Comédia ‘The Square’, de Ruben Östlund, Palma de Ouro em Cannes

Sofia Coppola leva o prêmio de melhor direção por 'O Estranho que Nós Amamos', Joaquin Phoenix, melhor ator e Diane Kruger, melhor atriz

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O diretor sueco Ruben Östlund, após receber a Palma de Ouro do Festival de Cannes. AFP

O mundo ocidental está completamente idiotizado; só resta a constatação da derrocada e alguma tentativa de rebelião. É nisso que acredita o sueco Ruben Östlund, que com seu The Square ganhou a Palma de Ouro da 70ª edição do Festival de Cannes. Nenhum dos 19 filmes teve especial destaque, e é possível que o júri presidido por Pedro Almodóvar tenha acertado ao dar um pouco a todos os indicados. Entre os melhores estava The Square, com o qual Östlund, aos 43 anos, entra em um grupo de eleitos, o dos diretores com um prêmio cobiçado por todos os cineastas de arte e ensaio. Com seu filme anterior, Força Maior, ganhou o Prêmio do Júri da seção Um Certo Olhar e quase chegou ao Oscar. Nesse filme também havia momentos de vergonha alheia que em The Square são protagonizados por Christian, diretor artístico de um museu de arte contemporânea, um pai carinhoso com suas filhas, um motorista de carros elétricos e um homem que apoia causas humanitárias. Mas ao seu redor ocorrem acontecimentos – bastante surrealistas – que jogam contra ele e destacam sua estupidez, uma estupidez que na realidade é universal.

The Square engloba muitas ideias, e Östlund é ambicioso. Fez, entretanto, um filme sobre a cegueira do mundo ocidental, relevante nos dias de hoje. “Uma das grandes desgraças da atualidade é a ditadura do politicamente correto, e The Square fala do tema contando como seus protagonistas vivem um inferno por isso”, analisou Almodóvar após a entrega da Palma de Ouro.

Östlund, com a Palma em suas mãos, uma especial com diamantes pelo aniversário, lembrou de outros suecos com tradição em Cannes, que também influenciaram em seu trabalho, “como Roy Andersson”. “Eu espero que com o prêmio chame a atenção do público sobre o conteúdo do filme, porque é também por isso que fazemos filmes”, contou sorrindo. “Não vi os outros filmes, mas a competição estava cheia de nomes que respeito muito. Como Haneke; mas certamente não irei dividir essa palma com ele”, finalizou entre gargalhadas. Falando sério, ele disse ter encontrado certo paralelismo “entre o mundo da arte contemporânea e o do cinema”. “Aqui em Cannes vi exemplos simbólicos. Como quando vi outro dia um pedestre ser atropelado ao atravessar a faixa, em um lugar como a instalação The Square, a obra de arte que dá nome ao filme na qual um ser humano deveria se sentir seguro. E você pode ter certeza que na Escandinávia nós levamos a faixa de pedestres muito a sério”.

oaquin Phoenix com o prêmio de Melhor Ator em Cannes.
oaquin Phoenix com o prêmio de Melhor Ator em Cannes. REUTERS

Robin Campillo levou o Grande Prêmio do Júri com seu terceiro longa-metragem, 120 Batimentos por Minuto, na premiação mais aplaudida pela plateia. Nos três filmes como diretor ele demonstrou seu talento com os diálogos e as dinâmicas de grupo: Les Revennants (2004), sobre mortos que voltam â vida normal e que inspirou a série de mesmo nome da televisão francesa, e Garotos do Leste (2013). Em 120 Batimentos por Minuto mostra a luta, na França do início dos anos noventa, quando a AIDS já estava há uma década semeando o medo e a morte, dos militantes do Act Up-Paris para arrancar os franceses de sua indiferença geral. E enquanto protestam contra os laboratórios e o pequeno envolvimento do Governo de Mitterrand, surgem entre eles histórias de amor. “Não tenho como amar mais esse filme”, disse Almodóvar. “Mas esse é um júri democrático e eu sou uma nona parte dele. A maioria amou. Campillo conta a história dos verdadeiros heróis da luta contra a AIDS”, finalizou entre lágrimas.

