino-americanos, com uma inflação de um dígito, preços regularizados, crédito disseminado e um mercado financeiro razoável.

As férias acabam outra vez em fevereiro, e a realidade esquenta de novo. O mês começa com novos aumentos nos preços dos transportes (até 37%), luz (24%) e saúde privada (mais 4%, depois de várias altas anteriores), o que volta a criar uma pressão sobre a inflação que já é a mais alta da América Latina, excluindo-se a loucura venezuelana. A desvalorização de 13% da moeda nacional em dois meses, levando o dólar a se aproximar dos 20 pesos, também contribui para a elevação dos preços. E os sindicatos, empurrados pelo incansável líder caminhoneiro Hugo Moyano, já fazem o aquecimento para uma grande marcha em 22 de fevereiro.

O entorno de Macri está muito tranquilo. Afirma que tudo irá se reordenar pouco a pouco, e que o presidente caminha com segurança para a reeleição em 2019, o que, aí sim, lhe permitiria sonhar com uma mudança radical do país em oito anos. Ele mesmo insistiu nesta semana em que esse ceticismo nas suas próprias fileiras, entre muitos dos que votaram nele, e que provocou uma queda de sua imagem nas pesquisas – onde, apesar de tudo, ainda se mantêm como um dos presidentes latino-americanos mais bem avaliados – o persegue durante toda a sua vida. E busca exorcizá-lo: “Temos que encarar todas as transformações que precisarmos para crescer, sem medo daqueles que querem continuar defendendo seus privilégios. Estamos indo bem”.

Macri, segundo seu próprio relato, foi alvo da desconfiança do seu próprio pai quando este o colocou à frente de alguma de suas empresas. Rompeu com ele e conseguiu ser presidente do Boca Juniors, mas também os sócios desconfiavam. Começou mal, mas depois levou a equipe ao melhor momento da sua história. Depois conseguiu ser prefeito de Buenos Aires. Também começou muito mal, mas após oito anos saiu com uma avaliação altamente positiva. E agora está convencido de que fará o mesmo como presidente da Argentina.

Entretanto, os próprios analistas próximos ao macrismo começam a se inquietar perante os sinais de que, dois anos depois, a inflação não dá trégua, e a economia, embora melhore – os últimos dados de crescimento industrial são muito positivos –, não está nem perto das expectativas que milhões de argentinos dedicaram à mudança de ciclo com a ascensão do macrismo.

A ideia que está se instalando na classe média de Buenos Aires, o centro da política argentina e o lugar mais afetado pelas altas tarifárias – já que antes era o mais subvencionado pelo kirchnerismo precisamente por sua importância eleitoral –, é que a revolução prometida por Macri terá que esperar.

A batalha campal resultante da última reforma previdenciária aprovada em dezembro, com 86 policiais feridos a poucos metros do Congresso, serve para recordar a todos, sobretudo ao Governo, que na Argentina ninguém nunca manda de forma absoluta. E ainda menos um presidente com minoria parlamentar.

Uma semana depois dessa eclosão nas ruas, a equipe econômica de Macri fez uma guinada na sua política e admitiu que reduzir a inflação será muito mais difícil do que se calculava. Um escândalo interno imprevisto, que estourou com a revelação de que o ministro do Trabalho, Jorge Triaca, havia pagado a sua empregada doméstica de forma irregular e colocara num sindicato sob intervenção para completar o seu salário, consolidou a ideia de que Macri não poderá ir muito rápido com suas reformas. A trabalhista era justamente uma das mais polêmicas, e Triaca, a quem o presidente decidiu manter no cargo, é o principal negociador com os sindicatos.

Macri continua tendo a enorme vantagem de contar com uma oposição dividida, dominada por um peronismo que não consegue encontrar sucessor para Cristina Fernández de Kirchner. O próprio sindicalismo também está dividido. Mesmo o todo-poderoso Moyano, a quem o presidente decidiu enfrentar com dureza, corre um risco real de acabar na prisão, algo impensável há alguns anos, quando confrontava os Governos peronistas. Isso, mais a rejeição que a lembrança dos últimos anos do kirchnerismo causa em boa parte da classe média, serve como um colchão enorme para o macrismo. Ninguém duvida de que o presidente tem força para concluir o mandato e inclusive para renová-lo. Mas o que não está nada claro é que tenha força também para mudar profundamente um dos países mais complexos da América.

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