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COLUNA

Meus romances brasileiros preferidos

Outra lista, desta vez contemplando apenas autores nacionais, limitada a autores que já se foram e livros publicados até 1977

Alguns leitores que consultaram a lista dos meus romances preferidos, publicada na edição passada, solicitaram outra, desta vez contemplando apenas autores nacionais. Aceitei arrolar minhas predileções, mas, neste caso, tenho que explicar e justificar algumas opções. A primeira delas: limitei-me a autores mortos, com a raríssima exceção de Raduan Nassar, que deixou de escrever ainda nos anos de 1970. Portanto, circunscrevi meu universo de escolhas até àquela década – o título mais recente é “A hora da estrela”, de Clarice Lispector, publicado em 1977. Outra observação importante: achei melhor citar apenas uma obra de cada autor, mas alguns deles poderiam, com certeza, estar aqui presentes com mais de um trabalho (casos de Machado de Assis e Graciliano Ramos, por exemplo). Finalmente, repito: trata-se de uma lista inútil, por subjetiva e aleatória, mas que talvez, como a outra, desperte curiosidade a respeito de um autor ou de um título. Eis tudo, que é nada...

Os 20 melhores romances, por ordem alfabética:

A chuva imóvel (1963), de Campos de Carvalho (Uberaba, MG – 1916-1998) – O absurdo e o lirismo marcam esse questionamento amargo sobre a morte. Sem possuir uma trama ou um claro fio condutor, o narrador nos conduz pelos terrenos úmidos e traiçoeiros da memória, neste que talvez seja, de seus quatro livros, o único em está ausente o humor. (José Olympio)

A hora da estrela (1977), de Clarice Lispector (Ucrânia – 1920-1977) – Sofisticada narrativa que mistura uma aguda consciência dos problemas sociais com uma elaborada discussão sobre o papel do intelectual em um país do Terceiro Mundo. Rodrigo, o escritor, discute seu processo de escrita, enquanto compõe a história da datilógrafa nordestina Macabéa. (Rocco)

A menina morta (1954), de Cornélio Penna (Petrópolis, RJ – 1896-1958) – O autor registra um dos mais poderosos retratos da escravidão no Brasil por meio do impacto provocado pela morte da filha de um barão do café fluminense nos habitantes da fazenda. Narrativa sombria, é um alentado estudo sobre os recônditos da alma humana. Infelizmente, fora de catálogo.

A Viúva Simões (1897) - Júlia Lopes de Almeida (Rio de Janeiro, RJ – 1862-1934) – A autora, injustamente desprezada pela crítica, urde neste livro uma corajosa e ousada trama em que mãe e filha disputam o amor pelo mesmo homem. Antirromântica, desenha uma mulher que, rompendo com padrões sociais, coloca em xeque valores de todos os tempos. (Mulheres – esgotado)

Crônica da casa assassinada (1959), de Lúcio Cardoso (Curvelo, MG – 1912-1968) – Romance sobre a decadência social e moral de uma tradicional família mineira, usa de uma complexa estrutura narrativa para falar de incesto, adultério, homossexualismo, loucura. A atmosfera de pesadelo nasce de um olhar intermediado pela poesia. (Civilização Brasileira)

Fogo morto (1943), de José Lins do Rego (Pilar, PB – 1901-1957) – Último volume do chamado “ciclo da cana-de-açúcar” mostra, com a decadência do Engenho Santa Fé, não só o fim de uma era econômica, mas principalmente a transformação de um mundo, cujos valores baseiam-se na violência, física e psicológica, na ignorância e na corrupção. (José Olympio)

Grande Sertão: veredas (1956), de Guimarães Rosa (Cordisburgo, MG – 1908-1967) – Riobaldo Tatarana desfia sua história num jorro compacto, servindo-se de uma linguagem arrebatadora. Seu companheirismo com Diadorim na jagunçagem pelos sertões de Minas Gerais encobre segredos e dúvidas, a respeito do visto e do indizível. (Nova Fronteira)

Lavoura arcaica (1975), de Raduan Nassar (Pindorama, SP – 1935) – Autópsia de uma família cujos valores, baseados na culpa e na punição, engendram a intolerância e a frustração. Narrado de forma não linear, conta a história da fuga de André da sombra castradora do pai, e sua volta para casa, o que acabará gerando uma tragédia. (Companhia das Letras)

Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis (Rio de Janeiro, RJ – 1839-1908) – Dedicado “ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver”, marca a entrada de Machado de Assis no rol dos maiores autores da literatura universal. Cínico e sarcástico, fala ao Brasil de todos os tempos. Há inúmeras edições, das excelentes às péssimas.

