TRAGÉDIA EM MINAS GERAIS

Mãe em Janaúba: “Só consegui reconhecer meu filho pelos dentinhos”

Jane Kelle chora por Ruan Miguel, 4 anos, uma das crianças que morreram queimadas em creche. Morte de filho único se junta aos percalços e tragédias que marcam a história da família em Minas

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Ruan já estava escrevendo o próprio nome e passava parte do dia na creche municipal Gente Inocente desde fevereiro, quando Jane, desempregada, resolveu matriculá-lo para poder fazer bicos como diarista e complementar a renda. Ela bancava as despesas com 134 reais do Bolsa Família e, mês sim, mês não, mais 150 reais de pensão pagos pelo pai do menino.

Se em muitos aspectos a história de Jane é semelhante à de várias mães do bairro pobre de Rio Novo, em Janaúba – responsáveis sozinhas pela educação dos filhos, a única chance de seguir trabalhando era recorrer à creche –, em outros seus percalços e o desfecho cruel com Ruan têm tintas dramáticas únicas. Mesmo antes da quinta-feira, um incêndio já marcara a história da família. Aos três anos, Ruan Miguel aproveitou um momento de distração da mãe, que havia deixado um isqueiro em cima da mesa, e acabou provocando um incêndio na casa em que viviam em Paraguaçu, a mais de 800 quilômetros de Janaúba. Enquanto as chamas se espalhavam pelo quarto, queimando seu berço e o colchão, ele ficou imóvel até Jane aparecer para resgatá-lo. O quarto ficou destruído. E a vida dos dois mudou. Após o acidente doméstico, o marido resolveu se separar, culpando-a, segundo Jane, pelo acontecido. “Ele disse que eu e o menino deveríamos ter morrido no incêndio. Me abandonou depois disso”, diz ela, que voltou, com Ruan, para a casa da mãe. Depois disso, o garoto parecia traumatizado com fogo. Sempre que via algo em chamas, corria assustado.

“A sorte é que minha mãe sempre me ajudou muito”, ressalta Jane. “Se não, eu estaria perdida.” A mãe que a ajuda a enfrentar o luto é Aneis Barbosa da Silva, 76 anos, mãos e pés calejados e tragédias próprias e passadas para contar. Antes de se estabelecer no bairro com ruas de terra, Aneis trabalhava duro na roça em plantações de algodão e feijão. Dos 14 filhos, apenas seis estão vivos. Nem de todas as mortes ela se lembra exatamente, mas não faltam em seu relato enfermidades da pobreza e da falta de médicos: o mais velho morreu de doença de Chagas, aos 39 anos, outro teve um caso de tétano e ela lembra ainda de um aborto espontâneo. Viúva precoce, ela perderia a casa própria numa chuva forte – o local onde vive agora foi erguido graças a um mutirão da comunidade. “Sofri muito, mas nunca me desesperei”, diz ela. O exemplo de resistência da matriarca da família Silva, que agora contabiliza 15 netos, tem ajudado a amenizar a dor pela perda de Ruan. “Nosso orgulho é que, apesar de todas as dificuldades, nunca precisamos roubar nada de ninguém para poder sobreviver”, afirma a filha mais velha, Maria de Jesus.

A família se esforça para não guardar ressentimentos de Damião, o ex-funcionário da prefeitura que cometeu o crime. “Pedimos a Deus que abençoe a alma dele. E também a sua família, que deve estar sofrendo muito”, prega Aneis. Os familiares, no entanto, se dizem decepcionados com as autoridades do município. Acreditam que Ruan e outras crianças poderiam ter sobrevivido caso a creche, que não tinha extintor de incêndio e nem alvará do Corpo de Bombeiros, contasse com equipamentos de segurança contra incêndios.

No sexta, o velório de Ruan encheu o quintal da casa. E Jane Kelle conta ter encontrado alguma força em inúmeras manifestações de apoio recebidas nas últimas horas. “Ganhei abraço de gente que eu nem conhecia. Esse carinho ajuda demais”, conta a mãe, de 29 anos. Enquanto conversa com a reportagem do EL PAÍS, lembra de Ruan e acaricia uma foto dele, tirada um dia antes da morte. “Que menino danado! Corria pra tudo quanto é lado. Se deixasse, andava de bicicleta o dia inteiro. Todo mundo gostava dele. O que vai ser de mim sem o meu menino?”