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‘Me chame pelo seu nome’ catapulta Armie Hammer na corrida pelo Oscar e Globo de Ouro

Depois de uma carreira cheia de projetos fracassados, intérprete ganha elogios por papel no romance gay

'Me Chame pelo Seu Nome'
'Me Chame pelo Seu Nome' é o primeiro grande concorrente ao Oscar 2018.

Um dos sentidos que hammer possui em inglês é o verbo “pregar”. Conhecendo a pouca inspiração da profissão jornalística em geral, não é de estranhar que Armie Hammer tenha sido alvo de piadas que aludem a uma carreira “pregada”, que nunca consegue decolar. E pela irregularidade de sua filmografia, não faltam razões para suspeitar de seu futuro no mundo do cinema. O intérprete de A Rede Social sempre foi um membro destacado do clube dos que “parecia que ia”, formado por aqueles atores que conseguiram certa relevância graças a um projeto determinado, com sintomas de talento e carisma, mas que não conseguiram chegar na lista A de Hollywood. Matt Bomer, Ian Somerhalder, Garrett Hedlund, James Mardsen, Chace Crawford, Orlando Bloom… Você pode continuar. Outros, como os Ryan (Gosling e Reynolds), conseguiram sair do poço nos últimos tempos e agora Hammer pretende se juntar a eles. O salvo-conduto? Seu protagonista no drama Me chame pelo seu nome, o último do italiano Luca Guadagnino, sensação no Festival de Sundance e primeiro grande candidato para o Oscar e Globo de Ouro. Mas esta história de sucesso não teria sido possível sem vários fracassos retumbantes. Esta é a cronologia dele.

Revés #1 - Os super-heróis não eram o que são

O primeiro grande ano na carreira deste neto de um magnata do petróleo (viveu boa parte de sua infância nas Ilhas Cayman) que quis ser ator depois de assistir a Esqueceram de Mim, viria em 2009. Depois de aparecer em séries de televisão, como Gossip Girl, David Fincher decidiu dar sua primeira grande oportunidade em um dos filmes mais debatidos deste século. Em A Rede Social, Hammer deu vida aos gêmeos Winklevoss, arqui-inimigos de Marc Zuckerberg durante a criação do Facebook. O logro técnico que significou duplicar o rosto do ator em dois irmãos fez com que seu trabalho passasse despercebido enquanto Jesse Eisenberg e Andrew Garfield orientavam suas carreiras para níveis mais elevados.

Mas a sorte do rapaz de Los Angeles estava a ponto de mudar. Depois de vários anos de preparação, o cineasta George Miller pretendia se antecipar ao boom de super-heróis que vivemos hoje com a adaptação da história em quadrinhos da Liga da Justiça. Com um elenco quase desconhecido, o diretor apostou em Hammer para o personagem mais carismático da DC: Bruce Wayne/Batman. Pelo físico e a descendência aristocrática, a escolha fazia todo o sentido. Embora o elenco tenha chegado a se reunir (veja o tuite abaixo destas linhas) e até tenham vestido seus respectivos trajes, a greve dos roteiristas e vários problemas financeiros acabaram cancelando o projeto. Ainda hoje o ator aparece regularmente nas apostas para dar vida a quase praticamente qualquer justiceiro que anuncia sua passagem para a telona. O último, Lanterna Verde.

Revés #2 - O Cavaleiro Solitário (também nos cinemas)

Para os executivos dos estúdios, um tipo como Armie Hammer (1,96 m) não poderia ficar sem sua grande franquia. A Disney, que achava que o trio Gore Verbinski (diretor), Jerry Bruckheimer (produtor) e Johnny Depp (ator e cidadão do mundo) já tinham arrancado todo o suco possível da saga Piratas do Caribe, decidiu levar os maneirismos de Jack Sparrow para o Velho Oeste adaptando a série O Cavaleiro Solitário. Hammer deu vida ao bandido mascarado em um dos maiores fracassos de bilheteria dos últimos anos, com perdas para a empresa do Mickey de mais de 575 milhões de reais. A dupla protagonista não hesitou em culpar a imprensa, implacável em sua crítica de tal fracasso. “Decidiram se lançar na jugular do nosso filme. Fomos fuzilados desde que foi anunciado que íamos fazê-lo”, afirmou Hammer, cuja capacidade de liderar um filme de grande orçamento foi questionado desde aquele verão. A Disney, por sua vez, repensou sua análise sobre o desgaste de Piratas do Caribe.

