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Clarice Lispector em 2017: o segredo mais popular da literatura brasileira

Aos 40 anos de sua morte, memes da autora confundem sua produção, complexa e delicada, com autoajuda

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A escritora Clarice Lispector, em uma imagem de arquivo.

A biblioteca Clarice Lispector, em São Paulo, é um edifício público de concreto localizado na Lapa, um bairro de classe média relativamente próximo ao centro da cidade. Tem portas amarelas e azuis por fora; por dentro, principalmente pessoas idosas sentadas em meia dúzia de mesas redondas. Quase todo mundo sabe que a tal Lispector que dá o nome ao prédio era alguém importante, embora nem todos consigam identificá-la como a escritora brasileira mais traduzida e aclamada em décadas. E ninguém responde com a disposição de Lycia, uma adolescente de 14 anos e enormes óculos de acrílico que olhava as estantes metálicas nas paredes. “Acho que a conheço”, diz. E, depois de uma pesquisa no Google, mostra o celular: na tela, várias fotos em preto e branco de uma mulher linda e congelada em um gesto distante, como uma estrela de cinema dos anos quarenta. Em cada versão da foto, há uma frase diferente: “O verão está instalado em meu coração”. “Todo silêncio tem um nome”. “Este é meu problema: nunca fui de gostar pouco, ou gosto muito ou não gosto.” Todas as frases são atribuídas a Lispector, a mulher da foto, mas poucas realmente são. Lycia conclui: “Ainda não li livros dela, mas acho que gosto”.

Quarenta anos após sua morte, Clarice Lispector desfruta de uma enorme fama nas redes, transformada em um ícone da autoajuda adolescente. Para seus leitores mais sérios, os que defendem que arrancar suas frases do complexo e delicado contexto ao qual pertencem equivale a tirar sua alma, é apenas uma anedota ignominiosa. Para alguns jovens, é o que Lispector sempre foi. Mas também é um sintoma do complicado legado que a própria escritora, que nunca mostrou o menor interesse pela vida pública, deixou em seu país. “Clarice vive hoje um culto de sua imagem, mais do que de sua literatura”, destaca Yudith Rosenbaum, professora de literatura brasileira da Universidade de São Paulo e autora de dois livros sobre a escritora. “Por não conceder entrevistas, por ter se isolado e cercado sua vida de mistério e por preferir o silêncio às falas vazias, a escritora criou ao redor de si uma aura de inacessibilidade ao lado de uma legião de fãs idólatras". Ao longo das décadas, Lispector se transformou em um fenômeno muito difícil de ignorar, mas isso só piorou o problema da marca deixada na literatura brasileira por alguém tão difícil de classificar.

Acaba sendo difícil falar de Lispector, mesmo como escritora brasileira, porque suas obras parecem passar por cima da realidade terrena. Uma vez, em 1969, dedicou algumas das crônicas que escrevia no Jornal do Brasil ao tema da violência policial (porque os policiais haviam disparado 13 vezes contra um bandido famoso). Seu último romance, A Hora da Estrela, fala de uma garota que, assim como ela fez há anos, viaja do Nordeste ao Rio de Janeiro. E nada mais. Em quase 40 anos de produção, não há mais referências explícitas ao lugar nem à época que a rodeavam. Rosenbaum fala de uma referência implícita em alguns textos. “Ao tratar da mulher e do feminino em suas relações familiares nas décadas de 50 e 70 no Brasil  e poucos escritores o fizeram com tamanha profundidade  distingue-se o vínculo paradoxal da patroa com sua empregada, essa íntima estranha que habita o lar, misto de pertencimento e exclusão. Há várias crônicas de Clarice, publicadas no Jornal do Brasil entre 1967 e 1973, que trazem experiências da própria escritora com suas empregadas, cujos processos de espelhamento e diferenciação entre ambas revelam conflitos de classe, mantidos em surdina na cultura brasileira”. A acadêmica lembra que, no romance A Paixão Segundo G.H., o enredo é ambientado no quarto da empregada.

