Futebol feminino

“É humilhante que tenhamos de nos trocar em banheiros públicos”

Seleção irlandesa feminina se rebela contra a federação pela precária situação de trabalho: “Pagamos para jogar por nosso país”

A seleção da Irlanda, depois da entrevista à imprensa.
A seleção da Irlanda, depois da entrevista à imprensa.

O futebol feminino volta a se rebelar contra as estruturas tradicionais. Desta vez, quem ergueu a voz foram as 14 jogadoras da seleção da República da Irlanda, em protesto pelas precárias condições de trabalho. Denunciam, entre outras coisas, a ausência de uma compensação financeira para cada partida. E também que em várias ocasiões se viram obrigadas a se trocar nos banheiros dos aeroportos nas viagens com a seleção: não possuem agasalho próprio e têm que dividi-lo com jogadoras de categorias inferiores. Para esta reclamação as jogadoras, que ameaçam fazer greve, contaram com o respaldo do sindicato de jogadores da Irlanda (PFAI), mas a federação não o reconhece como seu interlocutor.

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"É humilhante você ter de ir a um banheiro público para se trocar. Não custa muito dar à equipe um agasalho para viagem. Na verdade, me dá até vergonha falar disso”, afirmou na terça-feira em uma coletiva de imprensa a capitã Emma Byrne, jogadora do Arsenal Ladies, que tem 127 jogos pela seleção da Irlanda. “Basicamente, estamos pagando para jogar por nosso país”, lamenta Aine O’Gorman, de 27 anos, em declarações publicadas no site do FIFPro, o sindicato mundial de jogadores. Além de jogadora, O’ Gorman trabalha em período integral como treinadora pessoal. “Temos que pedir dias livres de trabalho para a seleção, mas não recebemos nada em troca. Em 2016, estive fora mais de 40 dias com a seleção nacional”, acrescenta.

As jogadoras avaliam se reforçam o protesto com um boicote. Em 10 de abril o calendário prevê um amistoso contra a Eslováquia, em Dublin, e elas ameaçam não entrar em campo. Entre as reclamações, exigem ser representadas pelo PFAI. Durante 18 meses, segundo explica o FIFpro, o sindicato tem admitido mulheres.

A federação irlandesa respondeu com um comunicado lamentando o ultimato das jogadoras da seleção e afirma que elas rejeitaram cinco convites para se sentarem e negociar. “A federação concordou em participar de um processo de mediação; no entanto, as jogadoras decidiram de todas as formas dar o passo seguinte com uma entrevista à imprensa da PFAI, em vez de um encontro com um mediador de consenso”, diz a nota. A Associação de Futebol da Irlanda (FAI) está disposta a discutir temas como a oferta financeira, um treinador de goleiras e condições de viagem.

A rebelião da Irlanda se soma a outras batalhas que o futebol feminino vem travando nos últimos anos. A última acabou na terça-feira, com o acordo ente a seleção dos Estados Unidos, atual campeã do mundo, e sua federação, depois de uma longa negociação. As jogadoras denunciavam fazia bastante tempo a desigualdade ente os salários da seleção masculina e a feminina. Os detalhes do acordo não foram revelados, mas, segundo assinala The Guardian, algumas poderiam dobrar seus rendimentos, e por isso festejaram a conquista.

No histórico de protestos se sobressai também o que protagonizou em 2014 um grupo de 61 jogadoras de seleções, no qual estava também Veronica Boquete, a capitã da Espanha. As jogadoras se insurgiram contra a decisão da FIFA de realizar o Mundial do Canadá de 2015 em gramado artificial, como acabou acontecendo. Depois desse torneio, o motim irrompeu dentro da própria seleção espanhola. As jogadoras escreveram uma carta aberta denunciando os métodos arcaicos do treinador Ignacio Quereda, que estava no cargo havia 27 anos, e pediram sua demissão. O protesto acabou com a destituição do treinador e a chegada de Jorge Vilda, que revitalizou uma equipe que aspira conquistar a Eurocopa deste ano. Vale ressaltar que, apesar das mudanças, há outras lutas a se travar para as atletas espanholas, como contra as cláusulas contratuais antigravidez.