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COLUNA

A crise venezuelana também é nossa

Chegada de refugiados do país vizinho representa desafios e oportunidades para o Brasil

O presidente de Venezuela, Nicolás Maduro, acena para o público durante um ato oficial no dia 7 de novembro
O presidente de Venezuela, Nicolás Maduro, acena para o público durante um ato oficial no dia 7 de novembro EFE

Em um recente debate na Universidade de São Paulo (USP) sobre como lidar com a crise na Venezuela, um aluno perguntou: "Não devemos nos preocupar com nossos desafios domésticos em vez de discutir problemas dos outros que têm pouco impacto em nossas vidas diárias?". À primeira vista, a situação na Venezuela, apesar de ter se transformado em uma crise humanitária e geopolítica com envolvimento direto de Cuba, Estados Unidos, China e Rússia, parece ter pouca relevância para nós. Diante da crise política, econômica e social brasileira, que legitimidade temos para interferir nos assuntos internos de nossos vizinhos?

Tais questionamentos, bastante comuns, são fruto de paroquialismo. Não levam em consideração que a crise da Venezuela já afeta profundamente os brasileiros, sobretudo aqueles na cidade de Boa Vista (Roraima), a única capital do país ao norte do equador. É principalmente para lá que os venezuelanos do leste do país fogem da violência, da pobreza ou da falta de medicamentos básicos. Esses imigrantes estão cada vez mais presentes nos cruzamentos da cidade, lavando pára-brisas, vendendo doces, pedindo trocados. Faz tempo que a crise venezuelana é brasileira também, e a situação em Roraima é um exemplo clássico de por que a preocupação com temas externos deve fazer parte do debate doméstico.

As estimativas sobre o número de venezuelanos no Brasil variam, pois é bastante fácil atravessar a fronteira sem documentação. Alguns trabalham aqui, mas retornam regularmente à Venezuela para ajudar membros da família deixados para trás. Acredita-se que haja entre 25 e 30 mil venezuelanos na região de Boa Vista hoje. Essa estimativa é muito inferior à do número de venezuelanos que entraram na Colômbia (entre 400.000 e 900.000). No entanto, esse afluxo de pessoas não é trivial para uma cidade de 325 mil habitantes que nunca viveu algo parecido. Até agora, houve poucos casos de xenofobia explícita e o setor privado tem ajudado bastante. Muitos garçons em cafés e restaurantes da cidade são venezuelanos. Professores da Universidade Federal de Roraima (UFRR) oferecem aulas para refugiados, aconselham profissionais do sexo e auxiliam membros da tribo indígena Warao, que habitavam o nordeste da Venezuela. No entanto, existem numerosos casos de exploração de venezuelanas, que trabalham como empregadas domésticas e recebem pouco ou nenhum salário além de comida e abrigo, mas receosas de denunciar os abusos às autoridades brasileiras.

A maioria dos residentes locais não culpa os venezuelanos, mas diz sentir que o governo brasileiro carece de estratégia para lidar com o crescente número de imigrantes. Muitos se perguntam o que aconteceria se a quantidade de pessoas que cruzam a fronteira dobrasse ou triplicasse, um cenário plausível, considerando-se a crise cada vez mais profunda na Venezuela. O sistema de saúde pública do estado, já sobrecarregado antes da crise dos refugiados, foi o mais atingido. Muitos venezuelanos chegam ao Brasil com doenças graves, que exigem tratamento urgente, como câncer terminal ou complicações relacionadas à tuberculose, diabetes, HIV/AIDS, subnutrição e malária não tratadas, pois não há medicamentos disponíveis em seu país de origem. A prevalência de HIV/AIDS entre os membros da tribo Warao é particularmente alta, levando o diretor executivo da organização Aid for AIDS, Jesus Aguais, a fazer recentemente um alerta: "Se não fizermos nada, essa comunidade provavelmente desaparecerá". Aguais também apontou que, na Venezuela, 80% das pessoas vivendo com HIV/AIDS não estão sendo tratadas, o que coloca o país entre os piores do mundo para soropositivos.

Lidar com a situação em Roraima de maneira eficaz — sobretudo no âmbito da educação e da saúde públicas — exigirá integrar a política externa do Brasil com a estratégia interna do país. Para antecipar adequadamente quantos refugiados virão nos próximos meses e anos, será preciso uma compreensão sofisticada da dinâmica política em Caracas, que envolve acesso direto aos governos em Moscou, Havana, Washington e Pequim, os quatro países mais influentes na Venezuela. Isso reforça a importância de o Brasil ter uma grande rede de embaixadas ao redor do mundo com diplomatas bem-conectados: sem eles, o governo brasileiro está no escuro vis-à-vis desdobramentos além de nossas fronteiras.

Naturalmente, a situação em Roraima apresenta também aspectos positivos. Os venezuelanos proporcionaram uma diversidade cultural desconhecida em Boa Vista. Guaka Guaka, um bar venezuelano, está cheio de clientes brasileiros ouvindo música caribenha aos fins de semana. Famílias passeiam na Praça do Centro Cívico ouvindo, entre outras, a banda Mariachis Sol de México. Há um ano, o grupo deixou Valência, sua cidade natal no Estado de Carabobo, devido à explosão de violência e à escassez de alimentos, e solicitou o status de refugiado no Brasil. "Queremos trabalhar duro e esperar que o povo brasileiro aprecie a nossa música", me disse o trompetista Saúl durante minha recente visita à cidade.

Como qualquer tipo de resolução da crise econômica na Venezuela parece pouco provável neste momento (pelo contrário, o país demorará décadas para se recuperar), Boa Vista deve se preparar para receber mais venezuelanos, sobretudo jovens. Se o governo brasileiro não adotar uma estratégia clara (por exemplo, ajudando as escolas públicas a lidar com a presença de crianças que não falam português), residentes locais poderão ficar mais vulneráveis a candidatos xenófobos nas eleições do próximo ano. Além de apresentar propostas claras, candidatos moderados devem ressaltar que, a médio e longo prazos, o Brasil não só conseguirá integrar os recém-chegados, mas também se beneficiará da presença de mais imigrantes — como tem feito há séculos.

 

 

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