Por que Jack Reed escreveu a melhor crônica da Revolução Russa?

O jornalista estava em Petrogrado quando a revolução bolchevique deu uma nova forma ao mundo. Ali viu os fatos, conversou com protagonistas, entendeu os mecanismos e fez um livro inesquecível

John Reed, em foto de 1920, ano de sua morte
John Reed, em foto de 1920, ano de sua morte

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O jornalista John Reed estava lá em 1917 quando a revolução bolchevique deu uma nova forma ao mundo. O norte-americano fez, no livro ‘Dez Dias que Abalaram o Mundo’, um relato inesquecível sobre o que tinha acontecido. Tanto o impactou que ficou em Moscou, onde faleceu três anos depois.

Falam da crônica, insistem na crônica, importunam com a crônica. E falam como se tivesse começado antes de ontem, quando, na verdade, começou muito antes de ontem. Heródoto, César, Ibn Battuta, Álvar Núñez, Sterne e Stendhal – por exemplo – são cronistas extraordinários. Mas nenhum deles teve de contar algo tão decisivo como John Silas Reed.

Seu nome era John, mas era chamado de Jack; nasceu em 22 de outubro de 1887 em uma mansão de Portland, Oregon, rodeado de criados chineses e babás inglesas, o filho da filha de um empresário milionário. Aos 18 anos foi estudar em Harvard e ali – alto, bonito, simpático – entrou em todos os clubes, praticou todos os esportes, escreveu em todas as revistas. Mas também foi a reuniões do pequeno grupo socialista, e esse detalhe mudou sua vida.

Por isso, quando se formou, em vez de passar uma temporada na Europa como um dândi, foi trabalhar em um navio de transporte de gado; quando voltou, instalou-se no Village de Nova York e fez reportagens para revistas iracundas e escreveu poemas. E se meteu em greves de trabalhadores e foi preso quatro ou cinco vezes e viajou para contar a revolução mexicana e se casou com a escritora feminista Louise Bryant e tiveram um relacionamento semiaberto e ele voltou à Europa para ver a guerra e escreveu que era uma briga de capitalistas em que morriam operários e, quando seu país entrou nela, se opôs com veemência e foi alvo de repúdio e maus tratos. Mas nada disso seria memorável se não tivesse tido a astúcia de entender onde valia a pena estar: aí costuma estar a diferença.

(Jack Reed era um homem em busca de um destino; para mim é difícil não pensar nele com a cara bonita de Warren Beatty que, no início dos anos 1980, dirigiu e protagonizou um filme sobre sua vida, Reds, vencedor de três Oscars, filmado na Espanha – e no qual trabalhei como figurante, um camponês russo que cantava aos gritos A Internacional).

Em agosto de 1917 Reed e Bryant viajaram para São Petersburgo – que na altura já se chamava Petrogrado – para ver de perto o movimento que havia derrubado o czar seis meses antes. Tudo era confusão, tudo esperança – e pretendiam contar essa história. Reed estava ali em outubro de 1917, quando a revolução bolchevique deu uma nova forma ao mundo. Ali viu os fatos, conversou com os protagonistas, entendeu os mecanismos, escreveu um livro inesquecível.

Ten Days that Shook the World (Dez Dias que Abalaram o Mundo) continua sendo um modelo e continua sendo o melhor relato sobre aquele intento tão bem-sucedido que depois fracassou com tamanho estrondo. Obviamente não era neutro: o jornalismo nunca o é, não pode sê-lo. Foi há exatamente um século – e, até hoje, nem o tempo nem as revoluções nos convenceram de que cem anos são só uma convenção. Foi há exatamente um século, e esse dado menor serve para voltar à pergunta do milhão: como foi que intenções tão boas deram resultados tão maus.

Jack Reed não teve tempo de se perguntar isso. Completou 30 anos em meio ao triunfo bolchevique, mas não chegou a completar 33: cinco dias antes, em 17 de outubro de 1920, morreu em um hospital de Moscou e foi enterrado – honra das honras – no Kremlin. Deixou sua reportagem para nos mostrar, entre outras coisas, que nem no jornalismo nem na política fazemos nada novo. Na política nem sequer acreditamos; no jornalismo às vezes sim, e chamamos de crônica. Heródoto ri alto em uma taverna de Halicarnasso.

Martín Caparrós

Martín Caparrós é jornalista e escritor nascido em Buenos Aires em 1957. Deixou seu país em meados dos anos 1970 para se exilar na Europa. Estudou história na Sorbonne em Paris e depois se mudou para Madri, onde morou até 1984, quando retornou à Argentina com a redemocratização. Desde então, sua vida esteve marcada pelas constantes idas e vindas de um lado a outro do Atlântico. Em sua obra ‘Lacrónica’, de 2015, esmiúça seus 30 anos no mundo do jornalismo.