Em “O Cavaleiro Solitário”, a Disney queria repetir a fórmula de sucesso de “Piratas do Caribe”.
Em “O Cavaleiro Solitário”, a Disney queria repetir a fórmula de sucesso de “Piratas do Caribe”.

Revés #3 - O nascimento de uma polêmica

Depois de sua passagem irregular pelo terreno dos blockbusters (O Agente da U.N.C.L.E. não funcionou bem nas bilheterias), Hammer decidiu fazer uma mudança em sua carreira inclinando-se para o cinema independente. Sua primeira e muito arriscada incursão no setor foi dando vida a um escravista sem escrúpulos na obra prima de um diretor afro-americano desconhecido, Nate Parker. O Nascimento de Uma Nação, levando o prêmio mais importante do festival e vendendo os direitos de distribuição pelo valor mais alto até hoje (17 milhões e meio de dólares). Quando todos acreditavam que o filme iria replicar o sucesso de 12 anos de Escravidão no Oscar e que, finalmente, Hammer veria se trabalho materializado em indicações, os meios divulgaram um evento muito sério do passado de Parker. Em 1999, ele e um colega de faculdade foram acusados de estuprar outra estudante que acabou cometendo suicídio. Embora ambos acabaram sendo absolvidos e o diretor negou qualquer responsabilidade pelos fatos, as suspeitas foram suficientes para fulminar O Nascimento de uma Nação da temporada de prêmios. Outros, em circunstâncias similares, tiveram melhor sorte.

“O Nascimento de uma Nação” foi arrastado pela controvérsia em torno de seu diretor.
“O Nascimento de uma Nação” foi arrastado pela controvérsia em torno de seu diretor.

Triunfo #1, 2, 3… – Um 2017 inquestionável

Que o trabalho duro dá frutos é algo que pode ser confirmado pelos abdominais de Zac Efron ou pela estante de troféus de Rafa Nadal, mas também por Armie Hammer. Sua aposta pelo cinema de autor surtiu efeito e sua filmografia no último ano admite poucas censuras. Depois de O Nascimento de uma Nação ele acompanhou Amy Adams e Jake Gyllenhaal na aclamada Animais Noturnos, o último de Tom Ford atrás da câmera. Também apostou nele outro diretor de culto, Ben Wheatley, para liderar (com Brie Larson) o elenco de Fogo Cruzado, a história de duas gangues de ladrões que devem se enfrentar até a morte na Boston de 1978. Em Final Portrait, dirigido pelo também ator Stanley Tucci, Hammer responde ao mítico pintor suíço Alberto Giacometti (Geoffrey Rush), em uma das surpresas mais aplaudidas o último Berlinale.

Cillian Murphy e Brie Larson acompanham Hammer no elenco de “Fogo Cruzado”.
Cillian Murphy e Brie Larson acompanham Hammer no elenco de “Fogo Cruzado”.

O californiano teve uma agenda lotada na capital alemã porque também apresentou no festival o filme que deverá marcar um antes e um depois na sua carreira. Outra sensação do Sundance (parece que desta vez sem polêmicas no horizonte), dirigida pelo italiano Luca Guadagnino (Um Mergulho no Passado), Me Chame pelo Seu Nome conta a história de amor entre um adolescente italiano e um estudante norte-americano na Riviera durante o verão de 1983. Até o momento, é o filme mais bem avaliado do ano (uma média de 98/100 no Metacritic, à frente de Dunkirk de Christopher Nolan) e parece seguir o caminho tomado por Moonlight: Sob a Luz do Luar, um ano antes. Os críticos classificaram a interpretação de Armie Hammer como “incrível” e “sensacional” e veem como segura sua presença em alguma das poltronas do Dolby Theater em março que vem. Talvez a partir de agora a única coisa “pregada” na carreira do ator sejam suas poses no tapete vermelho dos prêmios.

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