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“Aqui vivemos tão grudados uns aos outros que os casais discutem, em silêncio, por WhatsApp”

Cerca de 1,5 milhão de pessoas vivem sem título de propriedade e amontoados em favelas na Argentina

Três moradores de vila Fraga, favela próxima ao cemitério La Chacarita, em Buenos Aires.
Três moradores de vila Fraga, favela próxima ao cemitério La Chacarita, em Buenos Aires. EL PAÍS

Os argentinos Germán e Noelia Aguilar jamais esquecerão o dia em que compraram sua casa. Não havia testemunhas, banco ou notário. O vendedor não tinha um único papel em cima da mesa de jantar, onde agora se sentam para contar sua história. “Eu estava muito nervosa. Sempre existe o medo de que venha um suposto dono verdadeiro para tirar a casa da gente, porque ninguém garante que o lugar que você compra seja realmente seu”, relata Noelia. O casal entregou uma bolsa com dinheiro, mais de 20.000 dólares (cerca de 63 mil reais), recebeu as chaves da propriedade, e o negócio foi selado com um simples aperto de mãos. Foi como se estivessem comprando um armário. O suposto dono do imóvel pegou o pagamento e desapareceu – os dois acreditam que o homem vive no sul da Argentina , “por sorte” –, e Germán e a esposa ficaram com a “casa”, um imóvel de pouco mais de 25 metros quadrados com beliches na sala de jantar para os filhos – Noelia tem sete de relações anteriores, embora nem todos vivam sempre na casa- e um pequeno quarto para o casal.

A moradia, que em realidade é um barraco de tijolos com as paredes danificadas pela umidade, fica no bairro Güemes, a zona mais antiga da Vila 31, a mais famosa de Buenos Aires, em pleno centro da cidade, a algumas centenas de metros do hotel cinco estrelas Sheraton. “Não existem documentos legais, mas as pessoas da comunidade sabem quem vende e quem compra”, afirma Germán. Cerca de 40.000 pessoas vivem amontoadas em edifícios precários de quatro ou cinco andares, construídos sem plantas nem alicerces, quase sempre sem escadas em seus interiores. “Não caem porque são construídos pelos mesmos paraguaios que fazem as casas nos bairros ricos, e eles são muito bons. Além disso, essas torres se apoiam umas nas outras”, conta enquanto mostra edifícios que cruzam os becos se escoram nos de em frente.

Ao contrário do que muitos pensam, a maioria dos moradores da vila são trabalhadores. Ao se passar pelo local às 5h da manhã, se podem ver as enormes filas que se formam à espera dos ônibus. São pedreiros, empregadas domésticas e pessoas com ofícios clássicos – Germán é ajudante de cozinha de um restaurante que fica às margens do Rio da Prata  – que acabam se mudando para o local por estar em pleno centro e ser um pouco mais barato. Além disso, é possível acordar um aluguel de palavra, sem burocracias. No resto da cidade, os proprietários pedem garantias que são impagáveis para esses trabalhadores de baixa renda, que muitas vezes possuem empregos informais.

Mais de um milhão e meio de pessoas vivem assim na Argentina, em vilas de miséria (favelas). Elas não possuem títulos de propriedade e ocupam terrenos públicos. Não pagam pela luz nem pela água, que tiram de onde podem. Por isso, esses locais estão rodeados de cabos e mangueiras, uma forma de abastecimento improvisada, que costuma se paralisar com frequência. O Governo de Mauricio Macri, apoiado por organizações sociais como Teto, Confederação de Trabalhadores da Economia Popular (CTEP), Bairros de Corrente Classista e Combativa (CCC), realizou um grande censo preliminar que constatou a existência de 4.100 assentamentos onde vivem 400.000 famílias, compostas por 1,5 milhão de pessoas. Já se sabe, oficialmente, que estão aí. Agora, o Estado entregará um “certificado de moradia” que poderá ser usado por esses cidadãos para contratar serviços de água e luz, e passar a existir, formalmente, para o Governo e para as empresas privadas. Esse é o primeiro passo para uma futura obtenção de um título de propriedade por parte dos moradores. No entanto, o poder Executivo admite que ainda faltam muitos anos para que isso seja possível. O que parece bastante claro é que, salvo exceções, essas pessoas não serão despejadas de suas casas. Ninguém se atreve. Eles estão muito bem organizados para serem impedidos de continuar em suas casas.

