Análise
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‘Game of Thrones’ perdeu o rumo?

Estão chovendo críticas à série nas últimas semanas pela falta de verossimilhança em alguns aspectos. Este artigo contém ‘spoilers’

Emilia Clarke, como Daenerys Targaryen, em uma cena de 'Game of Thrones'.
Emilia Clarke, como Daenerys Targaryen, em uma cena de 'Game of Thrones'.

Faltando um capítulo para terminar a sétima temporada de Game of Thrones —e neste artigo vamos comentar o que aconteceu até agora, então cuidado com os spoilers—, as coisas estão ardendo nos Sete Reinos, literalmente. Jon, Daenerys, Sansa, Cersei, Arya, Tyrion, Jaime e companhia continuam tentando urdir alianças entre casas a fim de, de um lado, garantir para si o ansiado Trono de Ferro e, de outro, deter a grande ameaça vinda além-da-Muralha com os caminhantes brancos e seu exército de zumbis. Os Stark, os Lannister, os Targaryen e demais famílias prosseguem em suas tentativas, alheios à tormenta de comentários céticos gerados por alguns acontecimentos e circunstâncias dos últimos capítulos exibidos.

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A que já foi uma das séries favoritas de crítica e público se tornou agora alvo de críticas que colocam em dúvida a verossimilhança e a coerência interna desta obra de fantasia. É um mundo com dragões e zumbis, sim. Mas tudo até agora se mantinha dentro de sua lógica própria. Nos últimos capítulos, porém, dizem as críticas, a consistência foi pelos ares.

Restam apenas sete capítulos para o fim da série (o episódio deste domingo e os seis que comporão a oitava e última temporada, com data de exibição ainda a definir, mas distante). E em Game of Thrones agora a ação acontece a toda velocidade. Se em uma cena vemos um personagem em uma ponta do mapa, cinco minutos depois pode ser que esteja na oposta. Na verdade, esse poder de teletransporte corresponde a elipses temporais com as quais os responsáveis pela série economizam um tempo agora mais necessário do que nunca diante da proximidade do final. Naquelas longas viagens vimos os personagens se desenvolverem e estabelecer relações, e assim nos conectamos com eles. Mas a estas alturas já nos conectamos (ou não) e o desenvolvimento dos personagens abriu caminho para a ação e o espetáculo. As queixas de que a ação era lenta demais em temporadas anteriores se transformaram agora em protestos contra a celeridade. “Estão fazendo falta os três capítulos retirados desta temporada”, dizem possivelmente os mesmos que antes se queixavam de que não acontecia nada na série.

Com o sexto capítulo da temporada, Além da Muralha, as críticas dispararam. É um dos episódios mais espetaculares da série, mas muitos preferiram dedicar seu tempo a realizar cálculos temporais ou tentar medir a distância que podem percorrer correndo um homem, um corvo ou um dragão (!). O diretor do capítulo, Alan Taylor, tentou responder as críticas na revista Variety. “Temos consciência de que a gestão do tempo está sendo um tanto confusa”, diz Taylor. “Temos Gendry correndo de volta, corvos voando a uma certa distância, dragões tendo que voar a outra distância... Em relação à experiência emocional, passam uma noite escura na ilha em termos narrativos. Tentamos manter isso um pouco com o eterno crepúsculo do norte do Muro. Acho que houve um esforço para falsear a linha temporal um pouco sem dizer exatamente quanto tempo estivemos ali. Funcionou para algumas pessoas, mas não para outras. Parecem muito preocupadas com a velocidade possível de um corvo, mas há um elemento chamado ‘impossibilidade verossímil’ que é o que se tenta conseguir, mais do que uma ‘verossimilhança impossível’. Acho que estamos dando importância demais ao tema da verossimilhança, mas espero que a força da história prevaleça sobre tudo isso”.

Game of Thrones está traindo sua verossimilhança? Ou melhor, se estiver, isso realmente importa? Os fãs fizeram um pacto com a série: tudo bem, acredito que há dragões, que há um Rei da Noite que transforma os mortos em zumbis de seu exército, que Bran é o Corvo de Três Olhos com todos esses poderes... E o resultado é que quanto mais divertida ficou a série, quando a cada semana nos oferece um espetáculo visual superior, é quando mais furos encontramos, porque, dizemos, são eles que estão rompendo o pacto.

É óbvio que, se você parar para pensar, é possível ver as costuras de alguns acontecimentos. A quem pode parecer boa ideia ir buscar um morto-vivo e percorrer com ele os Sete Reinos para levá-lo a Cersei? De onde os caminhantes brancos tiraram essas correntes para tirar o dragão da água (e como engancharam as correntes no dragão)? A quem ocorre jogar pedrinhas nos mortos a partir da ilha em que se está abrigado? Não é uma coincidência que tio Benjen apareça bem na hora H e Daenerys chegue exatamente a tempo?

Tudo isso é questionável, sem dúvida. Mas não vamos deixar que o excesso de análises sobre as séries acabe com a nossa diversão. Vamos desfrutar desse enorme espetáculo que é Game of Thrones. Apesar de os corvos levarem mensagens mais rápido que o WhatsApp ou que Jon Snow de repente comece chamar Daenerys de Dany.

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