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Resgatar o papel externo do Brasil

Se uma candidatura moderada vencer em 2018, o país poderá recuperar sua forte atuação externa perdida sob Rousseff e Temer

Bandeira do Brasil pintada em parede de Saquarema, Rio de Janeiro.
Bandeira do Brasil pintada em parede de Saquarema, Rio de Janeiro. AFP

A atual crise política e uma das piores recessões econômicas na história do país têm abalado a capacidade brasileira de moldar e participar de debates internacionais nos últimos anos. Com um presidente impopular e absorvido por desafios internos, o Brasil hoje contribui pouco para lidar com desafios regionais urgentes, como a crise na Venezuela, o combate contra o crime transnacional e a crescente presença chinesa na América Latina. Embora Brasília tenha sido tradicionalmente uma parada obrigatória para qualquer líder estrangeiro de passagem pela América do Sul, uma série de visitantes de alto nível evitaram o Brasil recentemente e optaram por outras capitais — como a chanceler alemã Angela Merkel, o premiê israelense Benjamin Netanyahu e o então presidente francês François Hollande.

Temer viajou proporcionalmente menos para o exterior do que qualquer um de seus predecessores desde Itamar Franco na década de 1990. Apesar de o governo Temer não ter promovido nenhuma grande ruptura na política externa, não há dúvida de que a voz do Brasil e sua capacidade de pautar a agenda internacional hoje são muito inferiores do que há apenas cinco anos – a despeito de contar com a sétima maior rede de postos diplomáticos do mundo e uma concentração de talento humano no Ministério de Relações Exteriores da qual poucos governos dispõem.

No entanto, se um candidato à Presidência de perfil moderado vencer em 2018 — como Marina Silva, Fernando Haddad, Geraldo Alckmin ou Lula à la 2003 —, vários dos maiores obstáculos no âmbito externo poderão ser superados com relativa facilidade. Há cinco razões principais para isso.

Em primeiro lugar, o governo de Temer é, internamente, um dos mais impopulares do mundo. Sua constante batalha pela sobrevivência reduz o tempo e a energia que poderia dedicar à política externa. Além disso, as acusações de corrupção contra vários de seus principais integrantes debilitam sua legitimidade para assumir liderança internacional em várias áreas. Por exemplo, a afirmação recente da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, de que "não há dúvida" sobre o chanceler Aloysio Nunes ter recebido dinheiro não declarado da Odebrecht para financiar uma de suas campanhas — o que ele nega — impede o Brasil de liderar a cooperação internacional contra a corrupção, tema de grande relevância para a comunidade global.

Ao menos inicialmente, o próximo governo desfrutará de taxas de aprovação mais elevadas do que as da administração Temer. Isso criará novas oportunidades para a diplomacia presidencial, um elemento-chave da política externa do Brasil dos governos Fernando Henrique Cardoso (FHC) e Lula. Um novo governo não marcado por irregularidades e contravenções poderia tornar o combate contra a corrupção a principal bandeira de sua política externa — o que, por sua vez, ajudaria a enfrentar o problema dentro do país.

Em segundo lugar, mesmo que o chanceler Aloysio Nunes tenha feito um trabalho razoável dentro do possível, os diplomatas de Temer enfrentam uma limitação importante e muitas vezes negligenciada que dificulta a implementação de qualquer projeto ambicioso no âmbito internacional: a falta de tempo. Quem suceder Temer em 2019, ao contrário, terá a oportunidade de pensar e articular uma política externa para um mandato completo de quatro anos (ou até oito) — mantendo, idealmente, a mesma chanceler durante o tempo todo (sim, já passou da hora de uma mulher liderar o Itamaraty).

Em terceiro lugar, o primeiro ano do novo governo, independentemente de suas políticas, deverá ser marcado por um otimismo cauteloso vis-à-vis a economia, oferecendo um mundo de oportunidades no campo externo. Isso torna as eleições de 2018 radicalmente diferentes daquelas de 2014, quando era óbvio que a vencedora ou o vencedor administraria uma economia à beira do precipício.

Em quarto lugar, em 1º de janeiro de 2019, o novo governo assumirá a presidência temporária do grupo BRICS, o que representará uma oportunidade imperdível para articular e apresentar sua narrativa para uma audiência global. A 11ª Cúpula do BRICS terá lugar no Brasil em 2019, permitindo que o novo presidente hospede o líder chinês Xi Jinping, hoje o político mais poderoso do mundo. Os mandatários de Índia, Rússia e África do Sul também virão ao Brasil, bem como os chefes de estado de toda a América do Sul, que poderiam ser convidados para a segunda metade da cúpula. Isso tornaria o encontro um dos eventos diplomáticos mais importantes do mundo em 2019. Se preparado com cuidado, permitirá que o novo governo tenha na política externa um aliado para promover seus objetivos de política interna e ganhar legitimidade — por exemplo, o combate contra a mudança global do clima, a desigualdade ou a corrupção.

Em quinto e último lugar, o próximo presidente poderá capitalizar a adesão do Brasil à OCDE — uma vitória diplomática que poderá fazer o país ser o único a participar, simultaneamente, do grupo BRICS e da OCDE. Essa conquista simbolizaria o papel fundamental do Brasil na emergente ordem multipolar do século XXI. Nenhum outro país está tão bem colocado quanto o Brasil para desempenhar um papel legítimo em ambos os grupos. Além disso, um novo presidente poderia liderar o renascimento do grupo IBAS, uma plataforma trilateral composta por Índia, Brasil e África do Sul, enfatizando o status do Brasil como a quarta democracia mais populosa do mundo.

Não podemos descartar a vitória de um candidato radical em 2018, o que inviabilizaria a revitalização da política externa. No entanto, essa possibilidade não deve fazer com que deixemos de discutir a estratégia internacional do próximo governo. Quem suceder a Temer terá oportunidade única para articular o reengajamento global do país. Seria uma excelente notícia tanto para o Brasil quanto para a comunidade internacional, justamente quando muitos dos principais global players estão imersos em crises domésticas, incapazes de defender um sistema internacional estável do qual o Brasil tanto precisa para prosperar.

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