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Coluna
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Como lidar com um Trump brasileiro

Tratar candidatos radicais como escândalo durante a campanha só os fortalecerá

Oliver Stuenkel
O deputado federal Jair Bolsonaro, pré-candidato à presidência em 2018.
O deputado federal Jair Bolsonaro, pré-candidato à presidência em 2018.

Quatorze países latino-americanos terão eleições presidenciais em 2018 e 2019. Na maioria deles, há uma ampla rejeição à elite política. No México, por exemplo, apenas 2% dos eleitores confiam em partidos políticos e só 4% acreditam que o país está no rumo certo. Em quase toda a América Latina ocorre algo similar. Devido ao baixo crescimento econômico e à desconfiança na classe política — e na própria democracia —, o próximo ciclo eleitoral na região deverá trazer profundas mudanças. Embora isso não seja negativo per se — de fato, as elites políticas precisam ser renovadas urgentemente —, há um risco enorme de que o atual descontentamento generalizado levo ao surgimento de salvadores da pátria no continente, os quais têm maior tendências autoritárias e menor apreço aos chamados freios e contrapesos, pilares de qualquer sistema democrático.

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No Brasil, a confiança dos eleitores na classe política também é baixíssima. Não surpreende, portanto, que recentes pesquisas sobre intenção de voto para a disputa presidencial de 2018 mostrem o deputado Jair Bolsonaro em segundo lugar. O capitão da reserva do Exército apresenta propostas de extrema direita semelhantes às do presidente filipino Rodrigo Duterte, líder de um governo globalmente criticado pela sistemática violação dos direitos humanos. Muitos ainda esperam que o deputado carioca se autodestrua nos próximos meses em virtude de suas polêmicas afirmações. Considerando o resultado da eleição presidencial dos EUA de 2016 e em vários países europeus ao longo dos últimos anos, essa expectativa parece perigosamente ingênua.

Candidatos como Trump adotam a estratégia de escandalizar, de maneira sistemática, para crescer nas pesquisas de opinião e definir a pauta do debate público. Muitas de suas declarações têm como objetivo gerar rejeição e estigmatização pelo establishment político. Como afirma um memorando interno do partido da extrema direita “Alternativa para a Alemanha” (AfD) — que teve seu melhor resultado histórico nas eleições parlamentares no mês passado, "quanto mais eles tentam estigmatizar o AfD por causa de palavras provocativas ou ações, melhor para o perfil do AfD. Ninguém dá ao AfD mais credibilidade do que nossos adversários políticos." Trump e o AfD foram politicamente incorretos de propósito e, tanto nos EUA quanto na Alemanha, a imprensa e a elite política erraram ao fazer da ameaça extremista o tema central da campanha. Como Thorsten Benner, um dos principais analistas alemães, afirma em recente artigo na Foreign Affairs, “esse foco [no AfD] impediu que partidos tradicionais envolvessem os eleitores no debate sobre as demais questões com as quais eles [eleitores] se preocupam profundamente, desde previdência e educação públicas até a crise nos asilos alemães, e apresentassem uma visão para a transformação da Alemanha na era digital.”

Cabe, portanto, criticar afirmações absurdas, mas sem dar destaque a provocações nas manchetes dos jornais. Elas, tampouco, precisam dominar as timelines das redes sociais. Compartilhar um post crítico de um candidato extremista pode, ao contrário do que se espera, beneficiá-lo. Ademais, com isso, pode-se estar reduzindo o espaço para as ideias de outros candidatos.

Nos debates durante a campanha — na TV, em universidades, em comícios etc. —, a presença de candidatos espalhafatosos requer perguntas objetivas sobre propostas concretas, como políticas públicas para economia, educação, saúde e segurança — temas para os quais eles normalmente não têm respostas convincentes. Em vez de rotulá-los e isolá-los, assim dando a esses radicais tratamento especial que desejam, é preciso haver diálogo para demonstrar as fragilidades de suas candidaturas.

Fazer abaixo-assinados de intelectuais contra Bolsonaro, como ocorreu recentemente para tentar impedir a palestra do presidenciável na Universidade George Washington, tem o mesmo efeito que sanções econômicas dos Estados Unidos contra o regime de Maduro na Venezuela: ajudam sua causa e mobilizam sua base. Argumenta Benner, no mesmo artigo, sobre a entrada do partido extremista no parlamento alemão: “Nos próximos meses, partidos políticos, os meios de comunicação e as organizações não governamentais não devem procurar apresentar uma frente unida contra o AfD. Fazê-lo só fortalece o argumento do AfD de que [ele] seja a única alternativa a um establishment monolítico.”

Muitos votaram em Trump, no AfD e em outros partidos extremos não porque acreditam em suas teses, mas porque rejeitaram todas as alternativas. No Brasil, muitos apoiam Bolsonaro porque perderam a esperança no sistema político. No caso da Alemanha, 85% dos eleitores da AfD disseram que o voto no partido era uma expressão de desapontamento com as elites políticas e o único veículo com o qual poderiam expressar seu protesto, de acordo com pesquisa do Infratest Dimap. Em vez de apenas atacar os extremistas por suas bravatas durante toda a campanha — como aconteceu na Alemanha e nos EUA —, é preciso enfrentá-los onde eles mostram suas maiores fraquezas: no campo das ideias e propostas concretas.

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