Após cinco anos em cativeiro, refém do Talibã revela que mataram sua filha e estupraram sua esposa

O canadense Boyle, sua mulher e seus três filhos chegam a Toronto dias depois de libertados no Paquistão

MARK BLINCH (REUTERS) / epv (ATLAS)

O canadense Joshua Boyle, o refém libertado junto com sua família no Paquistão, afirmou, depois de sua chegada ao Canadá nesta sexta-feira à noite, que seus sequestradores da rede Haqqani, ligada ao Talibã, mataram sua filha e estupraram sua esposa. O casal, que ficou refém durante cinco anos, teve três filhos durante o período em cativeiro. “A estupidez e a maldade do Haqqani ao sequestrar um peregrino e sua esposa grávida, que fomos ajudar os aldeões das regiões controladas pelo Talibã no Afeganistão, só foram ofuscadas pela estupidez e pela maldade de autorizar o assassinato de minha filha, mártir Boyle, devido a minha recusa reiterada de aceitar uma oferta que os criminosos da rede Haqqani me haviam feito”, declarou Boyle.

Lendo um texto diante das câmeras, o ex-refém canadense, à beira das lágrimas, afirmou que sua recusa teve como consequência “o estupro depois de [minha] mulher, não como uma ação solitária, e sim por um guardião assistido pelo capitão dos guardiões e supervisionado pelo comandante do Haqqani Abu Hajar”.

MAIS INFORMAÇÕES

Boyle afirmou que o assassinato de sua filha e o estupro de sua mulher, a norte-americana Caitlan Coleman, em 2014, foram confirmados por uma investigação afegã em 2016.

“Não tenho, com certeza, nenhuma intenção de permitir a um bando brutal de criminosos que dite a orientação futura de minha família”, acrescentou, sem dar detalhes sobre as exigências de seus sequestradores que rejeitou.

Libertados na quarta-feira no Paquistão, Boyle, sua esposa e seus três filhos chegaram na sexta-feira à noite ao aeroporto de Toronto.

Ele disse considerar importante para sua família agora poder “construir um refúgio seguro” que seus “três filhos sobreviventes possam chamar de lar”. E disse querer lhes dar, além de educação, um ambiente que lhes permita “recuperar uma parte da infância que perderam”.

Boyle afirmou ter viajado ao Afeganistão para ajudar “a minoria mais esquecida do mundo”. “Esses aldeões comuns que vivem nas regiões mais recônditas de territórios controlados pelo Talibã no Afeganistão, onde nenhuma ONG, nenhum colaborador nem nenhum Governo nunca conseguiu levar a ajuda necessária”, acrescentou.

Em sua chegada ao país, o Governo canadense comemorou “o regresso tão esperado” da família Boyle. “O Canadá teve papel ativo em todos os níveis no caso do senhor Boyle e continuará a dar apoio a ele e a seus parentes próximos agora que voltaram ao seu país”, declarou o Ministério das Relações Exteriores.

Joshua Boyle e Caitlan Coleman, casados desde 2011, foram sequestrados pelo Talibã pouco após entrar no Afeganistão, em 2012. Depois foram entregues à rede aliada Haqqani, no Paquistão. Os reféns foram libertados durante uma operação das forças armadas paquistanesas, depois que receberam informações dos serviços norte-americanos de inteligência.

Contrariando informações dadas na sexta-feira pelas forças armadas norte-americanas, Boyle afirmou que não se negou a ser transportado para os Estados Unidos, mas que manifestou sua vontade de se reunir com sua família no Canadá.

Os pais de Joshua Boyle vivem 80 quilômetros ao Sudoeste da capital federal, Ottawa.

Boyle se envolveu muito na defesa de Omar Khadr, um canadense preso em 2002 no Afeganistão quanto tinha 15 anos de idade e aprisionado durante muito tempo em Guantánamo antes de ser levado para o Canadá e ser posto em liberdade.

Em 2009 Boyle se casou com a irmã de Omar, Zaynab Khadr.

Na sexta-feira, a ministra canadense de Relações Exteriores, Chrystia Freeland, declarou que Boyle não era “objeto de nenhuma investigação” no Canadá. E afirmou que não foi pago resgate pela libertação dos cinco membros da família.

Os ex-reféns tomaram um voo comercial na sexta-feira pela manhã em Islamabad com destino a Londres, onde embarcaram depois para Toronto.

Arquivado Em: