Eleições na França

Juiz convoca Fillon para depor e candidato conservador suspende campanha

“Não vou recuar, não vou me render, não renunciarei”, afirma o candidato francês em declaração formal após suspender ato da campanha

François Fillon, ao lado de sua mulher, Penelope, durante evento político em janeiro.
François Fillon, ao lado de sua mulher, Penelope, durante evento político em janeiro. (REUTERS)

François Fillon, o candidato conservador da eleição presidencial na França, resiste com todas as suas forças aos juízes que o investigam por causa da remuneração de sua esposa, Penelope. Os magistrados o convocaram para depor no dia 15, a fim de torná-lo réu no processo. Depois de saber disso, Fillon afirmou, em declaração formal feita na sede de sua campanha nesta quarta-feira, que seguirá até o fim e que se considera vítima de “um assassinato político”. “Não vou recuar, não vou me render, não renunciarei”, afirmou, antes de dizer que só se submeterá ao veredito das urnas, não dos juízes.

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Acuado diante do escândalo da remuneração de sua mulher como suposta assistente parlamentar, François Fillon suspendeu nesta quarta-feira a sua campanha eleitoral, a menos de dois meses das eleições presidenciais na França. O evento cancelado nesta manhã seria uma visita ao Salão da Agricultura, em Paris. Trata-se de uma passagem tradicionalmente obrigatória para qualquer candidato ou dirigente político, por ser um setor estratégico para o país.

A suspensão foi seguida pela declaração do candidato, tão inesperada quanto violenta. Fillon atacou os juízes. “Somente o sufrágio universal, e não um procedimento realizado ad hoc contra mim, pode decidir quem será o presidente da República”. Para o ex-primeiro-ministro, o Estado de Direito foi “violado”, pois ele não teria sido tratado como “um caso de Justiça como outro qualquer”, mas, pelo contrário, em um processo no qual se deram “irregularidades graves”. Mais do que isso: utilizando uma frase que jamais foi pronunciada por nenhum ex-chefe de Governo, ele se disse vítima de um “assassinato político”.

“É disso que se trata”, afirmou, apontando como uma suposta prova disso a rapidez com que a instrução do caso aconteceu, a sua denúncia imediata e a escolha do dia 15 de março para seu depoimento, dois dias antes do fim do prazo para a entrega das assinaturas de apoio necessárias para formalizar a candidatura. “Peço-lhes que resistam. Eu farei isso. Minha família está fazendo isso. Só o povo pode decidir”.

“Não vou renunciar. Irei até o fim. Serei candidato à presidência da República”. E “com uma determinação ainda maior”, disse o candidato, porque, independentemente de seus “erros”, é a democracia que está sendo “desafiada”. “A França é maior do que os meus erros”, afirmou, depois de se escudar novamente atrás de sua legitimidade como candidato – quatro milhões de eleitores participaram das primárias da direita – e da presença nas eleições.

O evento no Salão da Agricultura, em si, já implicava uma série de problemas de segurança para Fillon, como se admitia dentro de seu próprio partido, o Republicanos. Têm sido raros os comícios ou eventos de campanha de Fillon em que não aparece algum grupo de pessoas a fim de insultá-lo e criticá-lo por ter empregado sua mulher no Parlamento, do qual ela teria recebido cerca de 900.000 euros (cerca de 2,8 milhões de reais), incluída a indenização por rescisão contratual.

Nesse Salão, o risco era ainda maior porque há muitos agricultores que são eleitores do partido de extrema direita Frente Nacional. Mais de 40%, segundo as últimas pesquisas. A líder da FN, Marine Le Pen, visitou o mesmo salão nesta terça-feira, em meio a aplausos e demonstrações de apoio.

Fillon chegou a afirmar no último fim de semana que há na França um clima “quase de guerra civil”, referindo-se aos ataques que tem recebido. Apesar disso, ele vinha mantendo na agenda essa arriscada visita ao Salão. A surpresa foi o seu cancelamento intempestivo.

Fillon já havia conversado com o prefeito de Bordeaux, Alain Juppé, e com o ex-presidente da República Nicolas Sarkozy, ambos derrotados por ele nas primárias da direita de novembro passado. Segundo fontes do partido, o candidato conta com o apoio de todos em sua organização. Ele já havia feito isso quando o caso surgiu, em janeiro, quando conseguiu o apoio dos dirigentes. “Não existe Plano B”, repete-se no partido.

“Vou até o fim”, prometeu o próprio Fillon duas semanas atrás. Quando a Promotoria Nacional de Finanças abriu uma investigação preliminar, há 40 dias, Fillon afirmou que renunciaria como candidato caso fosse denunciado. Três semanas depois, voltou atrás, dizendo que não abriria mão da campanha sob hipótese alguma e que se submeteria ao “veredito das urnas”.

Paralelamente, os advogados dele e de sua esposa afirmaram, há duas semanas, que a investigação sobre Fillon é “ilegal”, pois não respeitaria “o princípio da separação de poderes”. Segundo a sua interpretação singular, o Parlamento é a única instância que pode pedir alguma prestação de contas referente à verba que destina aos deputados e senadores para que contratem seus auxiliares.

Fillon é deputado, e se fosse denunciado, a Assembleia nacional é que teria de decidir se anularia ou não a sua imunidade parlamentar. De todo modo, os cronogramas judicial e parlamentar não preveem que haja qualquer decisão definitiva antes das eleições presidenciais: primeiro turno em 23 de abril e segundo turno em 7 de maio.

Apesar disso, a Promotoria “judicializou” o caso. Desde a semana passada, três juízes foram encarregados de realizar a instrução do processo contra o casal Fillon e outros envolvidos no caso, incluindo dois filhos do candidato, também contratados como supostos assistentes do ex-primeiro-ministro. Uma das primeiras decisões dos magistrados será incriminar ou não o candidato conservador.

Desde a eclosão do escândalo, semana após semana, as pesquisas têm sido cruéis com Fillon. Se a eleição fosse esta semana, o candidato dos Republicanos seria eliminado já no primeiro turno, o que significaria um golpe muito duro para a direita. Estariam no segundo turno a ultradireitista Marine Le Pen e o centrista Emmanuel Macron, que visitou também o Salão da Agricultura nesta quarta-feira.

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