A Vila 31 pode ser vista de longe, invade a autoestrada de acesso ao centro de Buenos Aires, mas para conhecer sua crua realidade é preciso se aproximar. O cheiro é muito forte. E é fundamental estar sempre atento e olhar para cima, porque, a qualquer momento, algum morador joga água, ou coisa pior, pela janela. “O que mais me impactou quando cheguei foi o fedor. No verão é horrível. Quando chove, a água entra por todos os lugares. Além disso, moramos muito perto uns de outros. Cada vez que o vizinho usa o banheiro os canos fazem tanto barulho que parece que a casa vai desmoronar”, conta Noelia enquanto mostra um cano que atravessa a sua cozinha e vai do teto até parede que dá para a rua. “Aqui não costumam roubar as casas. Vivemos tão pegados uns aos outros que sempre tem alguém de olho. Agora mesmo, os vizinhos estão escutando toda a nossa conversa”, afirma Germán entre risos. “Aqui estamos tão amontoados que passamos a discutir por WhatsApp, cada um em um lado da cama, para que os demais não fiquem sabendo. Muitos na vila fazem a mesma coisa”, explica Noelia. O casal vivia em um bairro de classe média, mas perderam sua casa e acabaram na favela. No entanto, esperam que essa não seja uma mudança definitiva em suas vidas. “Deus, conceda-me serenidade para aceitar as coisas que eu não posso mudar”, diz uma placa pendurada na porta da casa do casal.

"Eu me divirto aqui no verão, armo minha piscina, faço churrasco e tenho a melhor vista do bairro".

Na vila, muitos pensam que o plano do Governo não é mais que uma nova promessa em pleno ano eleitoral. “Como cantava Serrat: Gloria a Deus nas alturas, recolheram o lixo da minha rua, que ontem estava às escuras e hoje está cheia de lâmpadas”, diz Germán entre risos. Ainda assim, todos alimentam o sonho de ter, algum dia, seus títulos de propriedade. Principalmente aqueles que, como Germán ou Félix, um peruano que vive em vila Fraga (um assentamento menor, perto do cemitério de La Chacarita), trabalharam duro e suaram a camisa para comprar seus espaços. Félix e sua mulher se dedicam a fábricas de costura, a especialidade de peruanos e bolivianos. “Fazíamos de tudo de 6h à meia-noite. Tínhamos umas poucas horas para dormir. Meu cunhado cuidava dos nossos filhos. Assim, conseguimos economizar e comprar a nossa casa por 280.000 pesos argentinos (57.700 reais). Agora, temos medo de que nos despejem. O lugar onde moramos é tudo o que temos. Ninguém consegue alugar um imóvel na cidade sem garantias e com cinco filhos. E comprar algo em outro lugar é impossível para mim”, afirma. Félix comprou uma casa de um andar na vila, e construiu outros três em cima para garantir certo conforto para seus cinco filhos. Ele mostra, com orgulho, sua moradia recém-terminada, apesar de todo o barro e sujeira que a rodeiam e dos dependentes químicos que costumam circular pelas ruas da região.

Essa vila é bastante particular porque seus moradores quiseram ser diferentes. Não gostavam da ideia de fazer gato para roubar luz. Por isso, contrataram linhas e instalaram medidores em muros que rodeiam a favela, para que todos possam vê-los. Existir e buscar um mínimo de legalidade é um fator-chave, já que nem sequer o correio chega às casas. Todas as cartas são empilhadas na grade de um quiosque que fica na entrada da comunidade, e cada um pega a sua.

