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Coluna
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Lá vamos nós, Diretas Já

Roteiro lírico e sentimental para embarcar na manifestação festiva e democrática de Copacabana

Manifestantes participam de protesto contra o presidente Michel Temer em Brasília.
Manifestantes participam de protesto contra o presidente Michel Temer em Brasília.Joédson Alves (EFE)

Um bom lugar, Diretas Já: Copacabana. Na levada do cancioneiro de Dorival Caymmi, o Brasil inicia domingo, no Rio, o caminho de volta à democracia. Só o voto na urna reanima essa terra em transe cujo filtro da melancolia dói na vista.

Ai de mim, Copacabana, ai de nós, Copacabana, diante de corja que já trama e recita os velhos nomes de sempre para as eleições indiretas no Congresso. E que Congresso íntegro e capaz! Se a gente cochila, epa, lá vem uma chapa tucano-peemedebista sob as bênçãos das instituições impolutas.

Tudo em nome da sagrada legalidade, eita, a mesma gente que vota uma PEC até pra mudar o horário de Bangu x Madureira -com todo respeito ao clássico dos suburbanos corações cariocas. Tudo em nome da moral reformista que afastará mais ainda a classe operária do paraíso, só para lembrar a letra de “Bolo de Ameixa” que escrevi com Fred Zero Quatro.

Simbora com as Diretas. No embalo de um samba de resistência no “Bip Bip” do Alfredinho, Copacabana abre alas para derrubar as tenebrosas transações de Brasília.

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Com a sustança de um caldo de siri na calçada d´O Caranguejo, ouviremos da estação Cantagalo o grito que depois, muito em breve, ecoará também no Ipiranga.

Sob efeito passional do melhor coração de galinha do mundo, o Galeto Sat´s será o templo dos novos conspiradores da madruga. Do anarquismo moreno ao neo-brizolismo baseado no poder energético tropical difundido por Gilberto Felisberto Vasconcelos.

Da cachaça cívica do Pavão Azul à vodka grudada ao iceberg bolchevique da taberna Polonesa, ressurge a campanha das Diretas, ali na geografia sentimental do delegado Espinosa.

O roteiro da retomada democrática passa antes, porém, na Adega Pérola. No fim da noite, vale um sanduba quixotesco no Cervates. Nada como lavar essa utopia em mil canecas de chope.

Estilhaços do lirismo de Rubem Braga, o Superbacana do Caetano, o lamento do Torquato Neto, as paralelas de Belchior e os acordes do partido alto... O mundo das Diretas já explode domingo em Copacabana.

Mano Brow e Criolo, alvorada lá no morro, do Cantagalo ao Babilônia, porque o Brasil precisa reescrever a a crônica das suas grandezas. Das redes dos pescadores da Z-13 -sob o olhar da estátua do Caymmi- à bandeira que se desfolha na pedra do Leme. Da saga “Favelost” do gênio Fausto Fawcett, trovador da área, ao “Passageiro do fim do dia” do escritor Rubens Figueiredo, o tímido apóstolo da rua Miguel Lemos.

Copacabana é o Brasil todo neste domingo e daqui virá a democracia renovada do pós-golpe parlamentar de 2016. “Copacabana dreams”, como no livro de Natércia Pontes.

Todo cuidado é pouco com as soluções de Brasília. O professor-filósofo Renato Janine Ribeiro nos alerta nas redes: “Não é curioso que nenhum nome cogitado para ser presidente em eleições indiretas tenha chance de se eleger se elas forem diretas?”, deixa a pergunta quicando no juízo. “E que os nomes para as diretas não estejam sendo mencionados para as indiretas? Até parece que são dois países”.

Ai de mim, Copacabana, ai de nós se o Brasil deixar o Congresso da Odebrecht e da JBS, entre outros donos, escolher o nosso destino. Só nos restará um grito de S.O.S. na galeria do amor, a Galeria Alaska.

Diretas Já e até o próximo manifesto.

Xico Sá, escritor e jornalista, é autor de “A pátria em sandálias da humildade” (ed. Realejo), entre outros livros. Comentarista dos programas “Papo de Segunda” (GNT) e “Redação Sportv”.

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