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Melhor que “vossas senhorias” votem desta vez em silêncio

A nova votação a favor ou contra outro presidente da República, com uma distância de apenas 15 meses, é mais grave do que pode parecer

impeachment Dilma Rousseff
Deputados a oposição protestam. AP

Passado menos de um ano e meio da votação no Congresso sobre o impeachment de Dilma, de novo os deputados estão convocados para nesta quarta-feira, 2 de agosto, decidir o destino de seu sucessor, o presidente Temer, desta vez por suposto crime de corrupção

Não é estranho que segundo a última pesquisa Datafolha 49% dos brasileiros, quase a metade da população, declare ter vergonha de seu país e muitos desejem emigrar. Milhares já o fizeram. Esse índice era só de 20% há muito poucos anos. Que o voto dos congressistas, proclamado em consciência e sem arroubos oratórios, sirva para demonizar essa vergonha dos brasileiros por seu país e não para exacerbá-la. Não estamos diante de uma partida de futebol. É o destino de um país império, que há apenas nove anos era invejado fora de suas fronteiras e, ao contrário de hoje, os brasileiros que trabalhavam no exterior desejavam voltar orgulhosos para sua terra. E com eles não poucos europeus.

Desta vez vossas senhorias terão a oportunidade de dedicar seu voto a alguém somente se assim desejarem e se inscreverem antes. Os que usarem tal direito para fundamentar seu voto a favor ou contra Temer que, por favor, nos poupem o vexatório espetáculo do impeachment de sua antecessora Dilma. Naquela ocasião as homenagens foram muito originais e sensatas, como "pela minha sobrinha Helena", "para evitar que as crianças aprendam sexo nas escolas", "por meu neto", "por minha filha que ainda não nasceu". E até "por meu cachorro".

Claro que houve votos mais profundos como as homenagens a Deus, dos evangélicos, ou as do hoje candidato à Presidência, o militar da reserva Jair Bolsonaro, que ofereceu seu voto ao coronel Ustra, torturador de Dilma durante a ditadura militar. Houve até os pragmáticos: "pelos vendedores de seguros do Brasil". Todas aquelas centenas de votos eram proclamadas muitas vezes entre lágrimas e soluços. Homenagens que chegavam até a torturar a sintaxe. "Nem sequer sabem gramática!", se desesperava uma poeta ao ouvir suas senhorias, escutando como erravam concordâncias e tempos verbais.

Desta vez é possível que a maioria escolha votar em silêncio, com um "sim" ou "não" ou "eu me abstenho" para nos poupar o constrangimento de seus votos criativos e iluminados. Mas se lhes parecer que isso é muito pouco para um momento tão crucial para a nação, que lhes permitam agregar ao "sim" ou ao "não" algum elemento gestual, como levantar os braços ao céu os que desejam que Temer se vá ou os braços caídos os que preferem não vê-lo derrotado. Ou com os olhos fechados os em favor de que não possa ser julgado e com os olhos bem abertos os que preferem vê-lo fora.

Os que desejam desta vez justificar seu voto ou homenagear alguém, muitas de suas senhorias deveriam ser agradecidos e dedicar seu voto (os a favor de que Teme fique) com um "obrigado, Presidente, pelo presente que me enviou", "voto sim para que me salvem das iras de juízes e procuradores".

E se houvesse surpresas? Se algum deputado se pusesse a votar com um "Viva a Lava Jato e o juiz Moro!"? Seria perigoso, porque naquele templo onde mais da metade de seus fiéis andam com problemas com os tribunais é possível que uma homenagem à luta contra a corrupção política produzisse os efeitos de Sansão com as colunas do templo. Poderiam todos acabar sepultados sob os escombros da provocação.

Ironia? Não. A nova votação a favor ou contra outro presidente da República, com uma distância de apenas 15 meses, é mais grave do que pode parecer. Melhor que o Congresso nos poupe um novo vexame nacional.

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