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“Biichaaa!”, o grito homofóbico da torcida que o time do Rio Claro quer banir

Vice-líder da segunda divisão paulista levanta bandeira contra o hábito de torcedores.

Prática em jogos da seleção já resultou em multas à CBF

Rio Claro homofobia
Rio Claro promove campanha contra a homofobia.

“Biiichaaa!”

Virou cena comum em jogos dos grandes clubes de São Paulo. A cada tiro de meta cobrado pelo goleiro adversário, a torcida da equipe mandante faz ecoar alto o grito homofóbico que se espalhou por diversos estádios. Mas um time pequeno do interior paulista resolveu levantar a bandeira e marcar posição contrária ao cântico. O Rio Claro quer abolir de vez o “bicha” de suas arquibancadas.

Que isso não se confunda com rejeição ao público gay. Pelo contrário. Em fevereiro, o clube lançou uma campanha nas redes sociais convocando torcedores de todas as orientações sexuais para prestigiar os jogos no estádio Schimitão. Além disso, se opôs publicamente ao cântico ofensivo em suas dependências. “A comunidade LGBT é bem-vinda no estádio do Rio Claro FC. Aqui você não vai ouvir ‘bicha’ quando o goleiro cobrar tiro de meta em tom de ofensa. Aqui, somos todos iguais, todos irmãos”, bradava a campanha.

A repercussão na internet fez com que as ações se estendessem ao campo. Nas partidas do Rio Claro, são exibidas faixas contra a homofobia e distribuídos panfletos educativos aos torcedores, alertando sobre os diversos tipos de discriminação de gênero. “Nossa intenção com a campanha é mostrar às pessoas e ao nosso torcedor os enormes prejuízos que algumas atitudes podem causar a quem sofre na pele com o preconceito”, conta Rafael Porto, administrador de rede social do Rio Claro. “Não imaginávamos um impacto tão expressivo. Mesmo não sendo um clube grande, conseguimos propor uma reflexão à sociedade por meio do futebol.”

O Movimento LGBT de Rio Claro aprovou a medida. “Recebemos o gesto do clube com alegria”, afirma Leonardo Alves, de 29 anos, um dos integrantes do grupo. “A cidade é muito conservadora, mas, pelo menos entre a comunidade LGBT, houve bastante adesão à campanha. Conheço gente que começou a torcer pelo time por causa disso.” Para Alves, embora a atitude do Rio Claro tenha sido uma surpresa, mais clubes deveriam aderir à luta. “Não importa a quem seja direcionado. Ao usar o termo ‘bicha’ de forma pejorativa, com intuito de ofender, o torcedor acaba sendo preconceituoso. O futebol ainda é muito machista. Tomara que o Rio Claro sirva de exemplo às outras equipes.”

Entretanto, alguns torcedores do Galo Azul não assimilaram bem a campanha. “No começo, tivemos uma aceitação muito boa. Mas, com o tempo, uma minoria, composta por membros de organizadas, passou a ser alvo de piadas de rivais por causa do posicionamento do clube”, diz Porto. Quando os insatisfeitos tentam puxar o grito de “bicha” nos tiros de meta, porém, boa parte da torcida responde em coro: “Sem preconceito, sem preconceito!”. Apesar das manifestações divergentes, a diretoria do clube segue bancando a campanha e pretende manter uma ação permanente de conscientização até que os termos homofóbicos desapareçam do Schmitão.

“Rio Claro é uma equipe de tradição, que sempre pregou o respeito. Antes de funcionário do clube, eu sou torcedor. Frequento arquibancada há muito tempo e também já gritei coisas homofóbicas no estádio. Só que hoje tenho consciência de que isso não é legal. Todas as torcidas precisam se mobilizar por essa causa”, afirma Porto. Fundado em 1909, o Rio Claro é um dos clubes mais antigos de São Paulo e atualmente disputa a segunda divisão do Campeonato Paulista. No mesmo ano em que empreende sua cruzada contra a homofobia, a equipe também faz bonito nos gramados em busca do retorno à elite estadual. O Galo Azul ocupa a segunda posição na tabela, com o mesmo número de pontos do líder São Caetano. É o time que menos perdeu no campeonato: apenas uma derrota em 14 jogos.

Torcida Rio Claro
Torcida do Rio Claro em jogo da Série A2 do Paulistão.

Punição e omissão

Desde o ano passado, a Fifa passou a enquadrar o grito de “bicha” como ato homofóbico e tem multado seleções pelo comportamento inadequado de suas torcidas. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) já teve de pagar 150.000 reais por duas punições relativas aos jogos contra Colômbia e Bolívia pelas Eliminatórias da Copa do Mundo. Na última terça-feira, contra o Paraguai, torcedores presentes na Arena Corinthians também entoaram insistentemente o cântico nos tiros de meta cobrados pelo goleiro Anthony Silva.

Na América do Sul, as federações de Argentina, Chile, Paraguai, Peru e Uruguai também foram punidas pelo mesmo motivo. Os chilenos, por exemplo, acumulam oito sanções. Na última delas, além da multa, a seleção comandada por Juan Antonio Pizzi foi impedida de atuar por duas partidas no Estádio Nacional, em Santiago. O México, onde o grito homofóbico surgiu no início dos anos 2000, é outro país na lista de sancionados pela Fifa. Em espanhol, o termo dirigido em tom pejorativo aos adversários é “puto”.

Em 2014, o Corinthians lançou um manifesto pedindo à sua torcida que deixasse de proferir o grito de “bicha” para evitar punições ao clube. No entanto, no mesmo ano, o Tribunal de Justiça Desportiva de São Paulo entendeu que o cântico dos torcedores não era ofensivo. Desde então, o alvinegro paulista não desenvolveu mais nenhuma ação sobre homofobia. Já no ano passado, um grupo de torcedores palmeirenses criaram o movimento “#eugritoporco”, sugerindo a substituição do termo “bicha” por “porco” nos tiros de meta adversários, mas o Palmeiras não se engajou de forma oficial na campanha.

“Falta coragem aos clubes e à CBF”, diz Rafael Porto. “Por ser um tabu no futebol, os dirigentes ignoram a homofobia nos estádios para não correr o risco de contrariar os torcedores. Mas, se o Rio Claro tomou uma atitude e alcançou muitas pessoas, imagine o peso que teria uma ação de clubes grandes ou da seleção brasileira nesse processo de enfrentamento ao preconceito.”

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