Memórias de um sargento de milícias (1854), de Manuel Antônio de Almeida (Rio de Janeiro, RJ – 1831-1861) – Narrativa que beira o picaresco em uma época de domínio das histórias românticas, tem como protagonista um sujeito que tudo faz para se dar bem na vida. Espécie de ilustração do homem comum brasileiro. Há inúmeras edições, das excelentes às péssimas.

Memórias sentimentais de João Miramar (1924), de Oswald de Andrade (São Paulo, SP – 1890-1954) – Escrito em fragmentos e em estilos os mais diversos, usa do sarcasmo para expor a vida do protagonista, João Miramar. Ao fim e ao cabo, trata-se da visão de mundo da elite brasileira, com seu autismo social e absoluto desprezo pelo país. (Globo – esgotado)

O Ateneu (1888), de Raul Pompéia (Angra dos Reis, RJ – 1863-1895) – “Romance de formação”, acompanha as agruras de um sensível garoto de 11 anos no universo de um colégio que prima pela disciplina. Microcosmo da sociedade do fim do século XIX, expõe a violência e a crueldade por trás da fachada da moralidade. Há inúmeras edições, das excelentes às péssimas.

O cortiço (1890), de Aluísio Azevedo (São Luís, MA – 1857-1913) – Romance coletivo, expõe, de maneira brilhante, o processo de formação social do Brasil, por meio de histórias paralelas. O aristocrata decadente, o burguês ignorante em ascensão, a miséria atávica a que está agrilhoada a população pobre. Há inúmeras edições, das excelentes às péssimas.

O risco do bordado (1970), de Autran Dourado (Patos de Minas, MG – 1926-2012) – Memorial afetivo, acompanha a visita João Fonseca Ribeiro, alter ego do autor, à mítica cidade do interior de Minas Gerais, Duas Pontes. Pelas ruas ele esbarra, todo o tempo, com lembranças que reavivam o passado, contaminam o presente e determinam o futuro. (Rocco)

O tempo e o vento (1942, 1951, 1962), de Érico Veríssimo (Cruz Alta, RS – 1905-1975) – Composta por sete tomos, o leitor acompanha mais de um século e meio de história do Brasil – centrada na formação do Rio Grande do Sul, pouco a pouco se espraia para o resto do país. Um dos painéis mais completos sobre a mentalidade política nacional. (Companhia das Letras)

Os ratos (1935), de Dyonélio Machado (Quaraí, RS – 1895-1985) – Naziazeno tem uma dívida com o leiteiro. Para saldá-la, percorre por um dia inteiro as ruas de Porto Alegre em busca de alguém que possa lhe emprestar dinheiro. Narrativa do desamparo, possui tal maestria que o real a todo momento parece se dissipar numa quase irrealidade. (Planeta)

Recordações do escrivão Isaías Caminha (1909), de Lima Barreto (Rio de Janeiro, RJ – 1881-1922) – Culto e refinado, o protagonista não consegue se inserir na sociedade porque é negro. Narrativa sobre o preconceito racial, descreve uma realidade, do começo do século XX, que pouco difere da dos dias atuais. Há inúmeras edições, das excelentes às péssimas.

Sargento Getúlio (1971), de João Ubaldo Ribeiro (Itaparica, BA – 1941-2014) – O protagonista é encarregado de levar um preso político até Aracaju. No trajeto, há uma reviravolta política e o coronel de quem o Sargento Getúlio é homem de confiança, emite uma contraordem, que ele não irá acatar, mergulhando-os em um mar de violência absurda. (Alfaguara)

São Bernardo (1934), de Graciliano Ramos (Palmeira dos Índios, AL – 1892-1953) – Paulo Honório expõe suas lembranças, de trabalhador de eito a grande fazendeiro, para tentar compreender seu fim, solitário e amargo. Ambicioso, cruel, inescrupuloso, avaro financeira e afetivamente, quanto mais acumula posses, mais intolerante se transforma. (Record)

Senhora (1875), de José de Alencar (Messejana, CE – 1829-1877) – Moça pobre, Aurélia recebe de herança uma grande fortuna e resolve se vingar das humilhações sofridas. Para isso, compra um marido, financeiramente falido. Retrato perfeito da substituição dos valores da aristocracia decadente pelos da burguesia ascendente. Há inúmeras edições, das excelentes às péssimas.

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