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COLUNA

O que devemos aos nazistas

Já virou lugar-comum afirmar que é possível ser genial e monstruoso ao mesmo tempo. O importante é que o gênio não maquie o monstro. Nem vice-versa

O ator Max von Sydow (segundo à esquerda), no papel de Knut Hamsun no filme ‘Hamsun’, de Jan Troell (1996)
O ator Max von Sydow (segundo à esquerda), no papel de Knut Hamsun no filme ‘Hamsun’, de Jan Troell (1996)

O horror caduca antes da beleza. Em agosto de 2009, a princesa Mette-Marit viajou a Presteid, um povoado a 1.500 quilômetros de Oslo. Completavam-se 150 anos do nascimento de Knut Hamsun, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1920, e a futura rainha da Noruega havia sido encarregada de inaugurar um espetacular Centro Hamsun projetado por Steven Holl. Todas as honrarias pareceriam insuficientes para recordar o escritor norueguês mais universal depois de Ibsen, não fosse o fato de o homenageado ter deixado duas pedras em nossos sapatos. Uma delas é o elogio fúnebre que em 1945 dedicou a um “guerreiro da humanidade” que acabava de se suicidar: Adolf Hitler. Com a derrota alemã selada, ninguém podia acusá-lo de oportunismo, como quando deu a medalha do Nobel de presente a Goebbels ou comemorou a ocupação de seu próprio país – foram cinco anos sob o jugo nazista.

Mette-Marit e as autoridades que a acompanhavam conheciam de sobra o passado de um romancista tão amaldiçoado quanto popular. Essa popularidade é a segunda pedra. Em 1890, Hansum publicou Fome, um dos romances mais influentes das letras contemporâneas. De Kafka a Thomas Mann passando por Bukowski e Paul Auster, a lista de seus admiradores ilustra sua influência. No âmbito hispânico seria o caso de acrescentar Juan Rulfo, que chegou a argumentar que toda boa literatura vinha da Escandinávia. Se pensarmos no que devemos a Rulfo, cairemos no que devemos a Hansum.

Nem é preciso dizer que o museu de Presteid recorda o seu ilustre patrono sem que as luzes de sua obra ocultem as sombras de sua vida. Sua mera inauguração já significou a reconciliação com a metade boa de um artista incômodo, a quem, terminada a guerra, foi aplicada a cômoda teoria do mal irracional: foi enviado a um hospício.

O modelo norueguês, entretanto, não parece fácil de importar. Vai demorar até que vejamos a primeira-dama da França, professora de literatura, inaugurando um centro de estudos com o nome de Louis-Ferdinand Céline. Bastou o anúncio de que a Gallimard (grupo editorial francês) publicará neste ano seus panfletos antissemitas para que se reative a polêmica em torno do melhor escritor francês de seu tempo (ao lado de Marcel Proust). “Se o fascismo e o comunismo só tivessem seduzido os imbecis, teria sido mais fácil livrar-se deles”, afirmou Jean-François Revel numa frase que ficou famosa. Se Céline só tivesse escrito o vulgar e vomitivo Bagatelles pour un Massacre, poderíamos vomitar e ficar tranquilos. O problema é que ele escreveu também uma obra-prima, Viagem ao Fim da Noite, insuperável retrato dos tempos modernos. Já virou lugar-comum afirmar que é possível ser genial e monstruoso ao mesmo tempo. O importante é que o gênio não maquie o monstro. Nem vice-versa. Por isso a Gallimard escolheu a melhor maneira de tratar o execrável: uma edição crítica. Transformar em história o que até agora era apenas alimento para a propaganda ou a indignação não é uma forma de celebrar, e sim, pelo contrário, de evitar que se esqueça. E de evitar que, passado o tempo, o antissemitismo de Céline pareça tão remoto como o de Quevedo, ou seja, algo com que não temos nada a ver.

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