Da esquerda à direita, Mania Krimgold, Elisa, Clarice, Tania e Pinkhas Lispector ampliar foto
Da esquerda à direita, Mania Krimgold, Elisa, Clarice, Tania e Pinkhas Lispector

Quase tão inútil como tentar rotulá-la pelo conteúdo de seus textos é estudar sua forma. Seu estilo, entre a poesia e a prosa, de pintar os detalhes cotidianos de espiritualidade e de usar a primeira pessoa em histórias em que ela não é um personagem, mais a afasta do que a aproxima de seus contemporâneos: não se parece com ninguém e sua visão não lembra nenhum movimento. “Ela se diferenciou do neoregionalismo dos anos trinta, que dominou boa parte do período literário em que surgiu. Mais afeita às influências do romance introspectivo ou intimista, herdeira da prosa de ficção católica francesa, Clarice ainda assim não se vincularia inteiramente a nenhuma dessas duas vertentes,” avalia Rosenbaum. Benjamin Moser, autor de Clarice, a biografia que em 2009 galvanizou a fama internacional da escritora, também resiste à classificação: “Ler Clarice é uma experiência muito pessoal. Falar dela no código nacional ou acadêmico é uma péssima ideia, é permitir que um grupinho sem imaginação enterre uma artista em um túmulo empoeirado”, afirma. “Clarice é melhor descrita como uma amante com a qual alguém tem momentos de luz, de amor, de sexo e de morte. Isso soará exagerado para aqueles que não a leram, mas, para aqueles que sim, parecerá óbvio e até mesmo um pouco limitado.”

Lispector morreu em 1977. Sua influência sobre futuros escritores do país acabou por ser mais problemática do que o esperado. Muitos tentaram ocupar seu espaço e, durante anos, proliferaram imitações de seu estilo: algumas excessivamente místicas, outras simplesmente impenetráveis. Outros escritores fugiram de sua temível sombra. Caio Fernando Abreu, um escritor dos anos setenta e oitenta que hoje também passa por um revival, 20 anos após sua morte, recusou-se a ler a obra de Lispector para não se contaminar. Não foi o único. “Um jovem escritor de São Paulo me disse que, depois de Clarice, muitos brasileiros sentiram que não tinham nada a dizer”, lembra Moser.

"Por não conceder entrevistas, por ter se isolado e cercado sua vida de mistério, criou ao redor de si uma aura de inacessibilidade ao lado de uma legião de fãs idólatras"

Ao mesmo tempo, a visão universal de Lispector ajudou sua obra a ganhar terreno no exterior. Em 1954, foi publicada na França a primeira tradução de um romance da escritora. Em Nova York, o primeiro foi lançado em 1964; já nos anos oitenta, os títulos em inglês haviam se multiplicado. A editora Schöffling & Co. comprou os direitos em alemão, e a Siruela fez o mesmo em espanhol. “Ela sempre foi uma figura de culto, mas apenas entre os especialistas, como um segredo bem guardado. Foram as traduções e o interesse que começou despertar no exterior que a transformaram em um fenômeno brasileiro”, opina o editor e escritor Pedro Corrêa do Lago. O prestígio de outros países completou a equação. Com um estilo tão peculiar que se limitava à sua obra, tendo cultivado muito pouco sua faceta pública e com seu nome mais endossado pelo estrangeiro do que pelo próprio país, Clarice Lispector passou a ser uma figura de culto. Mais algumas décadas nesse caminho e estaria protagonizando memes para a próxima geração.

Pelo menos por enquanto, desde que sua presença permaneça relativamente próxima no tempo. Seu valor para o país é claro: “É, juntamente com Guimarães Rosa, a grande escritora da segunda metade do século XX”, diz Corrêa do Lago. Talvez seja questão de que, com o tempo, acabe encontrando um espaço que não dependa de representar ou não a mentalidade brasileira. “E Shakespeare representava a mentalidade inglesa? Ou Cervantes, a espanhola? No início, claro que não: eram simples escritores, e Dom Quixote poderia ter sido escrito na França tanto quanto Hamlet poderia ter sido escrito na Itália”, protesta Moser. “Mas os grandes artistas sabem projetar, de uma maneira muito estranha, uma visão muito excêntrica e pessoal sobre os falantes de todo um idioma, e também sabem fazer com que acreditem que essa visão é sua. Assim, é impossível imaginar o espanhol sem Cervantes, o inglês sem Shakespeare, e o português sem Clarice.”

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