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Do abraço da morte à família reclusa, o rastro de devastação do incendiário de Janaúba

Cidade no norte de Minas Gerais tenta se recuperar do abalo pela tragédia que deixou onze mortos

Familiares de autor da chacina, vigia de uma creche, se trancam em casa e temem retaliações

tragedia em creche de janauba
Marcas do fogo ainda são visíveis mesmo do lado de fora da creche.

Árvores retorcidas na estrada que dá acesso a Janaúba, a mais de 500 quilômetros da capital Belo Horizonte, encobertas pelo redemoinho de poeira típico dos fins de tarde. As ruas de terra que cortam o bairro do Rio Novo, em uma região pobre da cidade. O cenário quase rural da tragédia que já acumula onze mortos e 40 feridos no norte de Minas Gerais parece amplificar a comoção em torno de um lugar acostumado a resistir a longos períodos de seca e à escassez de serviços públicos dignos, mas não à dor de perder crianças queimadas vivas por um vigia incendiário. A chacina protagonizada por Damião Soares dos Santos na creche municipal Gente Inocente deixou um rastro de devastação e revolta jamais visto pelos janaubenses.

Com medo de sofrer retaliações por parte da população, a família do vigia está reclusa e evita falar sobre a tragédia. Nenhum parente compareceu ao velório de Damião, enterrado minutos antes da professora Heley Abreu, que tentou impedi-lo, em vão, de atear fogo em seus alunos. Coube a dois funcionários da funerária carregar o caixão para o sepultamento na última sexta-feira. A mãe do incendiário, a quem ele chegou a acusar de tentar envenená-lo há alguns anos, está em choque. “Não sabemos por que ele fez isso. Ninguém tinha noção do que se passava na cabeça dele. Estamos sofrendo demais com toda essa tragédia”, afirma um dos 11 irmãos do vigia, que pediu para não ser identificado. “A família dele é muito trabalhadora. Não merecia passar por uma coisa dessas”, diz Rosalva Lira, uma vizinha da mãe. Até o momento, a polícia não recebeu nenhuma denúncia de ameaças à família. Pelo contrário. Muitos parentes de vítimas têm oferecido palavras de solidariedade aos familiares do vigia. “Eles não são culpados de nada. Que sigam suas vidas em paz”, afirma Hilda Maria Rodrigues, avó de Luiz Davi, de quatro anos, uma das oito crianças que morreram.

MP chegou a detectar “disfunção de consciência” em Damião.
MP chegou a detectar “disfunção de consciência” em Damião.

Damião tinha 50 anos. Responsável pela vigilância noturna, trabalhava na creche como funcionário da prefeitura desde 2008. Relatos colhidos pela polícia após a tragédia dão conta de que a morte do pai, em 2014, fez com que ele se tornasse uma pessoa ainda mais retraída e com mania de perseguição. Cometeu o crime no mesmo dia – 5 de outubro – em que o pai faleceu. Para o delegado Bruno Fernandes Barbosa, que investiga o caso, um indício de que Damião teria premeditado o atentado. Depois da morte do pai, saiu da casa da mãe e passou a morar sozinho, no mesmo bairro da creche, cada vez mais desconfiado de que a família agia sorrateiramente para prejudicá-lo. Em postagens em seu perfil no Facebook, dava a entender que se sentia um peso para os familiares. “Se alguém duvidar, visita minha família. Eu fazia de tudo para ajudar, nunca fiz mal a ninguém”, publicou três dias antes do crime.

Ao entrar na creche, Damião, que havia faltado oito dias de serviço após férias acumuladas de três meses, se apresentou dizendo que entregaria um atestado médico à diretora. Como também vendia sorvetes e era conhecido na cidade como “Damião Picolé”, algumas crianças pensaram que ele estava ali para distribuir agrados. Mas o vigia ateou fogo no próprio corpo e, em seguida, abraçava as vítimas – sobre as quais derramava mais combustível para alastrar as chamas. O crime bárbaro despertou um questionamento: Damião era portador de um distúrbio mental? Se sim, por que trabalhava em uma creche? Segundo informações colhidas pela polícia, ele havia feito, em meados de 2014, uma denúncia ao Ministério Público da cidade contra a mãe, alegando que ela envenenava sua comida. Por meio de um estudo social, que ainda não foi divulgado, o órgão teria constatado uma “disfunção de consciência” em Damião. O MP abriu inquéritos para investigar se houve negligência do poder público no caso.

População de Janaúba faz corrente de orações em frente a hospital. ampliar foto
População de Janaúba faz corrente de orações em frente a hospital.

“A prefeitura deveria ser mais criteriosa ao contratar profissionais para creches e escolas, mesmo que não trabalhem diretamente com crianças”, afirma a professora Maria José Nogueira, ex-colega de Heley Abreu. O prefeito de Janaúba, Carlos Isaildon Mendes, argumenta que funcionários jamais desconfiaram do comportamento de Damião e que ele não tinha cometido nenhuma infração durante seu período como servidor público. Desde 2014, tramita na Câmara dos Deputados um projeto de lei que obriga a apresentação de certidão negativa de antecedentes criminais para a contratação de profissionais em instituições voltadas para crianças. A proposta ainda aguarda o parecer da Comissão de Seguridade Social e Família para ir a votação em plenário. Porém, no caso de Damião, ele não tinha passagens pela polícia. De acordo com depoimentos de conhecidos, era uma pessoa pacata e pouco sociável, apenas.

Enquanto ainda digere o luto pela tragédia, Janaúba começa a buscar a explicações e a mobilizar esforços para que os sobreviventes possam se recuperar prontamente. Na manhã deste sábado, 14 crianças tiveram alta na Fundajan, um dos hospitais da cidade. Elas serão monitoradas nos próximos dias para evitar recaídas em seu quadro respiratório. Os familiares, no entanto, se preocupam com as condições do hospital para oferecer acompanhamento e tratamento, caso seja necessário. Desde o início do ano, o município sofre com a falta de medicamentos, desde analgésicos a antibióticos. Há três dias, a Fundajan teve de recorrer a doações, pois seu estoque de remédios rapidamente se esgotou após a chegada das primeiras vítimas.

Embora a creche não tivesse extintor de incêndio, plano anti-incêndio e nem alvará do Corpo de Bombeiros, a gestão de Carlos Isaildon Mendes, que assumiu o cargo no início deste ano, se esquiva de responsabilidade pela tragédia. Mas promete fazer um levantamento sobre brechas de segurança em todas as escolas municipais e reconstruir a creche em menos de 90 dias com a ajuda empresários locais. Ao longo da obra, sobreviventes do ataque e o restante dos alunos serão acolhidos em outras instituições.

Homenagem às vítimas da tragédia em frente à creche.
Homenagem às vítimas da tragédia em frente à creche.

No fim da manhã de sábado, foi confirmada a décima morte causada pelo incendiário da creche. Thallyta Vitória Bispo, de quatro anos, teve 60% do corpo queimado. Ela havia sido transferida de Montes Claros para Belo Horizonte na madrugada anterior, mas não resistiu aos ferimentos. Ainda há 25 pessoas – sendo 21 crianças – internadas em hospitais da capital e do norte de Minas. Nas últimas três noites, dezenas de janaubenses se reuniram em frente à portaria da Fundajan para fazer correntes de oração pelas vítimas. Homenagens, de vários lugares, não param de chegar na calçada da creche, que passou por perícia e está interditada. Em meio a velas e ramalhetes, destaca-se um pedido singelo: “Se alguém puder, coloque flores no pátio da creche, por favor”.

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