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Liam Gallagher: “Sou o músico mais importante da Inglaterra”

O ex-vocalista do Oasis lança seu primeiro disco solo, ‘As you were’

Liam Gallagher em Madri
Liam Gallagher em Madri

Soa estranho: a essas alturas da vida, Liam Gallagher (Manchester, 1972), que foi uma superestrela com o Oasis, veste a roupa de debutante com o lançamento de seu primeiro disco solo. Mas algo soa ainda mais estranho: o maior falastrão da música britânica, e além disso um personagem cheio de conflitos, que gosta de polêmica, se mostra amável e receptivo. “Como você está, cara? Pegue essa cadeira, por favor. Quer um café?” Esta é a primeira frase que solta no início de uma entrevista feita em um dos camarins do festival Dcode [realizado em 9 de setembro passado em Madri], onde duas horas depois tocaria para uma plateia devotada para apresentar algumas das canções de seu álbum, As You Were, o primeiro que leva seu nome e sobrenome, já sem o Beady Eye, um grupo fracassado que liderou com outros membros do Oasis.

“O objetivo desse disco era não ter nenhum objetivo. É um reflexo da minha vida atual. Apesar de isso não ser muito bem o que quer dizer”, conta enquanto retira o café recém-preparado por ele mesmo. Ao se sentar, com sua camiseta regata e suas calças curtas, como se fosse dar um passeio pelo campo, do jeito que se apresentará pouco depois, se põe a cantar um verso do novo álbum e move rapidamente as mãos, como tocando uma bateria imaginária. “Sim, cara, é minha vida. Nada mais. É sobre minha situação atual, sem política no meio e todas essas loucuras.”

Produzida por Greg Kurstin, que trabalhou com Adele, Katty Perry, Red Hot Chili Peppers, Beck e no último do Foo Fighters, As You Were é uma obra com uma forte herança do Oasis, nesse pop rock descarado de melodias enérgicas, chegando a parecer que o cantor não abandonou a banda que mais marcou a geração dos noventa no Reino Unido, em canções como Wall of Glass, Greedy Soul e as mais lentas For What It's Worth e Paper Crown. Ainda que se permita alguma exploração sonora interessante em Chinatown. Mas o tempo passou para o mais novo dos Gallagher, que fala de seu divórcio e reconhece tem consciência do grande peso que o Oasis ainda representa para ele. “Adoro meu passado, cara. Não o rejeito. O que digo é que este disco é uma proclamação fodida de viver o momento, o lugar, o agora”, afirma. “Não é possível viver imaginando seu futuro, se você não souber viver no presente. O passado passou e você não pode mudá-lo. E nunca penso no futuro. Nem no próximo disco, nem no amanhã... Penso no presente. Agora mesmo estou pensando nos espanhóis, neste show que vou fazer, em sair ali fora e dizer para as pessoas: ‘Viva o momento, cara’.”

Liam Gallagher vive o momento. E o faz à sua maneira: uma forma peculiar de extravagância, sedução e egocentrismo, mas sempre com a sombra de seu irmão Noel, compositor dos hinos do Oasis e com quem teve discussões homéricas em mais de uma ocasião. Inclusive neste grande momento que representa o lançamento de seu primeiro disco solo o nome de seu irmão volta a ressoar, tirando dele o protagonismo. Noel, com uma carreira muito mais atraente artisticamente, lança seu álbum solo em novembro. “Não penso em meu irmão. Não vou falar dele nem de seus discos. Nada. Esta entrevista é comigo”, sentencia com gesto sério e o café terminado. Talvez por isso afirme: “Passei minha vida toda cantando. Sei muito bem como tenho de me colocar em um palco. Sei muito bem como tirar partido de uma música”, diz enquanto defende seu novo disco. Então, de repente, levanta-se e olha para um grande espelho e, depois de um ligeiro movimento de pernas, diz: “Ou se tem ou não se tem. Eu tenho”.

A última — ou penúltima? — vez que Liam avançou contra seu irmão foi por abrir o show do U2. Chamou Noel de “puxa-saco” de uma banda a qual, disse, nunca ouve. “Preferia comer minha própria merda do que escutá-los”, afirmou. Diante disso, descarta-se, portanto, qualquer possibilidade de ver o caçula dos Gallagher compartilhando o palco com a banda irlandesa. “Eu abrindo para o U2? Nãoooo... Nem fodendo! O U2 vai abrir para mim. Bono vai abrir para mim, cara.” Talvez porque a cafeína já tenha feito seu efeito chega o momento das frases bombásticas. “A música inglesa hoje em dia é totalmente tediosa. Falta paixão para todas essas bandas”, diz. “Sex Pistols. Eles tinham paixão”, acrescenta. Se põe a tocar agora uma guitarra imaginária. “Fazem você ficar entediado”, conclui. Então quem é o melhor músico britânico? “Eu sou o músico mais importante da Inglaterra agora.” Certeza? “Sim, eu.” Aponta para si mesmo. Isso já não soa estranho. Soa puro Liam Gallagher.

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