Na volta ao Senado, Aécio Neves se diz indignado com a injustiça

Senador, afastado desde 18 de maio, reclama que foi condenado "sem chance de defesa"

Aécio Neves discursa no Senado
Aécio Neves retorna ao Senado nesta terça Ag. Senado

Após passar mais de um mês afastado do Senado por determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin, o senador Aécio Neves (PSDB-MG), voltou nesta terça-feira ao plenário da Casa. Seu retorno se deu graças a uma outra determinação do Supremo, desta vez do ministro Marco Aurélio Mello, despachada na última sexta-feira. Na tribuna, o senador tucano fez um discurso de mais de 20 minutos dizendo que não cometeu crimes e que foi condenado "sem chance de defesa".

Aécio iniciou seu discurso dizendo sentir um "conjunto de sentimentos". Afirmou que sofreu com o afastamento, mas teve seu mandato garantido pelos mais de sete milhões de votos que recebeu em seu Estado, Minas Gerais. Em 18 de maio, o Supremo determinou seu afastamento do cargo de senador por ter pedido 2 milhões de reais aos sócios do frigorífico JBS, recursos estes considerados propina dentro das investigações da Lava Jato. Na época, o Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, pediu a prisão do parlamentar e seu afastamento da presidência do PSDB, mas Fachin, que é  relator da investigação no STF, negou a prisão. Aécio segue afastado da presidência de seu partido.

No retorno à Casa, Aécio se diz indignado com a injustiça que sofreu. "Entre todos esse sentimentos, sem dúvida, o da indignação contra a injustiça e o da tristeza que acaba por atingir, de forma mais profunda, aqueles que mais amamos, foram os que mais de perto me acompanharam nesses dias tormentosos", disse ele, que leu o seu discurso. No dia em que o ministro Fachin determinou seu afastamento, também autorizou a prisão da irmã do senador, Andrea Neves, por suspeita de ajudá-lo no esquema criminoso. No último dia 20, o Supremo enviou Andrea para a prisão domiciliar.

Aécio relatou que ao longo deste período, em nenhum momento perdeu a serenidade e o equilíbrio e que todas as pessoas sabem a extensão dos seus atos. Relembrou momentos de sua trajetória política e disse sempre ter respeitado a ética e ter honrado os votos que recebeu. "Não me furtarei de reiterar aqui aquilo que venho afirmando ao longo de todas essas últimas longas semanas", disse o tucano. "Não cometi crime algum (...) Fui, sim, vítima de uma armadilha engendrada e executada por um criminoso confesso de mais de 200 crimes, cujas penas somadas ultrapassariam mais de 2.000 anos de cadeia".

O senador se refere ao empresário Joesley Batista. Em delação premiada, o dono da J&F apresenta uma conversa entre ele e Aécio no qual eles tratam de um suposto acordão envolvendo todos os partidos atingidos pela Operação para anistiar o caixa 2, o que na prática inviabilizaria muitos dos processos da Lava Jato. O tucano aproveitou para dar sua versão para o encontro com Joesley. "Procurei, sim, esse cidadão cuja face delinquente o Brasil ainda não o conhecia e, por meio de minha irmã, reitero, ofereci a ele a compra de um apartamento de propriedade de minha família e que já havia sido oferecido a pelo menos outros quatro empresários brasileiros", disse. Aécio afirmou que precisava vender o imóvel para poder arcar com despesas com seu advogado. "Tenho que me desfazer de parcela do patrimônio familiar exatamente porque não obtive jamais, em tempo algum, vantagens financeiras através da política".

Os gastos do senador com advogados devem, de fato, tomar boa parte de seu patrimônio – estimado na eleição de 2014 em 2,5 milhões de reais. Isso porque o tucano responde, atualmente, a pelo menos sete inquéritos no Supremo. As acusações vão desde ter recebido 30 milhões de reais da Odebrecht, conforme delatores da própria empreiteira, até lavagem de dinheiro, formação de cartel e fraude.

No caso mais antigo envolvendo o parlamentar, de 2007, dois delatores da Odebrecht afirmaram que o tucano recebeu propina de 3% de empreiteiras que ergueram a Cidade Administrativa, a sede do Governo de Minas Gerais, inaugurada em 2010. Os valores entregues superam 5,2 milhões de reais. Delatores da Odebrecht também acusam Aécio de ter recebido 50 milhões de reais de Marcelo Odebrecht, em troca de apoiar a empreiteira nas obras das hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, ambas em Porto Velho, em 2008. A irmã do senador, Andrea, seria a titular de uma conta no exterior que recebia esses pagamentos.

De volta à tribuna, o tucano admitiu ter errado apenas por ter se envolvido "nessa trama ardilosa". Mas negou ter obstruído quaisquer investigações, acusação feita pela Procuradoria Geral da República. "Fui vítima de manipulação de alguns, da má-fé de muitos e, sobretudo, de julgamentos apressados".

O senador encerrou sua fala na tribuna lembrando do seu papel e de seu partido na aprovação de projetos como a PEC do teto de gastos e da reforma do Ensino Médio. No final, pediu que o Governo "reconsidere" a decisão de não conceder reajuste ao Bolsa Família. O anúncio da suspensão do reajuste foi feito no último dia 30. "Encerro meu pronunciamento, com a constatação... de que as maiores vítimas de toda essa crise por que passa o Brasil são aqueles brasileiros que menos têm e mais precisam do apoio do Estado", disse o senador.

O desgaste  depois das gravações da JBS e seus desdobramentos agravaram o quadro de erosão do apoio popular ao nome de Aécio e parecem ter frustrado suas pretensões de concorrer à presidência da República em 2018. Em abril, quando denúncias envolvendo seu nome vieram à tona a partir das delações da Odebrecht, era um dos candidatos mais rejeitados numa pesquisa Datafolha. Especulava-se que teria rebaixado suas expectativas e tentaria um novo mandato no Congresso no ano que vem. Cada vez mais implicado na Lava Jato, seu futuro político é uma incógnita.

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