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Agora é possível viver com um coração emprestado de 76 anos

Meio século após o primeiro transplante no mundo, medicina já realiza cirurgia com órgão de idoso

No Brasil, que começou a realizar transplantes em 1968, há mais de 350 operações por ano

Em 3 de dezembro de 1967, o médico sul-africano Christian Barnard realizou um feito da medicina ao substituir o coração moribundo de Lewis Washkansky por um saudável, com sucesso. Seu paciente tinha 53 anos e uma insuficiência cardíaca terminal associada à diabetes. A doadora, Denise Darvall, tinha 25 anos e morreu atropelada a poucos quilômetros da sala de cirurgia onde horas mais tarde se realizaria a operação histórica. Ocorreu no Hospital Groote Schuur da Cidade do Cabo, África do Sul. Nesse domingo completam-se 50 anos daquele dia, e nesse tempo transcorrido, o transplante cardíaco se transformou em uma terapia comum, mas não por isso menos milagrosa.

Hoje são realizados 7.000 transplantes cardíacos anuais no mundo. Só no Brasil, foram 357 ao longo de 2016. Este ano aumentou o número de doações e muito provavelmente também o de transplantes. A estimativa de Associação de Transplantes de Órgãos (ABTO) é que o ano acabe com 371 corações transplantados. O número de potenciais doadores cresceu 3,6% em 2017. Desde 1996 até setembro deste ano, 2.836 brasileiros receberam um coração novo.

María Dores Ortega, 33 anos após receber seu coração novo. ampliar foto
María Dores Ortega, 33 anos após receber seu coração novo. EL PAÍS

O Brasil foi o primeiro país da América Latina que conseguiu transplantar um coração, em 1968, só um ano após Barnard. Mesmo assim está hoje longe de outros países nos quais esse tipo de operação teve um grande desenvolvimento, como na Espanha, que, com quase um quinto da população brasileira, realiza mais de 300 transplantes a cada ano.

Um dos problemas no Brasil é que a divisão geográfica dos implantes de coração é muito desigual. No Distrito Federal, foram transplantados em 2016, segundo as estatísticas da ABTO, 14,8 corações a cada milhão de habitantes. O segundo estado, muito distante nos dados, é Pernambuco, com 4,1 transplantes a cada milhão. Na maioria do país nem se realizam transplantes, só em 12 estados: além dos dos anteriores, Ceará, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Minas Gerais, Santa Catarina, Goiás, Alagoas e Rio de Janeiro, sendo que os três últimos com menos de uma operação por cada milhão de habitantes.

Mas o Brasil consegue dados de sobrevida dos doentes muito semelhantes aos de outros países: segundo a ABTO, aqui são do 73% no primeiro ano após a intervenção e 60% no sétimo ano, muito perto das estatísticas da Espanha, um dos lugares do mundo com mais doadores e mais transplantados em função da sua população.

O primeiro transplantado no Brasil só conseguiu sobreviver 23 dias

A espanhola María Dolores Ortega, por exemplo, é um caso muito especial. Tinha só 11 anos quando recebeu seu novo coração em 1984 e ainda é um exemplo de boa qualidade de vida e de até onde pode chegar a façanha que Barnard começou há meio século.  “Eu me sinto ótima”, afirma María Dolores, 33 anos após sua operação.

“Barnard colocou o transplante cardíaco em moda há 50 anos. Mas ainda enfrentamos o problema do de encontrar um doador cardíaco idôneo”, diz a doutora Beatriz Domínguez-Gil, diretora da Organização Nacional de Transplantes da Espanha.

A solução é adaptar a prática clínica ao novo perfil do doador. Esse perfil, cada vez mais, corresponde a uma pessoa idosa e com um coração envelhecido, que normalmente falece por um acidente cerebrovascular. Muitas vezes a idade avançada não é de jeito nenhum um impedimento para um transplante bem-sucedido. De fato, o coração mais velho transplantado com sucesso na Espanha tinha 76 anos, e a idade média do doador de coração aumentou em 10 anos desde o começo do século. “Com o tempo vamos aprendendo que o que há anos considerávamos uma contradição absoluta para a doação agora não é mais”, afirma Domínguez-Gil.

“Do ponto de vista cirúrgico, a técnica de fazer um transplante é uma das mais simples que existem na cirurgia cardíaca”, disse Josep María Caralps, o cirurgião que realizou o primeiro transplante cardíaco na Espanha.  A complicação, histórica e atual, é evitar a infecção e a proliferação de tumores que podem vir após a operação, já que os pacientes recebem tratamentos imunossupressores para evitar a rejeição do órgão transplantado.

Essa resposta imunológica ainda não se conseguiu anular, mas foi reduzida de maneira muito relevante. Embora Barnard alcançou uma proeza, nos inícios a esperança de vida dos transplantados era muito fraca: dos primeiros 100 no mundo, somente seis sobreviveram após o primeiro ano da intervenção. Dentre essa maioria que não teve sorte estava o brasileiro João Ferreiro da Cunha, de 23 anos. Ele beirava a morte por conta de uma insuficiência cardíaca e recebeu um novo coração de um jovem que havia morrido de um acidente de carro, no 26 de maio de 1968 no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. João Ferreiro faleceu 23 dias depois de rejeição imunológica. Após esse fracasso, os transplantes no país foram suspensos por vários anos e não começaram a se tornar habituais até 1984.

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