O mercado está em alta. Nenhuma casa fica vazia. A crise leva cada vez mais gente da cidade às favelas. Algumas comunidades chegaram a duplicar seu número de habitantes nos últimos 15 anos. Petronila Yayanaco, também peruana, está há quase 10 anos na Argentina. Ela trabalha limpando escritórios e seu marido é eletricista. “Paguei 85.000 pesos argentinos (17.500 reais) pelo ar”, conta, entre risos, sobre ter comprado o direito a construir uma casa em cima da de outro senhor. Não assinaram papéis, mas confiaram na palavra um do outro. O dono do imóvel vendeu, depois, outro “ar” para mais uma senhora, que construiu um terceiro andar em cima do de Petrolina. Agora, ela teme que realizem obras para colocar mais um. “Não há ninguém a quem recorrer, nenhum documento, nada. Está tudo por um fio”, afirma.

As comunidades cheiram a esgoto entupido e o ruído de gente é constante. Pela porta passam vendedores de ovos, batatas, verduras, sorvetes, de tudo. Os moradores brigam entre si às vezes, mas se ajudam muito. Precisam uns dos outros e estão muito perto. Embora também haja narcotráfico e violência, tudo é flexível e informal. “Você quer luz? É muito fácil. Basta subir no poste, encontrar o polo positivo e o negativo, e conectar seu próprio cabo”, explica Germán. “Mas não espere que seja algo seguro. Falta luz o tempo todo. E ocorrem muitos incêndios. Os bombeiros não podem entrar porque o caminhão não passa. Também não há de onde tirar água para apagar o fogo”. As ambulâncias só passam com escolta policial, e não chegam a muitos pontos da vila. Outras se perdem. O GPS só diz “você está entrando em uma zona perigosa”. No entanto, é possível conseguir absolutamente qualquer coisa dentro da comunidade. “Tem de tudo aqui, só falta um caixa eletrônico; mas acho que é melhor assim, senão nos converteríamos em um gueto. Como a grana está fora, isso nos obriga a sair e ir à cidade”, opina Germán.

As favelas são uma ferida aberta em um país como a Argentina, que foi um dos mais ricos do mundo. No entanto, representa também um enorme negócio que resolve um problema: os bairros ricos necessitam que os trabalhadores que não podem pagar altos preços estejam próximos. Alguns se aproveitam dessa situação, como é o caso de Augusto Ampuero, um peruano de 62 anos que mora há 22 na Argentina. Da varanda de sua casa, se vê bem o cemitério de La Chacarita, onde repousam os restos mortais do cantor e compositor Carlos Gardel. Ampuero trabalha como uma espécie de imobiliária na vila. Aluga cerca de sete quartos. “Eu seleciono as pessoas, não alugo para qualquer um. Se eu não conheço não tem acordo, porque há muitos traficantes que sujam a casa. Eles vêm de fora e como isso é uma comunidade eles acham que podem fazer negócios facilmente. Eu não tenho que me dar bem com os inquilinos, eles os que têm que se dar bem comigo. E se não for assim, boto na rua”, afirma.

“Ganho 10.000 pesos argentinos (2.060 reais) trabalhando das 9h às 13h; minha mulher é professora e recebe 7.000 pesos (1.442 reais). Com os aluguéis arrecado 20.000 pesos (4.120 reais). Assim, conseguimos chegar a uma renda de 37.000 pesos (7.623 reais)”, conta Ampuero. Com este salário extra, ele consegue ganhar acima da média da cidade. “Quando urbanizarem isso será o fim do meu negócio, mas me pergunto quando isso realmente acontecerá. Com sorte, daqui a cinco anos, e esse tempo para mim é suficiente. Eu me divirto aqui no verão, armo minha piscina, faço churrasco e tenho a melhor vista do bairro”, se regozija o morador. O Estado deixa brechas que são ocupadas de acordo com a lei do mais forte. Agora, vão tentar reorganizar essas comunidades. Levará anos, mas, pelo menos, esses cidadãos poderão sentir que existem oficialmente.

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