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Redes de ingerência russa alimentam extrema-direita na Europa

Portais patrocinados por um magnata difundem mensagens reacionárias na tentativa de desestabilizar

Captura de tela do portal katehon.com.
Captura de tela do portal katehon.com.

Um magnata russo próximo do Kremlin, Konstantin Malofeev patrocina portais em espanhol em que são divulgadas teses de extrema-direita de articulistas russos e espanhóis. É o caso dos sites katehon.com e geopolitica.ru. O Katehon se define em seu site, no qual não figura uma sede física, como um “centro de análise” e, mais adiante, como “uma comunidade independente de especialistas de diferentes países dedicada à pesquisa em vários campos, incluindo análise política, geoestratégica e geopolítica de eventos internacionais”. A página publica conteúdos em quatro idiomas: inglês, espanhol, francês e árabe.

O Katehon reúne ou divulga textos de articulistas de ideologia de extrema-direita. Nos últimos meses, foram publicados de forma recorrente textos de vários jovens que são entrevistados como analistas da rede de televisão russa RT ou da agência Sputnik. Nos artigos também são divulgados encontros de clara orientação ultradireitista. O Katehon teve mais de 570 mil visitas em outubro (dado geral para todo o portal). Quase uma em cada três visitas veio da Rússia, dos Estados Unidos ou da Espanha. O portal geopolitica.ru superou as 415 mil visitas no mês de outubro, em que quadruplicou os resultados de julho. Na maior parte, os usuários acessam o conteúdo através dos motores de pesquisa, mas também há muitos links a parir de veículos de comunicação.

Inseridos entre teses reacionárias, vários artigos publicados pelo Katehon incluem menções à Rússia, sempre em tom favorável. Em um dos textos, assinado pelo general de brigada da reserva Salvador Fontenla, se critica a falta de capacidade de combate do exército dentro da Espanha e a mobilização internacional na Estônia, Letônia e Lituânia sob o mandato da OTAN: “Que se saiba, até o momento não existe nenhuma ameaça russa contra essas nações do Báltico”. Os textos veiculam outras mensagens pró-russas criticando as sanções comerciais europeias contra esse país. “[A Rússia] tornou-se, como no ano de 1812, um dos principais baluartes da Europa”, glosa o texto. Prolongar as sanções contra a Federação Russa, na opinião do autor, “só pode prejudicar o resto das nações europeias, e especialmente a Espanha”.

Outro texto, sem assinatura, traz o trote telefônico que dois embusteiros russos passaram na ministra da Defesa, María Dolores de Cospedal, no qual se fizeram passar por seu homólogo letão. Se diz que Cospedal chora “com fingimento pelas fábulas de um inexistente assédio da Rússia contra a estabilidade da Espanha”. O artigo aponta a possibilidade de que as autoridades espanholas se façam de vítimas “artificialmente” nos fóruns internacionais, “acusando a Rússia de falsidades, exercendo esse mesmo e triste papel dos independentistas em relação à Nação Espanhola”. Em outro texto, a Rússia é descrita como “a herdeira do Império Romano do Oriente que pode contribuir com a maior força”.

Quem estreou no Katehon há um mês é Inma Sequí, que foi candidata do Vox à prefeitura de Cuenca e agora é militante do Respecto. Um companheiro dessa confluência de partidos de extrema-direita comentou sobre a possibilidade de ela escrever no portal. Escreveu sobre o Clube Taurino da Rússia, que se apresentou há alguns meses em Madri. “Estou interessada em dar a conhecer meu ponto de vista: por que sou contra a OTAN ou por que acredito que a Rússia é a Europa, e este meio é um começo. No fundo, minha linha concorda com a do próprio meio”. Ela enviou o texto por e-mail e dois dias depois foi publicado em um portal que já consultava antes de escrever para ele. Esse meio divulga principalmente valores conservadores? “Eu acho que tem de tudo. Acho que se toca mais no aspecto geopolítico, não é para dar a nossa opinião”, responde Sequí.

O Katehon também divulga notícias falsas, como o envolvimento de Hillary Clinton, a candidata democrata à Casa Branca, em cinco assassinatos, ou a suposta elaboração pela Fundação Soros de uma lista negra com jornalistas espanhóis pró-russos. Acrescente-se a isso acusações aos EUA de ajudar terroristas a escapar da Síria e grosseiras referências homofóbicas.

Magnata russo

No site em espanhol do Katehon consta que o centro é presidido por Konstantin Valeryevich Malofeev (Pushchino, Moscou, 1974). O magnata Malofeev foi vetado em 2014 pela União Europeia por seu apoio aos separatistas pró-russos da Ucrânia. A UE observou que lhes prestava um “suposto apoio material e financeiro” e acusou-o de agir “em apoio à desestabilização do leste da Ucrânia”. Malofeev fundou e preside a Fundação São Basílio o Grande, que defende teses ultramontanas.

A fundação promove fóruns para reunir representantes de partidos de extrema-direita de toda a Europa, inclusive os minoritários carlistas espanhóis, para atacar seus grandes inimigos: o liberalismo, o ateísmo, o aborto e a homossexualidade. Entre os partidos destaca-se o Alternativa pela Alemanha (AfD). Malofeev se reuniu com seu copresidente, Alexander Gauland, em São Petersburgo em 2015. “Acho que as ações do doutor Gauland indicam que a Alemanha voltará a ser a Alemanha e a Rússia voltará a ser a Rússia sob Putin”, declarou na reunião. As atividades da fundação são divulgadas por uma emissora de televisão, a Tsargrad (o nome eslavo de Istambul), que também é de propriedade do magnata.

O Katehon tem como patronos personagens próximos do atual chefe do Kremlin, entre eles conselheiros de Putin como Sergei Glaziev. O portal faz parte de um ecossistema de meios de comunicação e supostas instituições que compartilham conteúdo e referências circulares, como os portais geopolitica.ru ou elespiadigital.com, que também têm em comum uma parte de seu grupo de colaboradores russos e espanhóis.

Espanha, alvo da propaganda russa

O especialista em relações internacionais Francisco Malavassi investigou os métodos russos para infiltrar seu discurso de propaganda fora de suas fronteiras. Esses ecossistemas de portais e meios de propaganda são regidos por um esquema similar. Por trás das teses que defendem, “querem dar a impressão de que existem muitíssimos formadores de opinião, que há toda uma escola por trás dos artigos que apresentam”, mas, independentemente do portal, sempre opera o mesmo mecanismo: “Quando você examina em detalhe, percebe que os artigos não são assinados ou são escritos por um pequeno grupo de pessoas. Outros artigos também são citados, que são amplificados em seguida através de bots”.

Para a Rússia, o objetivo central é ganhar mais poder e desestabilizar a União Europeia e seus membros, diz Malavassi. Como na Espanha, eles agem de forma semelhante na Alemanha, França ou Itália. “Os vínculos com a extrema-direita são circunstanciais. De acordo com o que acontecer em 2018, eles poderiam se aliar com um grupo de extrema-esquerda ou de outro tipo, desde que ataquem o status quo da União Europeia. Eles procuram gerar caos”. Essa é a razão pela qual a propaganda também difunda teses favoráveis à secessão catalã, tão distantes daquelas da extrema-direita espanhola, de acordo com o especialista.

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