A ideia de dar alguma coisa a todos fica demonstrada pelo Prêmio do Júri ao estupendo Nelyubov, de Andrey Zyvagintsev, o diretor russo que mostra em cada um de seus filmes a derrocada moral de seu país. O prêmio de melhor roteiro foi dividido ex aequo entre Yorgos Lanthimos, por The Killing of a Sacred Deer, e Lynne Ramsay, por You Were Never Really Here. O grego, bem situado no panorama internacional com filmagens em inglês, parecia esperar algo mais com sua história de destinos marcados e morte anunciadas. Mais discutível foi o reconhecimento de melhor direção a Sofia Coppola por O Estranho que Nós Amamos, menina dos olhos de Cannes, onde os Coppola sentem-se à vontade. Dito isto, o melhor é sua realização de um conto de fadas e o empoderamento feminino. Coppola é a segunda mulher na história de Cannes a receber esse prêmio.

O prêmio de melhor ator foi para Joaquin Phoenix, por You Were Never Really Here. Sábia decisão para um ator que sustenta toda a história em suas costas. Aqui, Phoenix, barbudo, acima do peso, encarna um veterano de guerra que deve resgatar a filha de um senador. Na plateia o norte-americano fez cara de quem não estava entendendo o que estava acontecendo até que quase o empurraram para receber o diploma com seu smoking e tênis.

O mesmo acontece com o trabalho de Diane Kruger em In The Fade: aparece em todas as cenas como uma mulher que pede justiça após o assassinato de seu marido e seu filho em um atentado neonazista. Existiam poucas rivais que podiam tirar o prêmio de uma atriz que, após 18 anos de carreira, fala nas telas pela primeira vez em sua língua materna, o alemão. O júri deu o prêmio 70° Aniversário a Nicole Kidman, que tinha até quatro trabalhos diferentes na competição.

Na entrevista coletiva após a leitura dos vencedores, Almodóvar contou que nunca chegou a escorrer sangue nas deliberações, que foram grandes conversas com critérios distintos, mas “sem violência”. As mulheres que faziam parte do júri discorreram sobre a falta de diretoras no cinema atual. Como disse a diretora alemã Maren Ade: “É preciso que existam mais mulheres na frente e atrás das câmeras pois dessa forma a indústria cinematográfica refletirá a sociedade atual”.

Sobre a vontade que tem o diretor espanhol em descobrir um novo A Doce Vida, Apocalypse Now e Viridiana, Almodóvar voltou atrás: “Disse uma loucura no começo da entrevista coletiva, a comparação com Coppola”. “Quando vi Viridiana era um garoto e senti um enorme impacto, e nesse festival voltei a sentir esse golpe. Vi mais de um filme que me impressionou muito. Mas não vamos compará-los com os grandes mestres. Precisamos de tempo para situar corretamente os filmes atuais”.

Ganhadores

Palma de Ouro: The Square, de Ruben Östlund.

Grande Prêmio do Júri: 120 Batimentos por Minuto, de Robin Campillo.

Prêmio do Júri: Nelyubov, de Andrey Zyvagintsev.

Melhor direção: Sofia Coppola, por O Estranho que Nós Amamos.

Melhor ator: Joaquin Phoenix, por You Were Never Really Here.

Melhor atriz: Diane Kruger, por In the Fade.

Melhor roteiro: ex aequo para Yorgos Lanthimos, por The Killing of a Sacred Deer e para Lynne Ramsay por You Were Never Really Here.

Melhor curta-metragem: A Gentle Night, de Qiu Yang.

Prêmio 70° aniversario para Nicole Kidman.

Câmera de Ouro: Jeune Femme, de Léonor Serraille.

Prêmio FIPRESCI da competição: 120 Batimentos por Minuto, de Robin Campillo.

Melhor filme da seção Um Certo Olhar: Lerd, de Mohammad Rasoulof.

Melhor filme da Quinzena de Diretores: ex aequo Un beau soleil intérieur, de Claire Denis, e L’Amant d’un jour, de Philippe Garrel.

Melhor filme da Semana da Crítica: Makala, de Emmanuel Gras.

Para o ano que vem o festival deverá repensar vários aspectos de sua seleção e de seu funcionamento: a Netflix continuará vetada, ao contrário da Amazon (que até levou um prêmio esse ano graças a Phoenix)? São necessárias tantas medidas de segurança, que impediram o trabalho dos jornalistas credenciados e o cumprimento dos horários das exibições? O festival continuará com suas escolhas de filmes de grandes nomes em detrimento de filmes de destaque? O cinema espanhol voltará em algum momento à competição? Com a palavra, Thierry Fremáux.

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