Afeganistão

Talibãs nomeiam novo líder e confirmam morte de Mansur

Nada indica que Haibatullah Akhundzada seja mais favorável a negociar com o governo de Cabul

Restos de um automóvel atingido por um ataque dos EUA contra o líder talibã. (reuters_live)

“Todos os membros do conselho prestaram juramento de fidelidade ao xeque Haibatullah em um local seguro do Afeganistão”, afirma o comunicado dos talibãs, citado pela agência Reuters. “Todos devem obedecer ao novo miramolim”, acrescenta o texto, usando a expressão árabe de conotações religiosas “emir al muminin”, ou líder dos crentes, que também pode ser traduzido como califa.

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Na mesma reunião, os principais dirigentes talibãs em que os auxiliares diretos do novo líder serão Sirajuddin Haqqani, chefe do grupo que leva o nome de sua família, e Mohammad Yaqub, filho do fundador do movimento, o arredio clérigo zarolho Mohammad Omar, a quem Mansur sucedeu depois de sua morte, em 2013. Havia especulações de que o comando poderia passar para Haqqani, que era tido como o braço direito de Mansur. No entanto, por não ser originário de Kamdahar (um autêntico feudo do grupo), por ter uma base geográfica limitada (a província de Loya Paktia) e pela necessidade de se preservar a unidade do grupo diante da concorrência do Estado Islâmico (EI), a balança pesou para o lado de uma personalidade menos polêmica e mais reservada.

O escolhido, que tem cerca de 60 anos de idade e é originário de Kandahar, pertence a uma influente tribo do sul do país, os Noorzai. Além disso, é respeitado como religioso e tratado por seus seguidores com o título honorífico de maulaui Haibatullah, o que indica que possui formação superior. Refugiado no Paquistão durante a ocupação soviética do Afeganistão (1978-1989), uniu-se aos talibãs pouco depois de concluir seus estudos em meados dos anos noventa. Um relatório da ONU do ano passado se refere a ele como “ex-responsável da Justiça desse regime”.

Haibatullah Akhundzada em uma foto fornecida pelos talibãs afegãos em 2015.
Haibatullah Akhundzada em uma foto fornecida pelos talibãs afegãos em 2015.

Segundo Thomas Ruttig, diretor do Afghanistan Analysts Network, um centro de estudos localizado em Cabul, Haibatullah “foi um dos poucos que conquistou a confiança do clérigo Omar e a quem este sempre pedia conselhos antes de emitir uma sentença”. O novo líder também compartilha com seu antecessor a aversão pela publicidade, e há poucas fotografias suas.

Considerando tais precedentes, não é de prever que o assassinato de Mansur tenha atingido o seu objetivo de obrigar a uma mudança na posição do grupo de se negar a negociar com o Governo afegão. Tanto o presidente Ashraf Ghani como seu adversário e parceiro no Governo, o chefe executivo Abdullah Abdullah, se comprometeram durante a campanha com a busca de uma saída política para o conflito desencadeado a partir da intervenção norte-americana que derrubou o regime do Talibã em 2001 e que já causou a morte de pelo menos 100.000 pessoas, sendo 25% desse total de civis. No entanto, os esforços nesse sentido se frustraram em meados do ano passado, quando foi revelada morte de Omar, ocorrida dois anos antes, e sua sucessão por Mansur.

“Haibatullah representa o status quo”, avalia o analista paquistanês Rahimullah Yousafzai, citado pela agência France Presse. “Seguirá a mesma política de Mansur. Não irá negociar”.

Os dirigentes talibãs não consideram de seu interesse fazer uma negociação no momento em que vem ganhando terreno desde a retirada das tropas da OTAN, em 2014, e jamais controlaram tantos distritos como agora desde que foram desalojados do poder. Em seu comunicado, eles afirmam que a sucessão na liderança do grupo não terá nenhum impacto sobre as suas operações e que a luta irá continuar da mesma maneira. Sintomaticamente, nesta quarta-feira, o grupo assumiu a responsabilidade por um atentado suicida contra uma perua que transportava funcionários da Justiça na região oeste de Cabul. Pelo menos 10 pessoas morreram e outras quatro ficaram feridas.